L.I.B.:CAPÍTULO XVI

O CULTO DAS IMAGENS (topo)

OBSERVAÇÕES PRELIMINARES

380. UTILIDADE DAS IMAGENS.

Antes de tratarmos sôbre a questão do culto das imagens, temos que desfazer algumas confusões que há sôbre o assunto na cabeça dos protestantes.

Notaremos, logo de início, que o culto das imagens NÃO é OBRIGATÓRIO neste sentido de que alguém, para salvar-se, tenha que possuir imagens ou prestar-lhes culto, nem também no sentido de que sem elas nós não nos pudéssemos dirigir aos seus protótipos. A Igreja poderia, até, proibir o uso das imagens em alguma região onde êste culto estivesse sendo mal interpretado e não houvesse possibilidade de ser bem compreendido.

O que é obrigatório, sim, é reconhecerem os católicos a legitimidade do culto das sagradas imagens e que elas são dignas de todo o nosso respeito e veneração.

A Igreja mantém o culto das imagens, porque resulta grande utilidade dêste culto, que é legítimo, pois "a honra que se lhes tributa se refere aos protótipos por elas representados, de modo que, por Meio das imagens que beijamos e !diante das quais descobrimos a cabeça e nos curvamos, nós adoramos a Cristo e veneramos os santos, dos quais elas nos apresentam uma semelhança" (Concílio de Trento: sessão XXV). Não se entende absolutamente "que nelas haja alguma divindade ou alguma virtude, pela qual devam ser cultuadas, nem que é a elas que se deva pedir alguma coisa, nem que se deva pôr a confiança nas imagens, como acontecia outrora com os gentios que colocavam a sua esperança em ídolos" (Concílio de Trento: sessão XXV). O poder está em Deus que nos concede muitas graças pela intercessão dos santos, graças estas que são tôdas pedidas em nome de Jesus Cristo e alcançadas em virtude dos méritos de sua Paixão Redentora.

Qual é então a grande utilidade das imagens?

Fala-se muito hoje em ENSINO INTUITIVO, ou seja, fazer a criança, a pessoa VER em lugar de obrigá-la só a pensar e raciocinar. E um dos elementos mais eficazes para o ensino intuitivo é o desenho, a gravura, a representação do objeto. Pois, êste ENSINO INTUITIVO, a Igreja o vem empregando desde os primeiros séculos.

A imagem é o livro do analfabeto.

O Protestantismo pode dispensar a imagem, porque é uma religião inventada só para grandes sábios, para homens de grande cultura. Cada protestante pretende ser, pelas suas próprias luzes, UM INTÉRPRETE da Bíblia; para isto se requer conhecimento do grego e do hebraico, bem como uma inteligência muito acima do comum, porque há textos na Bíblia que qualquer criança entende, mas há outros intrincadíssimos que desafiam os maiores gênios; interpretar um ou outro texto aqui e acolá pode ser fácil e contradição não há na Bíblia, porque ela é infalível, mas entender perfeitamente todos os textos e harmonizá-los, tendo em mãos edições sem comentários que tanto estão difundidas no seio da reforma, isto é uma tarefa dificílima.

Todos os protestantes são, portanto, ou pelo menos, deveriam ser grandes cabeças pensantes…

Mas a Igreja Católica, como o seu próprio nome indica, é uma Religião para todos, pois Católica quer dizer Universal; não só para os sábios, mas também para os rudes e os ignorantes. E um homem rude pode ouvir um sermão maravilhoso sôbre a Paixão de Jesus Cristo e não ficar tão comovido como ao ver a Imagem de Cristo Crucificado, em que se pintam ao vivo os sofrimentos que Cristo aceitou por nosso amor. Sua cabeça pode ser fraca para guardar tôdas as idéias belíssimas do orador, mas o seu coração é grande e bastante sensível para se impressionar com a obra de arte que êle VÊ, que tem diante de seus olhos.

Padre Henrique van der Horst era vigário de Pôrto Calvo, em Alagoas, quando um dia, ao entrar na sua matriz, encontrou uma camponesa debulhada em lágrimas diante da imagem do Bom Jesus. Perguntando-lhe êle a razão de tantas lágrimas, a matutinha exclamou: "Não está vendo o Sr. o que fizeram com Êle? Quanta malvadeza! Como é que O fizeram ficar assim nesse estado?"

O vigário procurou aproveitar a ocasião para fazer-lhe uma exortação: "Fomos nós que fizemos isto com os nossos pecados. Foi a Sr.a também, fui eu, foram todos os pecadores, porque Êle ficou assim para salvar a nossa alma."

Mas o sermão não foi bem entendido: "Eu não! Eu não fiz nada com Êle! Foram os malvados que fizeram isto!"

A sua inteligência não pôde perceber todo o alcance das palavras do sacerdote; mas o seu coração sabia expandir-se diante da imagem, na meditação dos sofrimentos de Jesus.

E para não nos limitarmos a contar o que se passou com os outros, quem está escrevendo estas linhas já teve ocasião de assistir a uma cena bem expressiva nesta matéria. Era num lugarejo do interior de Pernambuco. Às quatro da tarde, estávamos na igreja matriz, quando vimos três matutos (era um dia de feira) deixarem à porta os seus sacos, cheios de mantimentos, porque regressavam para casa, e começarem a percorrer o templo sagrado. Logo lhes chamaram a atenção os quadros da Via Sacra, em que estão gravadas as cenas passadas com Jesus no caminho do Gólgota.

Um dos visitantes, mais desembaraçado, ia procurando interpretar para os outros as cenas que iam vendo. E entremeava as suas explicações com exclamações como esta: "Está vendo? Êle era Deus e sofreu tanto! E nós? Nós não queremos sofrer nada!"

Percebia-se claramente ali quanto a pintura é intuitiva para o analfabeto. Na sua muda linguagem estava a Via Sacra fazendo o mais eloqüente dos sermões.

Já S. Gregório Nazianzeno (do século IV) falava de uma mulher pecadora que se converteu ao contemplar a imagem do mártir S. Polemon (Carmen de vita sua L I.ª secção II.ª v. 800 segs.) e S. Gregório de Nissa (também do século IV) declarava que jamais viu o quadro do sacrifício de Isaque, sem que as lágrimas lhe viessem aos olhos, de modo que Basílio, bispo de Ancira, presente ao 2.º Concílio de Nicéia, comentava: "Muitas vêzes êste Padre tinha lido a história e não tinha chorado, mas, quando viu a pintura, chorou." E outro Padre presente ao mesmo Concílio acrescentava: "Se a pintura produz um tal efeito em um mestre, como não será útil aos ignorantes e aos simples !"

Compreende-se, portanto, muito bem, que quando Sereno, bispo de Marselha, temendo que se interpretasse mal o culto das imagens, quis proibi-las, o Papa S. Gregório Magno (do século VI) que foi notável também pela sua grande cultura, o tenha repreendido, dizendo: "Aquilo que para os letrados é a escrita, é a pintura a ser vista pelos rudes, porque nela, mesmo os ignorantes vêem o que devem imitar; nela lêem os que não conhecem as letras" (Epístolas LIX, 105).

E diz também o Cardeal Gibbons: "As imagens religiosas podem ser consideradas como um catecismo para os rudes… Quando Agostinho, apóstolo da Inglaterra, apareceu a primeira vez diante do rei Etelberto para pregar o Evangelho, foram postas diante do pregador imagens de Cristo pendente da cruz e outras imagens de Cristo Salvador e elas foram mais eloqüentes para os olhos dos ouvintes do que as palavras para os ouvidos."

Para que é que se fazem as estátuas dos grandes homens e se põem aos olhos de todos na praça pública? É para avivar sempre a sua memória e para que o exemplo de sua vida fique sempre patente diante de todos.

É o que acontece com as imagens de Nosso Senhor Jesus Cristo, de Maria SS.ma e dos santos nas nossas igrejas. Sem que ninguém precise fazer um sermão, elas estão continuamente RELEMBRANDO seus protótipos, EVOCANDO A RECORDAÇÃO daqueles que não devemos jamais esquecer, para copiarmos a santidade de suas vidas.

E aqui entra o protestante com o seu espírito pirrônico: E quem pode garantir que aquilo é o retrato fiel de Jesus, de Maria ou dos santos?

— Para que a imagem produza o bom resultado de nos despertar a lembrança do santo, não é necessário que seja A CÓPIA FIEL DAS FEIÇÕES do protótipo.

Estabeleceu-se na arte cristã de todos os tempos um sistema tradicional de representar o Divino Redentor, sua Santa Mãe e os santos, de tal modo que sem ser preciso colocar-se o nome no pedestal, o homem; mesmo rude, mesmo o camponês, sabe que aquela imagem é de Jesus, aquela de Maria SS.ma, aquela de S. José, ou de S. Pedro ou de S. Antônio etc. Isto é o bastante para que evoque imediatamente estas augustas pessoas, desperte a sua lembrança, excite demonstrações de respeito, amor e veneração por elas.

A bandeira do país suscita imediatamente no indivíduo a lembrança de sua Pátria querida. E para isto não é necessário que o brasileiro ou o alemão ou o japonês veja naquela bandeira A CÓPIA FIEL de sua Pátria. É um símbolo convencional que a representa, e é quanto basta para acender-lhe o entusiasmo patriótico.

O mesmo se dá com as imagens. Elas têm por fim excitar a devoção, alimentar a piedade dos fiéis, fazendo-os imediatamente transportar o seu pensamento para os protótipos que elas representam e provocando o desejo de imitá-los sinceramente na sua vida.

381. NOÇÃO DE ÍDOLO E DE IMAGEM.

Quem vai entrar em discussão sôbre uma questão qualquer (e principalmente quem vai lançar contra outrem uma GRAVE ACUSAÇÃO) precisa ter uma idéia bem clara sôbre o significado dos têrmos que emprega nesta controvérsia ou nesta acusação. Discutir sem a exata noção dos têrmos seria obrigar os adversários a uma lamentável perda de tempo; acusar sem medir bem o alcance das palavras, seria mais do que uma leviandade, uma falta de consciência indigna de um verdadeiro cristão.

Ora, há protestantes (dizemos há protestantes, porque felizmente não são todos) que levam o seu ódio à Igreja Católica ao ponto de acusá-la de IDOLATRIA que, como a própria palavra está dizendo, consiste no culto de LATRIA (ou seja adoração no sentido rigoroso da palavra) prestada aos ÍDOLOS. É muito fácil verificar se é exata ou não esta acusação.

Afinal que vem a ser ídolo?

Ídolo é a figura representativa de um deus falso, à qual se presta culto. O Senhor é grande e digno de louvores infinitos e terrível mais que todos os deuses, porque todos os deuses das gentes são ÍDOLOS; mas o Senhor fêz os Céus (1.º Paralipômenos XVI-25 e 26). Eles reputaram por deuses a todos os ÍDOLOS das nações (Sabedoria XV-15).

Nós sabemos que, antes de Cristo, o mundo inteiro em pêso caiu na idolatria, ou seja, adoração de estátuas de FALSAS DIVINDADES, as quais os homens consideravam COMO SENDO O SEU SUPREMO SENHOR, mudando, como diz S. Paulo, a glória de Deus incorrutível em semelhança de figura de homem corrutível e de aves e de quadrúpedes e de serpentes (Romanos I-23). A única exceção a essa geral degenerescência da razão humana era o pequenino povo hebreu, o qual, entretanto, de vez em quando, pelo menos em parte, caía também neste grave pecado pela influência dos povos vizinhos, com os quais era obrigado a entrar em contacto.

Conhecemos pela História a quantidade enorme dêsses falsos deuses e deusas, aos quais prestavam culto mesmo os povos mais civilizados, no desconhecimento em que se encontravam da existência do Deus Único, Espiritual e Eterno. Como eram entre os romanos, ou, com outros nomes entre os gregos: Júpiter, Apolo, Mercúrio, Marte, Netuno, Saturno entre os deuses; e Juno, Vênus, Diana, Minerva, Vesta e Ceres entre as deusas.

Como eram entre os egípcios: Amon, Osiris, Hórus, Anúbis, Isis etc.

Como eram na Mesopotâmia: Marduque, Assur, Samash, Sin, Istar etc.

A Bíblia nos fala no nome de alguns dêstes ídolos adorados por povos vizinhos dos hebreus: Baal, Astaroth, Astarte, Moloque, Camos. Os filhos de Israel, ajuntando novos aos antigos pecados, fizeram o mal na presença do Senhor e adoraram os ídolos, a BAAL e a ASTAROTH, e os deuses da Síria e de Sidônia e de Moab (Juízes X-6). Salomão dava culto a ASTARTE, deusa dos sidônios e a MOLOQUE, ídolo dos amonitas (3.º Reis XI-5). Edificou Salomão um templo a CAMOS, ídolo dos moabitas (3.º Reis XI-7).

Ora, 3 coisas verdadeiramente absurdas se notavam nesta IDOLATRIA OU adoração dos ídolos.

A primeira é que se apresentavam como DEUSES, em contraposição COM O ÚNICO e VERDADEIRO DEUS.

A segunda é que êsses deuses não correspondiam a nenhuma realidade. Nunca existiu Júpiter, nem Baal, nem Vênus etc, etc. Eram pura imaginação. É por isto que diz S. Paulo: mudaram a verdade de Deus em MENTIRA (Romanos 1-25).

Sendo o culto dêsses deuses inteiramente mentiroso, prestado a sêres completamente inexistentes e destinando-se assim a substituir a adoração do verdadeiro Deus, a Bíblia o apresenta como sendo prestado ao próprio demônio, PAI DA MENTIRA, que fomentava no mundo êsse culto ilusório para afastar os homens dá verdadeira noção do Criador; os sacrifícios a êles oferecidos, eram endereçados aos demônios: Eles O irritaram adorando deuses estranhos e com as suas abominações O provocaram à ira. Ofereceram sacrifícios, não a Deus, mas AOS DEMÔNIOS, aos deuses que êles desconheciam (Deuteronômio XXXII-16 e 17). Todos os deuses das gentes são DEMÔNIOS; mas o Senhor fêz os Céus (Salmos XCV-5). E serviram aos seus ídolos e lhes foi causa de tropêço. E imolaram aos DEMÔNIOS os seus filhos e as suas filhas (Salmos CV-36 e 37). As coisas que sacrificam os gentios, as sacrificam aos DEMÔNIOS, e não a Deus (1.ª Coríntios X-20).

A terceira é que, não correspondendo êsses ídolos a nenhuma realidade, os gentios que os adoravam, era daquelas estátuas em si mesmas que esperavam todo poder, tôda proteção, de modo que estavam convencidos de que se desprendia daquele objeto material uma virtude, um poder mágico. E é assim que Deus pelo profeta Isaías comenta com ironia o absurdo de um homem que fabrica uma imagem e a considera COMO SENDO O SEU DEUS: O escultor estendeu a sua régua sôbre o pau, êle o formou com o cepilho, pô-lo em esquadria, e com o compasso lhe deu as devidas proporções e fêz dêle uma imagem de varão, como um homem bem apessoado que habita numa casa. Cortou cedros, tomou uma azinheira e um carvalho que estivera entre as árvores dum bosque, plantou um pinheiro, que criou a chuva. E esta árvore serviu aos homens para o fogão; êle mesmo tomou parte das mencionadas árvores e com ela se aquentou e a acendeu e cozeu um par de pães; e do mais que ficou FEZ ELE UM DEUS e o adorou, fêz uma estátua e prostrou-se diante dela. A metade dêste pau, queimou êle no fogo e com a outra metade cozinhou as carnes que comeu; acabou de cozer as suas viandas e fartou-se delas e aquentou-se e disse: Bom, aquentei-me, já vi aceso o fogão. E do que ficou do mesmo pau FEZ ELE PARA SI UM DEUS e um ídolo, diante do qual se prostra, e o adora e lhe roga, dizendo: LIVRA-ME, PORQUE TU ÉS O MEU DEUS (Isaías XLIV-13 a 17)

Até aqui a noção de ídolo. Passemos agora à de imagem.

Imagem é um têrmo de significação muito ampla. Quer dizer a representação ou semelhança expressa de um ser qualquer. Não é só qualquer estátua ou desenho ou gravura; o sentido é tão vasto que quando nos lembramos de uma pessoa, dizemos trazer a sua IMAGEM em nossa mente; ou quando o orador usa de belas comparações, nós dizemos que êle emprega belas IMAGENS, ou seja, umas idéias representando outras.

Mas, quando falamos, como agora é o caso, da questão do culto das imagens, entendemos por esta palavra as imagens sagradas, ou de pintura ou de escultura, que estão em uso na Igreja Católica.

São figuras representativas, NÃO DE FALSOS DEUSES, mas de Nosso Senhor Jesus Cristo, de sua Mãe Maria Santíssima, dos anjos e dos santos.

A Igreja Católica, espalhando no mundo as idéias cristãs desde os primeiros séculos, espalhou conseqüentemente a doutrina fundamental de que há um ÚNICO E VERDADEIRO DEUS, ESPIRITUAL, INVISÍVEL, IMUTÁVEL E ETERNO, CRIADOR DE TODAS AS COISAS.

Mas é claro que todos os grandes personagens da História e todos os fatos relevantes para a Humanidade, têm fornecido assunto para as BELAS ARTES, como o desenho, a pintura e a escultura; nada mais natural, portanto, do que os ARTISTAS CRISTÃOS procurarem expressar os grandes personagens da História do Cristianismo, entre os quais avulta, é claro, Nosso Senhor Jesus Cristo, Homem-Deus, figura central de tôda a História da Humanidade. Com êle, têm que ser relembrados os episódios sacrossantos da sua vida. Entre êstes aparece, como um dos mais belos assuntos para a arte cristã, o seu nascimento em Belém e aí já é inseparável a sua Mãe Santíssima. Como também merecem a atenção dos artistas os santos que ficam como um exemplo admirável para os homens pelo modo como souberam realizar em si as virtudes cristãs e espelhar na sua vida os ensinamentos de Jesus, bem como, segundo a nossa maneira de expressá-los, os anjos que são os mensageiros de Deus.

Ora, sabe-se muito bem que a imagem, a representação, o símbolo valem, não pelo que são materialmente em si, como seja um pedaço de pau ou de pano ou um aglomerado de gêsso, mas valem muito aos nossos olhos em virtude daquilo que representam.

Portanto, querer confundir duas coisas tão diversas, como sejam:

o ídolo, isto é, a representação de uma falsa divindade, inventada pelos demônios;

e a imagem, isto é, a representação de Nosso Senhor Jesus Cristo, de Maria SS.ma e dos anjos e santos;

sob o pretexto de que tudo não passa de pedaços de pau, ou de pano ou de gêsso, isto é o mesmo que dizer que:

o retrato de meu pai, ou de minha mãe ou de meus irmãos — e o retrato de um cachorro vêm a ser a mesma coisa, porque tudo isto não passa de um pedaço de papel, onde pousou o material fotográfico;

ou que a bandeira que simboliza a nossa querida Pátria — e o pano que serve para a cozinheira enxugar os pratos vêm a ser a mesma coisa, porque tudo isto vem a ser apenas um simples pedaço de pano.

As imagens valem por aquilo que representam. Por isto os IDOLOS eram ABOMINÁVEIS, pois representavam os falsos deuses, que não passavam de invenções diabólicas para perdição dos homens. As nossas sagradas IMAGENS SÃO VENERADAS, porque representam REALIDADES que são dignas de todo o nosso respeito e consideração.

E os protestantes que querem tachar de ÍDOLOS (ídolos, o que é o mesmo que abominação aos olhos do Senhor) as nossas imagens sagradas são refutados por outros seus companheiros de Reforma: porque há seitas, como os luteranos e anglicanos que têm nas suas igrejas imagens iguais às que estão em uso na Igreja Católica; se são ÍDOLOS abomináveis, por que os conservam nos seus templos?

382. NOÇÃO DE ADORAÇÃO E LATRIA.

Nem as nossas imagens são ídolos, como acabamos de ver; nem também o culto que a elas prestamos é de latria ou de verdadeira adoração. É o que iremos provar.

Sabemos todos, católicos e protestantes, que só DEVEMOS ADORAR A DEUS.

Mas o que não deixa de lançar uma certa confusão sobre o assunto é que a palavra ADORAÇÃO pode ter vários sentidos: existe a adoração impropriamente dita e a adoração propriamente dita.

ADORAR, por exemplo, pode significar: querer bem, ter muita estima. Um pai pode dizer: Adoro os meus filhinhos. Um filho extremoso pode dizer: Adoro minha santa mãe. E no entanto não estão cometendo nenhum ato de ofensa a Deus, pois se adorar aí no caso quer dizer querer muito bem, então êste pai tem obrigação mesmo de ADORAR os seus filhinhos, isto é, querer muito bem a êles; êste filho tem obrigação de ADORAR a sua mãe, isto é, amá-la de todo o coração. Deus mesmo quer que seja assim; o êrro só haverá, se estas pessoas puserem o amor de seus filhinhos ou o amor de sua mãe acima do amor de Deus, que deve ser superior a todos os outros amôres.

É comum ouvir-se esta expressão: uma CRIATURA ADORÁVEL, que ao pé da letra deveria indicar uma criatura digna de ser adorada, mas que, sem nenhuma blasfêmia, exprime simplesmente isto: uma criatura que nos merece tôda simpatia, benevolência e estima.

Na linguagem bíblica, no latim e também no português antigo, a palavra ADORAR tem igualmente o sentido de PROSTERNAR-SE, isto é, ajoelhar-se com os dois joelhos e fazer uma inclinação de cabeça que pode ser mais ou menos profunda e que pode ser profunda até o ponto de se fazer chegar a cabeça até o chão. Existem vários sistemas de saudação entre os diversos povos, como sejam entre nós, por exemplo: tirar o chapéu, fazer uma inclinação de cabeça, dar um apêrto de mão etc. Os orientais, muito mais pródigos e exagerados do que nós neste assunto de cumprimentos, costumavam diante de personagens muito ilustres, que mereciam grande respeito, levar a saudação até êste ponto: a prosternação completa, isto é, não só de joelhos, mas também com muito profunda inclinação de cabeça. Daí não se segue que considerassem a pessoa que recebia tais saudações como se fôsse UMA DIVINDADE. Apenas o gesto significa isto: um profundo respeito.

Quando dizemos que só A DEUS DEVEMOS ADORAR, não é tomando a palavra ADORAR no sentido de prosternar-se, pois esta ADORAÇÃO IMPROPRIAMENTE DITA aparece muito freqüentemente na Bíblia, feita por pessoas dignas e servos de Deus a outras criaturas e nunca foi intenção da Bíblia fazer propaganda de idolatria: Levantando, porém, Jacó os seus olhos viu vir Esaú… E êle mesmo, adiantando-se o ADOROU sete vêzes prostrado por terra até chegar a seu irmão… Chegou também Lia com seus meninos; e como O ADORASSEM do mesmo modo, em último lugar O ADORARAM José e Raquel (Gênesis XXXIII-1, 3 e 7). No mesmo ponto abriu o Senhor os olhos de Balaão, e êle viu o anjo parado no caminho com a espada desembainhada e prostrado por terra, o ADOROU (Números XXII-31). Josué viu um anjo, em figura de homem e se lançou com o rosto em terra e ADORANDO-O, disse: Que diz meu Senhor ao seu servo? (Josué V-15). Tendo-se, pois, presentado ao rei esta mulher de Técua, deitou-se por terra diante dêle e O ADOROU e disse: Salva-me, ó rei (2.º Reis XIV-4). Joab, prostrando-se por terra sôbre o seu rosto, ADOROU e felicitou ao rei (2.º Reis XIV-22). Inclinou-se Betsabée profundamente e ADOROU o rei (3.º Reis 1-16). Eliseu lhe disse: Toma o teu filho. Chegou-se ela e lançou-se a seus pés e O ADOROU prostrada em terra; e tomou seu filho e saiu (4.º Reis IV-36 e 37). E todo o povo bendisse o Senhor Deus de seus pais; e se prostraram e ADORARAM a Deus e depois AO REI (1.º Paralipômenos XXIX-20).

Quando Cornélio, ao receber S. Pedro, prostrando-se aos seus pés o ADOROU (Atos X-25) não praticou um ato pecaminoso de idolatria ou de culto divino prestado à criatura, pois Cornélio era homem justo e temente a Deus (Atos X-22). Pedro, porém, lhe disse: Levanta-te, que eu também sou homem (Atos X-26). A extraordinária modéstia de S. Pedro (mais realçada ainda pelo alto cargo que ocupava), a sua humildade profunda que conservou durante tôda a vida, máxime depois do pecado da negação, faziam com que o Apóstolo se sentisse incomodado ao ver alguém diante dêle desmanchar-se em saudações tão rasgadas, quando êle, Pedro, era homem e também havia pecado.

Qual é, então, o conceito da verdadeira adoração, da adoração no sentido próprio (que se expressa pelo têrmo técnico LATRIA) e que só a Deus é devida?

Latria ou ADORAÇÃO PRÓPRIAMENTE DITA é O ato pelo qual se tributa homenagem a um ser, como ao Supremo Senhor de tôdas as coisas, ou em outras palavras, como tendo o supremo domínio sôbre nós.

É um êrro, por exemplo, dizer: ajoelhar-se diante de alguém ou de alguma coisa é adorar, é fazer ato de idolatria. Eu posso ajoelhar-me diante de meu pai, de minha mãe ou de uma pessoa qualquer, para lhes pedir perdão de uma falta que cometi; daí não se segue que eu lhes esteja prestando a adoração que só a Deus é devida. Pois posso ajoelhar-me diante dessas pessoas, exclusivamente por um ato de humildade, sem considerar a nenhuma delas, como sendo o SUPREMO SENHOR DE TÔDAS AS COISAS. Nem mesmo, como vimos há pouco, o ato de ajoelhar-se e curvar a cabeça até o chão indica o culto de latria, pois os orientais faziam êste gesto tão espetacular, simplesmente com a intenção de manifestar o profundo respeito que lhes inspirava aquela criatura.

O católico, no grande dia da Sexta-feira Santa, dia em que se comemora a morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, pode ajoelhar-se com os 2 joelhos diante da cruz e inclinar a cabeça; isto apenas significa o grande respeito, a especial veneração que lhe merece a cruz do Divino Salvador, onde Êle remiu a Humanidade; o seu pensamento se volta para o Calvário, onde se deu outrora a expiação infinitamente meritória de Cristo e quer com êste ato homenagear a Cristo, que nos salvou. Não é o fato de chamar-se esta cerimônia ADORAÇÃO DA CRUZ que torna isto um ato de idolatria; a palavra ADORAÇÃO é aí empregada no sentido de PROSTERNAÇÃO, assim como o verbo adorar é empregado muitas e muitas vêzes na Bíblia, como vimos, no sentido de dobrar os joelhos com profunda inclinação de corpo: Jacó adorou a Esaú, Balaão adorou o anjo, Betsabée adorou o rei, o povo adorou a Deus e depois ao rei, etc. Pode ser muito bronco e muito estúpido êste católico; porém mesmo assim sabe muito bem que não são aquêles 2 pedaços de madeira atravessados um no outro que constituem seu DEUS, porque, como diz na sua linguagem simples e ingênua o nosso povo: "Deus está no Céu e na terra e em todo lugar onde se chamar por Êle."

Por aí se vê que a adoração propriamente dita, ou seja, o culto de latria é um ATO INTERNO que se processa no nosso espírito, no nosso coração e ato pelo qual se reconhece aquêle Ser, como nosso Supremo Senhor, como nosso Deus, a quem devemos a existência, a quem devemos tudo e de quem tudo esperamos.

Como somos criaturas compostas de alma e corpo, costumamos manifestar por atos exteriores os nossos sentimentos internos. Esta adoração a Deus, podemos manifestá-la de diversas formas, mas entre êstes atos externos só há um que por si mesmo, indica diretamente, necessàriamente o culto de latria: é o SACRIFÍCIO. Imolava-se a vítima precisamente para isto: para indicar com aquela vítima sacrificada, a qual morria ou desaparecia, que o Ser cultuado é o Supremo Senhor DA VIDA E DA MORTE. Por isto se explica muito bem que Paulo e Barnabé, confundidos em Listra, respectivamente, com os deuses Mercúrio e Júpiter, rasgassem as suas vestiduras e protestassem veementemente quando o sacerdote de Júpiter, que estava à entrada da cidade, trazendo para ante as portas touros e grinaldas, queria SACRIFICAR com o povo (Atos XIV-12).

Diante dos ÍDOLOS, ou seja, dos deuses falsos, qualquer ato externo de homenagem que se fizesse, como seja, queimar incenso, ajoelhar-se, ou simplesmente curvar a cabeça era um ATO PECAMINOSO, porque aquêles ídolos eram apresentados como sendo DEUSES, como se tivesse qualquer um dêles, ou sozinho ou de parceria com outros, O SUPREMO DOMÍNIO DE TODAS AS COISAS. Quem lhes prestava culto o prestava diretamente àquela estátua, que não correspondia a nenhuma realidade e assim dava gôsto ao demônio que se servia de tão abomináveis invenções para afastar os homens do culto do verdadeiro Deus, trazendo todos os povos pagãos na mais grosseira idolatria.

Quando, porém, nós católicos que sabemos só existir um Deus, que é Espiritual e Eterno, Supremo Senhor de tôdas as coisas e só a Êle prestamos o culto de latria, cercamos de carinho e veneração as sagradas imagens de Jesus Cristo, de Maria Santíssima e dos santos, a coisa é muito diversa. Não estamos diante de ÍDOLOS, ou de DEUSES FALSOS. Diante de uma imagem de Jesus Cristo, sabemos muito bem que não é aquela imagem, mas sim o seu protótipo, Jesus, que é o Supremo Senhor do Universo, Autor da Vida e da morte. Diante da imagem de Maria SS.ma e dos santos, sabemos muito bem que nem aquela imagem, nem o seu protótipo é o Supremo Senhor do Universo. Isto, porém, não nos impede de mostrar-lhes o nosso amor, de fazer-lhes as nossas súplicas, diante destas venerandas representações e imagens que tanto nos excitam ao fervor e à devoção.

E quando afirmamos categoricamente que não estamos prestando a estas imagens um culto de latria, é inútil que venham os protestantes teimar conosco, querendo convencer-nos de que o nosso culto é de verdadeira adoração. Pois a adoração é um sentimento interno, e os protestantes não podem saber melhor do que nós mesmos (e Deus) aquilo que realmente se passa no nosso íntimo, no interior do nosso coração.

383. A ADORAÇÃO EM ESPIRITO E VERDADE.

E é precisamente porque a verdadeira adoração se processa NO NOSSO ÍNTIMO, que Nosso Senhor disse estas palavras: A hora vem, e agora é, quando os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai EM ESPÍRITO E VERDADE; porque tais quer também o Pai que sejam os que O adorem. Deus é espírito, e em espírito e verdade é que O devem adorar os que O adoram (João IV-23 e 24).

Nosso Senhor se refere aí à transformação que vem trazer o Cristianismo, substituindo-se àquela religião de meras exterioridades em que tinha caído o judaísmo: este povo honra-me com os lábios; mas o seu coração está longe de mim (Mateus XV-8). Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que dizimais a hortelã e o endro e o cominho e haveis deixado as coisas que são mais importantes da lei, A JUSTIÇA, e A MISERICÓRDIA e A FE estas coisas eram as que vós devíeis praticar sem que, entretanto, omitísseis aquelas outras (Mateus XXIII-23). Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, porque limpais o que está por fora do copo e do prato, e por dentro estais cheios de rapinas e de imundícias (Mateus XXIII-25).

Apesar de praticarem muitos atos exteriores de religiosidade, não praticavam os judeus A VERDADEIRA ADORAÇÃO; esta consiste em que a nossa alma esteja totalmente SUBMISSA a Deus: a nossa inteligência, pela fé na sua palavra infalível; o nosso coração, pelo amor a Êle acima de tôdas as coisas; o nosso espírito, pela resignação à sua vontade; tôda a nossa vida, pela exata observância dos seus mandamentos. Isto é que é realmente reconhecer a Deus como Supremo Senhor nosso e Supremo Senhor de tôdas as coisas.

Verdadeiro adorador, em qualquer época, em qualquer país, é aquêle que se acha no estado de GRAÇA SANTIFICANTE, isto é, em situação de amizade com Deus, com os seus pecados perdoados e com o firme propósito de jamais voltar a cometê-los. Porque aquêle que está no estado de pecado mortal não pode dizer, em tôda a extensão da palavra, que RECONHECE O SUPREMO DOMÍNIO DE DEUS sôbre a sua alma; se reconhece em teoria, não quer reconhecê-lo na prática, nas suas ações, no seu modo de agir, antes se coloca sob a servidão do demônio, pois, como disse a Sabedoria Eterna: Todo o que comete pecado é escravo do pecado (João VIII-34). E é por isto que diz S. Paulo, a respeito daqueles que têm contaminadas tanto a sua mente como a sua consciência: êles confessam que conhecem a Deus, mas NEGAM-NO com as obras (Tito 1-15 e 16).

A Igreja tem as belas cerimônias de sua liturgia, para a qual contribuem tôdas as artes: arquitetura, pintura, escultura, música, eloqüência etc, tôdas a serviço do sentimento religioso que ela procura infundir nos seus filhos fiéis. Aliás, o centro de tôda a liturgia é Jesus Cristo realmente presente na Hóstia Consagrada, que é objeto da nossa adoração, do culto de latria, porque é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade.

Mas ao mesmo tempo que nos emociona com as suas cerimônias, ela nos lembra sempre que isto é um meio e não um fim; ela quer sobretudo chegar à PURIFICAÇÃO DA ALMA e à sua TOTAL DEDICAÇÃO A DEUS. Esta purificação da alma se opera com a confissão bem feita, a qual só É POSSÍVEL quando o cristão não só está sinceramente arrependido de seus pecados, mas está sinceramente resolvido, custe o que custar, a jamais voltar a cometê-los. Recuperando assim A GRAÇA SANTIFICANTE que havia recebido no Batismo, o católico se habilita a ser um VERDADEIRO ADORADOR numa total submissão a Deus, e quanto mais santo fôr interiormente, tanto mais perfeita será a sua adoração. Por isto a Igreja OBRIGA os fiéis a se confessarem ao menos uma vez cada ano; e insiste sempre pela prática da confissão freqüente e da comunhão, até mesmo quotidiana.

E nos meios eclesiásticos é considerado o povo MAIS CATÓLICO, não aquêle em que maior número de pessoas comparecem à igreja, mas aquêle em que maior número de pessoas, devidamente preparadas pela confissão bem feita, se aproximam da mesa eucarística. Se nesse meio vai alguém que não o faz com a devida sinceridade, não temos o poder de adivinhar o que se passa no coração dos outros, mas já é um sinal de que os verdadeiros adoradores, Deus é que bem os conhece e a adoração é uma coisa tôda interna.

Os protestantes, no seu velho sistema de interpretar as passagens da Bíblia tendo, antes de tudo, o pensamento de ver em cada uma delas um meio de censurar e combater a Igreja Católica, tomam a palavra de Jesus no sentido de que está condenado todo e qualquer culto externo (o que, aliás, êles próprios protestantes na prática não o fazem, pois também se reúnem, oram em público e cantam hinos etc.) e ficam muito anchos e satisfeitos com a idéia de que, tendo as paredes de suas igrejas completamente nuas e não tendo cerimônias impressionantes como o Catolicismo, são êles OS únicos VERDADEIROS ADORADORES a que se refere Jesus.

Mas é o caso de perguntar: será isto que resolve a questão? Se ADORAR é reconhecer o supremo domínio de Deus, é reconhecer a Deus como Supremo Senhor da nossa inteligência, do nosso coração, da nossa vida, suponhamos que um protestante, com esta ampla autorização que tem, pelo LIVRE EXAME, de interpretar a Bíblia como bem entende, se põe a TORCER a palavra de Deus, diante de uma doutrina de Jesus, em que não quer acreditar. Será um verdadeiro adorador? Não; porque não quer reconhecer a Deus, como Supremo Senhor de sua inteligência; em vez de adorar a Deus, Verdade Infalível, adora o ídolo de sua opinião própria. Nem venham os protestantes afirmar que ninguém no Protestantismo TORCE as palavras da Bíblia. Êles próprios têm que reconhecer que existe no seu seio quem o faça. Pois se há seitas que crêem na Santíssima Trindade e outras que a negam; se há seitas que admitem a divindade de Jesus e outras que a rejeitam; se há seitas que admitem a existência do inferno, a presença real de Jesus Cristo na Eucaristia, a necessidade das boas obras para a salvação, a indissolubilidade do matrimônio, a imortalidade da alma, a sobrenaturalidade da graça etc, e há outras que negam êstes pontos, é sinal de que aí neste meio há gente TORCENDO O sentido da Bíblia, a não ser que Cristo tenha falado de maneira duvidosa exclusivamente para isto: para sua doutrina andar sempre assim numa eterna discussão. Ora, isto é claramente inadmissível.

Suponhamos que mesmo com suas igrejas de paredes branqueadas e com a ausência de cerimônias litúrgicas, haja um protestante que vive enganando os outros em matéria de dinheiro, ou que vive escravizado a uma paixão carnal e desonesta. Será um verdadeiro adorador? Não; porque S. Paulo é o primeiro a nos dizer que há pecados que equivalem ao culto dos ídolos: Nenhum fornicário ou imundo, ou avaro, o QUE É CULTO DE ÍDOLOS, não tem herança no reino de Cristo e de Deus (Efésios V-5).

Não é nosso intuito com estas hipóteses humilhar nem ofender aos protestantes. Absolutamente não! Há católicos errados e há protestantes errados; é a conseqüência inevitável da fragilidade humana. Mas quererem alguns insinuar que todo homem, abraçando uma seita chamada "evangélica" se torna ipso facto uma criatura angélica e impecável, que no seio do Protestantismo só há puros e perfeitos, que o cristão logo que se convence que já está salvo por Jesus, se torna uma nova criatura modêlo de virtudes, isto é conversa para boi dormir. Nesta canoa ninguém embarca. E quanto à Igreja Católica, ela mesma é que ensina os seus filhos a rezar assim: pequei, Senhor, muitas vêzes por pensamentos, palavras e obras, por minha culpa, por minha culpa, por minha tão grande culpa!

O que queremos frisar aqui é simplesmente isto: que não é o fato de freqüentar igrejas lisas ou de não assistir a cerimônias litúrgicas, que faz de um homem UM VERDADEIRO ADORADOR. E que a adoração é uma COISA INTERNA, é um sentimento da alma e do coração, é o reconhecimento, no nosso íntimo, do supremo domínio do Ser a quem nós adoramos. Não é o fato de nos ajoelharmos, de nos curvarmos, de trazermos ofertas ou de acendermos velas que constitui a adoração.

E o católico, por mais rude e ignorante que seja, sabe muito bem que não é aquela imagem que está no altar, a qual não vê, não sente, não ouve, não fala, não tem inteligência, nem sensibilidade, não é aquela imagem que tem o supremo domínio sôbre a sua alma, sôbre a sua vida. Se os pagãos caíram neste êrro tão grosseiro, a respeito de seus ÍDOLOS, isto mostra apenas a degenerescência em que tinha caído a razão humana antes da doutrinação de Jesus Cristo, o que serviu para mostrar quanto era necessária a vinda do Salvador.

Sabe muito bem o católico que não é aquela imagem que o ouve, nem que o socorre; mas ela serve para êle erguer melhor o seu pensamento ao protótipo que ela representa. E assim como ficaríamos alegres, se soubéssemos que alguém cercou de flores o nosso retrato ou quis diante dêle render-nos carinhosa homenagem, Jesus Cristo, a Virgem Maria e os santos só podem receber com agrado as homenagens que lhes prestamos diante de suas sagradas e venerandas imagens, que tão insistentemente estão avivando aos nossos olhos a sua memória e a sua recordação.

384. LEI DE DEUS A QUE ESTAMOS SUJEITOS.

Finalmente, antes de examinarmos o texto da Bíblia que os protestantes apresentam pretendendo demonstrar com êle que É CONTRÁRIO À LEI DE DEUS o culto que os católicos prestam às imagens, precisamos relembrar o que já dissemos nos n.° 111 a 113, isto é, que a lei de Deus ou se entende LEI NATURAL que todo homem traz na sua consciência, no seu coração, OU LEI MOSAICA dada aos judeus, ou LEI CRISTÃ que nos é imposta por Nosso Senhor Jesus Cristo no Novo Testamento.

A lei natural proíbe a IDOLATRIA. Mesmo independentemente da fé, a razão nos diz que só existe UM DEUS, o qual fêz tôdas as coisas e só a Ele é que podemos adorar, isto é, RECONHECÊ-LO COMO SUPREMO SENHOR DE TÔDAS AS COISAS. Mas não nos proíbe homenagear um homem ilustre através de sua estátua, desde que esta veneração à estátua não consista em adorá-la, como se fôsse um deus. Logo, a lei natural não proíbe o culto das imagens, como é praticado na Igreja Católica.

Quanto à lei mosaica, já sabemos (n.º 117) que foi abolida (veja-se Atos XV-5 a 29).

Não se pode, por conseguinte, apresentar o uso e o culto das imagens como condenados por Deus, só pelo fato de que tenham sido proibidos no Antigo Testamento, NA LEI DE MOISÉS. Como se prova que tudo o que era proibido aos judeus no Antigo Testamento é proibido também a nós? A usar dêste argumento, deveriam os protestantes ensinar que nos é proibido comer carne de lebre, de camelo ou de porco, bem como todos os peixes que não tenham barbatanas nem escamas (Deuteronômio XIV-7, 8 a 10), que é proibido lavrar com boi e burro ao mesmo tempo, ou vestir qualquer tecido de lã com linho (Deuteronômio XXII-10 e 11), que é proibido ao filho bastardo entrar na congregação do Senhor até a décima geração (Deuteronômio XXIII-2), que não é lícito semear o campo com sementes diversas (Levítico XIX-18) ou rapar a barba (Levítico XIX-27) etc, etc. Tudo isto está proibido pela Bíblia no Antigo Testamento, mas estas leis não nos atingem.

A Lei Antiga está cheia também de preceitos que não vigoram mais, como a circuncisão, bem como cerimônias especiais para a mulher que dá à luz (Levítico XII-1 a 8) etc.

E é conhecida a luta de S. Paulo contra os judaizantes, que queriam à fina fôrça obrigar os cristãos a obedecer à lei de Moisés, que havia sido abolida.

Para provar, portanto, que a nós, cristãos, é proibido o culto das imagens, é preciso provar que êle é proibido pela LEI DE CRISTO.

Pois é precisamente o que vamos fazer, dirão os protestantes.
O culto das imagens é proibido nos 10 mandamentos. Ora, os dez mandamentos fazem parte da lei de Cristo, porque Nosso Senhor disse ao moço do Evangelho: Se tu queres entrar na vida, GUARDA os MANDAMENTOS (Mateus XIX-17). Logo, o culto das imagens é proibido pela lei de Cristo.

É o caso de dizer: Dêste versículo da Bíblia, que encerra a palavra infalível de Jesus, Vocês se lembram agora, porque querem acusar os católicos de transgredir um mandamento; por que não se lembram dêle, quando vivem a pregar que só a fé, e não a observância dos mandamentos, é necessária para a salvação?
Sim, os 10 mandamentos estão de pé na lei cristã, não há dúvida alguma; não, porém, na mesma forma ou com os mesmos têrmos em que vigoraram para os judeus outrora, pois o Divino Mestre refundiu e aperfeiçoou os preceitos do Decálogo. É o que demonstraremos daqui a pouco (n.º 389). Antes, porém, queremos ver como é que Vocês, protestantes, nos provam que o uso e o culto das imagens, tal qual se observam na Igreja Católica, são condenados pelo texto dos 10 mandamentos.

Examinemos O TEXTO DO ÊXODO que, para o nosso caso, não tem nenhuma diferença do texto do Deutetonômio (V-7 a 9):

3. Não terás DEUSES ESTRANGEIROS diante de mim. 4. Não farás para ti IMAGEM DE ESCULTURA, NEM FIGURA ALGUMA DE TUDO O QUE HÁ EM CIMA NO CÉU E DO QUE HÁ EM BAIXO NA TERRA, NEM DE coisa QUE HAJA NAS ÁGUAS DEBAIXO DA TERRA. 5. NÃO AS ADORARÁS NEM LHES DARÁS CULTO, porque eu sou o Senhor teu Deus, o Deus forte e zeloso que vinga a iniqüidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem (Êxodo XX-3 a 5).

385. VERSÍCULOS 3.° E 4.°.

Vê-se claramente que estas imagens de que Deus fala no versículo 4.º são as imagens dos DEUSES ESTRANGEIROS, de que falou no versículo 3.Q. Se no versículo 4.º Deus diz que não façam imagem de escultura, NEM FIGURA DE COISA ALGUMA QUE HAJA OU NO CÉU, OU NA TERRA OU NAS ÁGUAS, entende-se que Deus não fala aí de qualquer espécie de desenho ou de pintura ou de escultura (assim estaria proibindo até o têrmos em casa o retrato de nossos pais, ou qualquer pintura decorativa representando flores ou peixes oti frutos etc.), mas sim de ídolos, de figuras de deuses falsos. Êstes ídolos tomavam aqui e acolá inúmeras formas de pessoas, ou de animais, ou de astros, ou de outras coisas. Tudo era deus, exceto o próprio Deus, como disse Bossuet. Por isto Deus proíbe os deuses estrangeiros, SEJA QUAL FÔR A FORMA SOB A QUAL ELES SE APRESENTEM,

E a prova de que Deus aí não se refere a qualquer imagem, a qualquer pintura, a qualquer semelhança, está no fato de que Deus mesmo mandou Moisés FAZER uma serpente de metal (se há proibição de fazer qualquer figura ou semelhança de tudo que há em cima no céu, e DO QUE HÁ EM BAIXO NA TERRA, a serpente é um animal que há em baixo na terra): E o Senhor lhe disse: FAZE UMA SERPENTE DE METAL e põe-na por sinal: todo o que sendo ferido olhar para ela, viverá. Fêz, pois, Moisés UMA SERPENTE DE METAL e pô-la por sinal e os que, estando feridos, olhavam para ela, saravam (Números XXI-8 e 9).

Esta imagem de serpente em escultura era prefigurativa de Jesus pregado na cruz: Como Moisés no deserto levantou a serpente, assim importa que seja levantado o Filho do Homem, para que todo o que crê nÊle não pereça, mas tenha a vida eterna (João III-14 e 15).

Deus mandou Moisés fazer também dois querubins de ouro (portanto IMAGENS de anjos EM ESCULTURA) para cobrirem o propiciatório: Farás também DOUS QUERUBINS DOURO TRABALHADOS AO MARTELO, nas duas extremidades do oráculo. Um querubim estará a um lado, outro ao outro. Cubram ambos os lados do propiciatório com asas estendidas, e cobrindo o oráculo estarão olhando um para o outro com os rostos virados para o propiciatório, com o qual se cobrirá a arca (Êxodo XXV-18 a 20).

Salomão, quando construiu o templo, mandou também fazer, por sua própria conta e risco, alguns querubins, bem como diversas figuras na parede: E pôs no oráculo DOUS QUERUBINS de pau de oliveira, de dez côvados de altura… Cobriu também de ouro os querubins; e fêz esculpir tôdas as paredes do templo; em roda de entalhes e molduras, e nelas fêz QUERUBINS E PALMAS e DIVERSAS FIGURAS, como sobrepujando e saindo da parede (3.º Reis VI-23, 28 e 29). Entre estas figuras que havia no templo, estavam leões e bois que são animais que existem aqui em baixo na terra: E entre as coroas e laçadas havia LEÕES e BOIS e querubins (3.º Reis VII-29).

Ora, isto não foi do desagrado de Deus, pois quando Salomão terminou o templo e fêz para lá a solene trasladação da arca, aconteceu que, logo que os sacerdotes saíram do santuário, uma névoa encheu a casa do Senhor; e os sacerdotes não podiam ter-se em pé nem fazer as funções do seu ministério por causa da névoa, porque A GLÓRIA DO SENHOR TINHA ENCHIDO A CASA DO SENHOR. Então disse Salomão: O Senhor disse que Êle habitaria numa névoa (3.º Reis VIII-10 a 12).

Portanto, quando os protestantes dizem, procurando impressionar a gente simples: Os católicos estão contra a Bíblia, porque a Bíblia proíbe FAZER IMAGENS e êles fazem imagens de Jesus Cristo, de Maria SS.ma, dos anjos e dos santos, trata-se de uma acusação muito fora de propósito. Deus proibiu aí no texto do Êxodo fazer imagens dos DEUSES ESTRANGEIROS, pois é dos deuses estrangeiros que Êle está falando. E a prova é que Êle mesmo mandou fazer outras imagens e Deus não cai em contradição consigo mesmo. Nem se concebe que Deus, tendo horror a quaisquer imagens, como querem os protestantes, fôsse o primeiro a mandar fabricá-las.

E basta ler com atenção o Pentateuco, se não quisermos falar em todo o Antigo Testamento, para ver como a grande preocupação, se assim se pode dizer, de Deus, era fazer com que aquêle povo pequenino, como era o seu povo escolhido, cercado, como estava, de tantos povos idólatras, pois o eram tôdas as nações do mundo, não se deixasse contaminar pelo exemplo dos outros, adorando os deuses estranhos: Lançai fora os DEUSES ESTRANHOS que estão no meio de nós (Gênesis XXXV-2). Não fareis. para VÓS DEUSES DE PRATA NEM DEUSES DE OURO (Êxodo XX-23). O meu anjo caminhará adiante de ti e êle te introduzirá na terra dos amorreus, dos heteus, dos ferezeus, dos cananeus, dos heveus, dos jebuseus, os quais eu destruirei. NÃO ADORARÁS OS SEUS DEUSES NEM LHES DARÁS CULTO, não imitarás as suas obras, mas destrui-los-ás e quebrarás as suas estátuas (Êxodo XXIII-23 e 24). Eu entregarei nas vossas mãos os habitantes da terra e os expulsarei da vossa vista… Não habitem na tua terra, para que te não façam pecar contra mim, servindo AOS SEUS DEUSES (Êxodo XXIII-31 e 33). Não adores a DEUS ALHEIO. O Senhor tem por nome Zelador, Deus é zeloso (Êxodo XXXIV-14). Não vos volteis para os ídolos, nem façais para vós DEUSES FUNDIDOS. Eu sou o Senhor vosso Deus (Levítico XIX-4) até nos SEUS DEUSES tinha exercitado a sua vingança (Números XXXIII-4). Não seguireis os DEUSES ESTRANGEIROS dalguma das nações que estão à roda de vós (Deuteronômio VI-14). Se esquecendo-te, porém, do Senhor teu Deus, seguires DEUSES ESTRANHOS e os servires e adorares, eu desde agora te denuncio que perecerás de todo (Deuteronômio VIII-19). E lá servirás a DEUSES ESTRANHOS, ao pau e à pedra; e ver-te-ás na última miséria, como o ludíbrio e a fábula de todos os povos, onde o Senhor te houver levado (Deuteronômio XXVIII-36 e 37). Êles O irritaram adorando DEUSES ESTRANHOS e com as suas abominações O provocaram à ira (Deuteronômio XXXII-16).

386. VERSÍCULO 5.0.

Vejamos agora o versículo 5.º: Não AS adorarás, nem LHES prestarás culto, porque eu sou o Senhor teu Deus, o Deus forte e zeloso que vinga a iniqüidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem (Êxodo XX-5).

Já que o versículo 3.º se refere aos deuses estrangeiros: NÃO TERÁS DEUSES ESTRANGEIROS diante de mim (Êxodo XX-3);

já que o versículo 4.º: Não farás para ti imagem de escultura, NEM FIGURA ALGUMA DE TUDO O QUE HÁ EM CIMA NO CÉU E DO QUE HÁ EM BAIXO NA TERRA, NEM DE coisa QUE HAJA NAS ÁGUAS DEBAIXO DA TERRA (Êxodo XX-4), como já provámos, se refere a imagens de escultura ou figuras dêstes mesmos deuses estrangeiros;

está claro que a proibição de prestar culto, que lemos no versículo 5.°: Não as adorarás, nem LHES darás culto (Êxodo XX-5) se refere a imagens ou figuras dêstes mesmos deuses pagãos. Bastam os pronomes AS, LHES para nos mostrar que é àquelas imagens de que fala o versículo anterior que é proibido prestar culto. No versículo anterior, Deus proibiu FAZER tais ídolos. Mas podia acontecer que os judeus, nas suas viagens ou recebendo visitas de gente de outros povos, se deparassem com tais ídolos que êles, judeus, não tinham fabricado, mas que foram feitos pelos outros. Ou podia acontecer que alguém, mesmo no seio do povo israelita, teimasse em fazer tais ídolos. Neste caso era preciso que soubessem os judeus que também lhes estava proibido, tanto o adorá-los, como o prestar-lhes qualquer culto.

E a prova de que Deus se refere a êstes ídolos, a estas representações de deuses estranhos, está na razão que Deus lhes apresenta: Não as adorarás, nem lhes darás culto, PORQUE EU SOU O SENHOR TEU DEUS (Êxodo XX-5). O que mostra muito bem que, sendo Êle o único Deus dos israelitas, não quer entrar em pé de igualdade com DEUSES ESTRANHOS, nem quer ser substituído por êles.

Os protestantes provariam que aí Deus está proibindo aos católicos fazer imagens de Jesus Cristo, de Maria SS.ma e dos anjos e santos e reverenciá-las, se conseguissem provar que estas imagens, venerandas e sagradas pelas pessoas que representam, são imagens daqueles DEUSES ESTRANGEIROS, que eram pura invenção do demônio, para afastar os homens do culto do Deus verdadeiro, culto êste que nós, católicos, Lhe prestamos, reconhecendo o Seu supremo domínio sôbre tôdas as coisas e reservando a Êle, só a Êle, o culto de LATRIA, ou seja, de verdadeira adoração. Nós não substituímos o culto de Deus pelo de outros deuses, nem pelo de nenhuma criatura.

Diante, portanto, da legítima interpretação do texto, não há aí nenhuma proibição do culto das imagens, tal como é compreendido e praticado pela Igreja que Cristo fundou, ou seja, a Igreja Católica.

387. A INTERPRETAÇÃO PROTESTANTE.

Analisemos agora a interpretação que os protestantes dão ao texto.

Não é a interpretação verdadeira; mas ainda mesmo que o fôsse, a proibição contida neste texto do ANTIGO TESTAMENTO não nos atingiria, assim como êles também não se sentem atingidos por ela. É o que iremos provar.

Os protestantes separam completamente os dois versículos:

Não terás deuses estrangeiros diante de mim (Êxodo XX-3) é uma ordem;

Não farás para ti IMAGEM DE ESCULTURA, NEM FIGURA ALGUMA DE TUDO O QUE HÁ EM CIMA NO CÉU E DO QUE HÁ EM BAIXO NA TERRA, NEM DE coisa QUE HAJA NAS ÁGUAS debaixo da terra (Êxodo XX-4) é outra ordem que nada tem que ver com o versículo anterior.

Aqui o homem rude logo se atrapalha com o sentido da palavra IMAGEM; e desta confusão se aproveita o protestante.

Hoje, quando falamos em IMAGEM, logo nos lembramos das imagens sagradas, que vemos nas igrejas católicas. Era justamente o que não existia naquele tempo. Não havia imagem de Jesus Cristo, nem da Virgem Maria, nem de S. Pedro ou de S. Antônio ou de S. Francisco etc., etc., por uma razão muito simples: nem Jesus Cristo como homem, nem Maria SS.ma, nem nenhum dêsses santos existia ainda. Havia, sim, os anjos, DOS QUAIS, como vimos, DEUS MESMO MANDOU FAZER IMAGENS.

Imagem aí no texto se torna no sentido geral: representação de um ser, mostrando-lhe a semelhança. Uma imagem de escultura é, por exemplo, a estátua de um homem; é um animal qualquer: um cachorro, um elefante, um carneiro feito de gêsso ou de madeira ou de prata ou de ouro etc.

Desde que acha o protestante que também para nós está proibido fazer qualquer imagem de escultura, então estão proibidas tôdas as estátuas. São condenadas pela lei de Deus… É preciso acabar com elas… São proibidos todos os animais feitos por escultura. Entrando numa casa, onde encontra na sala um gato ou um leão ou um boi fabricado em gêsso ou em madeira ou em metal, o "evangélico" deve protestar indignado, porque tôda imagem de escultura é proibida por Deus. Tem que acabar, portanto, a profissão de ESCULTOR, como sendo uma profissão de homens rebeldes e pecadores, que vivem fazendo justamente aquilo que Deus proíbe no seu mandamento.

Mas não são somente os escultores que entram na dança; entram também todos OS PINTORES, DESENHISTAS, GRAVADORES e FOTÓGRAFOS, porque O texto não proibe somente qualquer imagem de escultura, mas proibe qualquer FIGURA, seja de criaturas humanas, seja de astros, seja de animais ou de plantas, seja lá do que fôr, pois continua assim NEM FIGURA ALGUMA DE TUDO O QUE HÁ EM CIMA NO CÉU E DO QUE HÁ EM BAIXO NA TERRA, NEM DE coisa QUE HAJA NAS ÁGUAS (Êxodo XX-4).

Entrando no atelier de um pintor e encontrando-o a pintar uma figura humana, o protestante terá que dizer: É proibido; não podes fazer isto.

E se êle disser: Ao menos, deixe-me pintar um peixe ou outro animal qualquer, uma planta; ao menos, uma flor.

— Não; nada disto é permitido. Não se pode fazer a figura de coisa alguma: nada do que há em baixo na terra, nada do que há nas águas.

Os livros ilustrados, bem como as fotografias, as gravuras, os desenhos que aparecem nas revistas ou jornais, bons ou maus, todos são proibidos.

Ora, esta interpretação é evidentemente absurda.

Não foi assim; Deus só proibiu fazer figuras de DEUSES ESTRANGEIROS, fôsse qual fôsse a forma sob a qual se apresentassem.

E mesmo que se quisesse dizer que Deus falava sôbre qualquer imagem ou figura em geral, ainda se podia conceber que houvesse esta proibição PARA OS JUDEUS num tempo em que não havia ainda imprensa nem fotógrafos. Podia-se ainda imaginar que Deus, diante do grande perigo em que estavam os judeus de cair na idolatria pelo exemplo dos povos vizinhos, proibisse a êste pequenino povo a arte dos pintores e dos escultores, afim de se evitar a ocasião de pecado. Seria então um PRECEITO POSITIVO SÓ PARA ÉLES E OCASIONADO PELAS CIRCUNSTÂNCIAS. Mas querer fazer daí um preceito geral para todos os tempos, mesmo para os povos cristãos e civilizados que não estão mais, pelo simples fato de ver uma pintura ou uma estátua, em perigo de cair na idolatria, seria evidentemente cair no ridículo.

O protestante, portanto, se não quer admitir que êste versículo 4.º se refere aos DEUSES ESTRANGEIROS, mencionados no versículo precedente, fazendo parte, portanto, da LEI NATURAL, como é em geral todo o Decálogo, tem que admitir que se trata de um preceito positivo só para os judeus. A não ser que queira apresentar como abomináveis e condenadas por Deus tôdas as estátuas, todos os objetos de adôrno em forma de figuras humanas ou de animais, todos os brinquedos de criança feitos no mesmo sistema, tôdas as pinturas, tôdas as gravuras de livros, tôdas as fotografias…

388. AINDA O VERSÍCULO 5.°.

Mas dirá o protestante: Deus não proíbe somente fazer imagens. Proíbe PRESTAR-LHES CULTO no versículo 5.°: Não as adorarás, NEM LHES DARÁS CULTO (Êxodo XX-5) e os católicos prestam culto às imagens.

— É o caso de perguntar: Se Você é obrigado a admitir (para não cair no ridículo) que o versículo 4.º é endereçado só AOS JUDEUS, como pode provar agora que o versículo 5.º, ou seja a proibição de prestar culto às imagens não é também um preceito só para êles? Êste versículo 5.º está, não só lógicamente, mas também GRAMATICALMENTE ligado ao versículo 4.º. Um preceito que era só PARA OS JUDEUS não nos atinge a nós, cristãos.

389. OS DEZ MANDAMENTOS.

Os dez mandamentos sempre estiveram, estão e estarão de pé para todos os homens, ou se achem êstes sob a lei natural, ou sob a lei mosaica, ou sob a lei de Cristo.

Mas assim como não vigoram da mesma forma sob a lei natural como à luz da revelação (neste último caso são conhecidos com mais nitidez), assim também não vigoram para nós, cristãos, exatamente da mesma forma em que vigoravam para os judeus. Estão em vigor na forma em que nos são propostos no Evangelho por Nosso Senhor Jesus Cristo, que é o nosso Legislador e nosso Mestre.

Há, então, diferença entre os mandamentos de Deus, tais quais foram impostos aos judeus e tais quais nos são ensinados por Jesus Cristo?

É claro que sim; pois o Divino Mestre refundiu e aperfeiçoou os preceitos do Decálogo.

Consideremos, por exemplo, a questão do descanso semanal. Era preceituado com muito rigor na Lei Antiga. E os protestantes devem reconhecer, pela leitura do Evangelho, como Jesus Cristo dá uma nova interpretação à lei do repouso no dia do Senhor, lei que permanece, porém de maneira mais benigna, pois o Mestre nos ensina que o preceito da caridade é superior a ela: Logo, é lícito FAZER BEM nos dias de sábado (Mateus XII-12) O sábado foi feito em contemplação do homem, e não o homem em contemplação do sábado (Marcos II-27).

Já o contrário se dá com o 5.º mandamento (53) que dizia simplesmente: Não matarás (Êxodo XX-13) e agora se tornou muito mais rigoroso. Na Lei Antiga se permitia que se tivesse ódio aos inimigos, ódio aos gentios, pois Nosso Senhor, como se vê pela parábola do Samaritano (Lucas X-29 a 37) é que veio alargar a noção da palavra: O PRÓXIMO. Na Lei Nova de Nosso Senhor Jesus Cristo não se proíbe só O MATAR, proíbe-se qualquer sentimento de ódio contra o próximo, sendo o próximo qualquer pessoa: Ouvistes que FOI DITO AOS ANTIGOS: NÃO MATARÁS e quem matar será réu no juízo. Pois eu digo-vos que todo o que SE IRA contra seu irmão será réu no juízo (Mateus V-21 e 22). Tendes ouvido que foi dito: Amarás ao teu próximo e aborrecerás a teu inimigo. Mas eu vos digo: Amai a vossos inimigos, fazei bem aos que vos têm ódio e orai pelos que vos perseguem e caluniam para serdes filhos de vosso Pai que está nos Céus (Mateus V-43 a 45).

O mesmo se dá com o preceito da castidade que se torna muito mais rígido. O texto do Êxodo que citam os protestantes e que traz os mandamentos diz simplesmente: Não fornicarás (Êxodo XX-14). Fala somente sobre os pecados de AÇÃO. Jesus nos mostra no Evangelho que são condenados até os pecados por pensamento: Ouvistes que FOI DITO AOS ANTIGOS: NÃO ADULTERARÁS. Eu, porém, digo-vos que todo o que olhar para uma mulher cobiçando-a, já no seu coração adulterou com ela (Mateus V-27 e 28).

O 4.º mandamento é proposto no Êxodo com uma promessa que só vale para os judeus, promessa de vida longa na terra que lhes era reservada, promessa esta que não está vigorando, é claro, para nós, pois as promessas do Novo Testamento são de vida eterna: Honrarás a teu pai e a tua mãe, PARA TERES UMA DILATADA VIDA SOBRE A TERRA que o Senhor teu Deus te há de dar (Êxodo XX-12).

Agora perguntamos: Já que o assunto de que falamos é o 1.º mandamento, quando indagavam a Nosso Senhor Jesus Cristo, Legislador e Salvador nosso, que nos veio trazer a sua lei, que veio aperfeiçoar a lei de Moisés, qual era o primeiro e o mais importante mandamento da lei, Nosso Senhor respondia assim: Não terás deuses estrangeiros diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem figura alguma de tudo o que há em cima no céu e do que há em baixo na terra, nem de coisa que haja nas águas debaixo da terra. Não as adorarás, nem lhes darás culto (Êxodo XX-3 a 5) ? Não. Havia um preceito muito mais importante do que êste. Não ter outros deuses, não cometer idolatria ainda é muito pouco.

O moço a quem Jesus disse: Se tu queres entrar na vida, guarda os mandamentos (Mateus XIX-17) Lhe pergunta quais são êstes mandamentos. O Mestre, para identificá-los, diz: Não cometerás, homicídio; Não adulterarás; Não cometerás furto; Não dirás falso testemunho; Honra a teu pai e a tua mãe, e amarás ao teu próximo como a ti mesmo (Mateus XIX-18 e 19).

As prescrições do capítulo XX do Êxodo, Jesus ajunta um precioso versículo do Levítico (XIX-18): Amarás a teu próximo como a ti mesmo — que vai ter um papel de relevância na Nova Lei, mas nenhuma alusão faz aos primeiros mandamentos (e os mais importantes) referentes a Deus, não que êstes mandamentos fôssem abolidos, mas porque na Nova Lei tomam redação melhor e mais perfeita, não já do capítulo 20.º do Êxodo, mas de outra parte do Antigo Testamento (Deuteronômio VI-5).

Quando perguntavam a Nosso Senhor qual era o primeiro e o máximo mandamento, Êle respondia, como respondeu ao doutor da lei: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de tôda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o máximo e o primeiro mandamento. E o segundo semelhante a êste é: Amarás a teu próximo como a ti mesmo (Mateus XXII-37 a 39).

Em outra ocasião, o Divino Mestre louva a outro doutor da lei que aponta COMO O MEIO PARA ENTRAR NA POSSE DA VIDA ETERNA a observância dêstes grandes mandamentos: E eis que se levantou um doutor da lei e Lhe disse para O tentar: Mestre, que hei de eu fazer PARA ENTRAR NA POSSE DA VIDA ETERNA? Disse-lhe então Jesus: Que é o que está escrito na lei? como lês tu? Ele, respondendo, disse: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração e de tôda a tua alma e de tôdas as tuas fôrças e de todo o teu entendimento; e ao próximo como a ti mesmo. E Jesus lhe disse: RESPONDESTE BEM; FAZE ISSO E VIVERÁS (Lucas X-25 a 28).

Ninguém pode deixar de ver a superioridade dêste mandamento: Amar a Deus de todo o coração, de tôda a alma, com todo o entendimento — sôbre o outro: Não ter deuses estrangeiros, não fazer imagens de escultura etc. Está-se vendo que êste último foi inculcado aos judeus afim de chamar-lhes bem a atenção para não caírem na idolatria, à maneira dos povos vizinhos, mas o mandamento do amor a Deus sôbre tôdas as coisas não só inclui a repulsa à idolatria, senão também a submissão de todo o nosso ser, de tôda a nossa alma aos ensinamentos de Deus.

Devo amar a Deus de todo o coração e ao próximo como a mim mesmo. Se cometo idolatria, se adoro deuses falsos, se adoro outro ser que não seja Deus, estou pecando contra êste mandamento, não O estou amando sôbre tôdas ás coisas.

Mas, se eu amo a Jesus Cristo, a Maria SS.ma que foi sua Mãe, a qual eu considero grande justamente por isto, porque foi mãe de Jesus, se eu amo os santos que foram em vida o bom cheiro de Cristo (2.º Coríntios II-15), que de tal modo imitaram o Mestre que bem podiam dizer como S. Paulo: Não sou eu já o que vivo; mas Cristo é que vive em mim (Gálatas II-20), se pelo amor que tenho a Jesus Cristo, a Maria SS.ma e aos santos, trato com carinho, veneração e respeito as imagens que os representam e simbolizam (imagens estas que valem muito para mim, assim como o retrato de um pai, de uma mãe ou de um irmão muito vale aos nossos olhos ou assim como a bandeira da nossa Pátria, mesmo sendo um simples pedaço de pano, também tem grande valor para nós pelo que ela simboliza), com esta veneração, respeito e acatamento que tenho às imagens não estou de maneira alguma faltando ao AMOR A DEUS; ao contrário louvo a Deus e O engrandeço pelas maravilhas que operou em seus servos e em seu Divino Filho.

Se aos judeus na Lei Antiga num tempo em que, quando se falava em imagens de escultura ninguém pensava em Jesus Cristo, nem em Maria SS.ma, nem nos santos, mas só nos ídolos, nos deuses falsos que eram adorados como se fôssem o Supremo Senhor, se aos judeus no Antigo Testamento foi ou não proibido cultuar imagens por causa da excessiva inclinação que tinham para a idolatria, isto é lá com êles, não me interessa: não sou judeu; não sou do Antigo Testamento; nem sou tão estúpido que dê o mínimo valor à idolatria. Tenho que seguir a lei de Cristo que está exposta no Novo Testamento, em substituição à Lei Antiga que já foi abolida; e o Novo Testamento fala nos mandamentos de Deus, mostra-nos quais são, mas NÃO CONTÉM NENHUM VERSÍCULO QUE PROÍBA FAZER IMAGENS SAGRADAS, NEM PRESTAR-LHES UM SIMPLES CULTO DE VENERAÇÃO.

Infelizmente os protestantes, em vez de lerem a Bíblia, como deveria ser, com o pensamento exclusivo de conhecer a verdadeira doutrina de Jesus, a lêem, primeiro que tudo, com a preocupação de ver em cada versículo um meio de fazer OPOSIÇÃO SISTEMÁTICA À IGREJA CATÓLICA, À QUAL VOTAM UM ÓDIO INDISFARCÁVEL. Já existe aí uma péssima preparação para chegar à verdade, porque o ÓDIO CEGA.

E assim, em vez de ir buscar os mandamentos de Deus NOS ENSINOS DE JESUS CRISTO, os Vão buscar na Lei Antiga que foi dada aos judeus. E a imensa maioria dêles caem logo numa grande contradição: se Vão buscar os mandamentos na letra do Antigo Testamento para recriminar os católicos que têm imagens, por que motivo então não observam o SÁBADO, COMO era preceituado na Lei Antiga? E todos caem nesta inconseqüência: se o mandamento divino proibia, como êles querem, qualquer IMAGEM OU FIGURA, por que não saem pelo mundo afora bradando contra tôdas as estátuas, todos os quadros de pintura, todos os desenhos, tôdas as fotografias?

Portanto, das duas uma:

Ou a proibição de fazer imagens e prestar-lhes culto, que vem nos versículos 4. º e 5.º do capítulo 20.º do Êxodo, se refere só aos DEUSES ESTRANGEIROS e, por conseguinte não nos atinge, a nós católicos, uma vez que as nossas imagens não são imagens de DEUSES ESTRANGEIROS;

ou então é uma lei rigorosíssima, proibindo fazer qualquer imagem, qualquer figura ou semelhança, seja lá do que fôr, qualquer estátua, pintura ou gravura, e neste caso não pertence à LEI NATURAL, é uma lei positiva que faz parte apenas da LEI MOSAICA e, portanto, também não nos atinge, porque não somos judeus anteriores a Cristo, nem estamos sujeitos à LEI MOSAICA; e no Novo Testamento não há nenhuma proibição do culto das imagens, tal qual nós o fazemos.

Estamos, sim, obrigados a NÃO COMETER NENHUM ATO DE IDOLATRIA.

Esta é uma lei natural, escrita nos nossos corações; e uma lei cristã, constantemente pregada pelos Apóstolos, como por exemplo: Nem os idólatras. … hão de possuir o reino de Deus (1.° Coríntios VI-9 e 10) Meus caríssimos, fugi da idolatria (1. Coríntios X-14).

Mas o nosso culto às imagens está muito longe de ser uma idolatria, porque 1.º, como já explicámos, as nossas imagens não são ídolos (ídolo é a representação de um deus falso); 2.º, não prestamos a elas o culto de adoração ou latria (pois isto seria reconhecer-lhes o supremo domínio sôbre tôdas as coisas), culto êste que só prestamos a Deus.

E, como já esclarecemos no princípio, êste culto não é obrigatório no sentido de que só se salva quem rezar diante das imagens, ou que só se possa fazer oração diante delas. Mas a Igreja o conserva como um MÉTODO utilíssimo para instruir os fiéis, para avivar sempre no espírito de todos, até mesmo dos mais rudes, a lembrança das coisas celestiais e para melhor fomentar nos seus filhos o fervor, a piedade e a devoção.

LICEIDADE E CONVENIÊNCIA

390. A FÔRÇA DAS CIRCUNSTÂNCIAS.

Finalmente dirão os protestantes: O culto das imagens não consta absolutamente da Bíblia, por isto não o aceitamos. No Antigo Testamento não há nenhum vestígio dêsse culto. Os querubins, de que fala a Bíblia, eram para ADUNO do templo, não para ser cultuados. A serpente de bronze serviu para curar os que estavam feridos pelas serpentes (Números XXI-8 e 9). Mas, quando os filhos de Israel começaram a queimar incenso diante dela, o rei Ezequias a fêz em pedaços. E a Bíblia o louva por causa disto: Êle fêz o que era bom na presença do Senhor (4.º Reis XVIII-3).

E no Novo Testamento não consta absolutamente, nem que Jesus, nem que os Apóstolos, nem que nenhum cristão mandasse fazer imagens ou a elas prestasse culto. Logo, o culto das imagens desagrada a Deus.

— Caros amigos: Uma coisa é não se fazer um ato porque é pecado, porque desagrada a Deus. E outra coisa muito diferente é não se fazer um ato porque EM DETERMINADAS CIRCUNSTÂNCIAS NÃO É PRUDENTE, NEM CONVENIENTE e pode tornar-se uma ocasião para o pecado.

É preciso ver a situação em que estava o mundo DURANTE TODO O TEMPO ANTES DE CRISTO. Tôdas as nações estavam mergulhadas na idolatria, adorando estátuas de deuses falsos, como se fôssem o verdadeiro Deus, e apenas um pequenino povo adorava o Deus Único, Invisível e Eterno.

Éste pequeno povo, que era o povo hebreu, estava completamente cercado de nações idólatras e além disto tinha uma inclinação tremenda para a idolatria. Basta dizer que, depois de ter Deus manifestado tão estrondosamente a sua glória no monte Sinai, o povo, vendo que Moisés tardava de descer do monte, se ajuntou contra Areio e disse: Levanta-te, faze-nos DEUSES que vão adiante de nós, porque não sabemos o que aconteceu a Moisés (Êxodo XXXII-1). E feito o bezerro de ouro, exclamava: Êstes são, ó Israel, os TEUS DEUSES que te tiraram da terra do Egito (Êxodo XXXII-4).

Basta ler qualquer parte do Antigo Testamento, para ver a facilidade com que o povo caía na idolatria, à qual não escapou, apesar de sua imensa sabedoria, o próprio rei Salomão.

Nestas circunstâncias, nesta situação tão delicada, Deus tinha um cuidado todo especial em evitar qualquer coisa que, mesmo de longe, pudesse dar ocasião a que os judeus se entregassem àquele culto dos ídolos, a que eram tão fortemente inclinados. Por isto tinha que privar a êste povo e, se assim se pode dizer, privar-se a si mesmo de coisas que eram LÍCITAS, que eram JUSTÍSSIMAS, que eram SANTAS, para evitar o perigo da idolatria.

Por exemplo: Nada mais justo, nada mais lícito, nada mais santo do que Deus instruir os homens a respeito de sua própria natureza, revelar as suas grandezas e perfeições. Era proibido Deus revelar aos judeus que havia nÊle três pessoas distintas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo constituindo um só Deus Verdadeiro? Absolutamente não. Mas não quis revelar o mistério da SS.ma Trindade, que durante tantos séculos ficou oculto à Humanidade, simplesmente por isto: os judeus não tinham capacidade para receber esta revelação e, ouvindo falar na Trindade, iriam logo fazer confusão com o politeísmo das outras nações. Os gentios adoravam a muitos deuses e êles ficariam também com a idéia de que havia três deuses. Com a era do Cristianismo, êste viria renovar completamente a face da terra, e o mundo já estaria em condições de ter notícia da Santíssima Trindade, a qual foi revelada por Nosso Senhor Jesus Cristo.

Outro exemplo: Deus, quando se revelou no monte Horeb, podia ter-se manifestado sob uma forma sensível, sob a aparência de alguma coisa material? Sim, podia. Tanto podia, que se encarnou em Jesus Cristo homem e viveu aqui na terra trinta e três anos. Tanto podia, que o Espírito Santo apareceu em forma sensível: E desceu sôbre Ele o Espírito Santo EM FORMA CORPÓREA, como uma POMBA (Lucas III-22). E lhes apareceram repartidas como LÍNGUAS DE FOGO, que repousou sôbre cada um dêles e foram todos cheios do Espírito Santo (Atos II-3 e 4).

Entretanto Deus, ao revelar-se no monte Horeb não tomou nenhuma forma sensível para se manifestar e, se assim procedeu, não foi porque isto fôsse ilícito, mas para evitar aos judeus o perigo da idolatria: Vós não vistes figura alguma no dia em que o Senhor vos falou em Horeb do meio do fogo, por não suceder que enganados façais para vós alguma imagem de escultura ou alguma figura de homem ou de mulher, nem semelhança de qualquer animal que há sôbre a terra ou das aves que voam debaixo do céu, ou dos répteis que se movem na terra ou dos peixes. que debaixo da terra moram nas águas; não seja que, levantando os olhos ao céu, vejas o sol e a lua e todos os astros do céu e, caindo no êrro, adores e dês culto a essas coisas, que o Senhor teu Deus criou para serviço de tôdas as gentes que vivem debaixo do céu (Deuteronômio, IV-15 a 19).

Hoje é muito comum colocar-se na rua as estátuas dos grandes homens, dos grandes heróis da nossa Pátria e, em certos e determinados dias, prestar-se uma homenagem à memória dêstes homens, cobrir de flores as suas estátuas, fazer-se discursos etc. Isto é muito lícito e muito natural e nestas manifestações públicas feitas a um homem perante a sua estátua, o que é o mesmo que dizer, perante a sua imagem, tomam parte também os próprios protestantes, como cidadãos e patriotas que são, porque sabem muito bem que nisto não há nada de mais, que aí não há nenhuma idolatria.

Pois bem, esta mesma cena realizada outrora no seio do povo judaico, seria completamente inconcebível. Terem os judeus, nas praças públicas, estátuas de Abraão, de Isaque, de Jacó, de Moisés e prestar-lhes homenagens, cobri-las de flores — não se consentiria de forma alguma. Por quê? Porque era ilícito? Se é lícito hoje, também o podia ser naquele tempo. Isto não se consentiria, porque seria uma grandíssima imprudência; o povo não estaria em condições de bem compreender o sentido de tais homenagens e aquilo fatalmente iria dar numa indébita adoração à criatura, pecado êste de que o mundo estava cheio naquela época.

Por isto se explica muito bem o fato de não ter havido entre os judeus nem o culto dos santos, nem o culto das imagens. O povo não tinha capacidade para distinguir entre uma simples veneração e a adoração própriamente dita.

Foi natural, portanto, o gesto de Ezequias. Se os judeus soubessem que aquela serpente de metal era figura do Messias, Jesus Cristo Salvador Nosso, pendente da sua cruz e queimassem incenso diante dela exclusivamente com o pensamento de homenagear, através de seu símbolo, Aquêle que havia de morrer por nós para nos salvar do pecado, assim como a serpente de bronze curara a muitos de seus ferimentos, Deus não se incomodaria com isto, porque Êle só podia achar justa, santa e razoável uma homenagem prestada a seu Divino Filho.

Mas não era, nem podia ser com êste pensamento que os judeus queimavam o seu incenso; aquilo, se já não era idolatria, estava arriscado a sê-lo. Por isto foi preciso fazer desaparecer a serpente de metal, que aliás o próprio Deus tinha mandado fazer.

Ora, não foi num dia que o paganismo idólatra deixou de dominar o mundo. A substituição do paganismo pelo Cristianismo foi-se processando progressivamente no decorrer de alguns séculos. E no tempo em que viviam os Apóstolos a situação era pràticamente a mesma que tinha existido antes de Cristo: o mundo ainda estava mergulhado na idolatria. Aparecerem os Apóstolos mandando fazer imagens de Jesus Cristo e reverenciá-las, seria a maior das imprudências: uma vez que, como explicámos, êste culto não é necessário para a salvação, mas apenas um método, um meio para instruir, para excitar à devoção, a imagem naqueles tempos seria totalmente contraproducente. Não só causaria repugnância aos judeus, mas iria fazer uma confusão tremenda na cabeça dos pagãos, os quais não lhe saberiam compreender o verdadeiro sentido e pensariam que, à semelhança dêles, os cristãos também tinham seus ídolos.

391. AS IMAGENS ATRAVÉS DOS SÉCULOS DA ERA CRISTÃ.

O uso das imagens tinha que vir aparecendo, portanto, pouco a pouco, de acôrdo com as circunstâncias. Daí se explica, por exemplo, que os primeiros cristãos não tivessem imagens nas suas igrejas abertas ao público, que aliás não eram numerosas naqueles tempos de tremenda perseguição, como foram os 3 primeiros séculos da nossa era. Não só as imagens e símbolos serviriam para denunciá-los, como também podiam ser mal interpretados pelos pagãos que os vissem, os quais poderiam pensar que os cristãos apenas tinham mudado de ídolos. Daí também ser no princípio restrito o uso às imagens pintadas, para depois se passar às imagens de escultura.

Mas que as imagens, pelo menos de pintura, tenham sido usadas pelos cristãos dos primeiros séculos, não há dúvida alguma.

Temos o testemunho valioso das catacumbas de Roma. Ali naqueles subterrâneos, que eram lugares também de culto coletivo, longe das vistas dos pagãos podiam os artistas cristãos entregar-se mais livremente à sua tarefa de reproduzir os personagens e os mistérios do Cristianismo. E assim é comum nas catacumbas encontrarem-se imagens em pintura do Bom Pastor, de Maria SS.ma e de alguns santos (entre os quais predomina S. Pedro, que era muito conhecido em Roma, onde se estabeleceu e sofreu o martírio). Algumas destas imagens dão indícios de pertencerem ao 1.º e ao 2.º século; e outras em grande número são pertencentes com tôda certeza aos séculos 3.º e 4.º.

A Virgem Maria é quase sempre representada com seu Divino Filho nos braços, e a sua imagem mais antiga conhecida remonta no máximo à metade do século 2.º; encontra-se na Capela Grega das Catacumbas de Priscila. A Virgem aparece juntamente com os três Magos. Há outra imagem muito célebre, que tudo indica remontar a fins do século 2.º, em qua aparece a Virgem sentada com o Menino nos braços, vendo-se ao seu lado o profeta Balaão apontando para uma estréia. Outra figura de Maria, de cêrca da metade do século 4.º, apresenta-a como orante, de braços estendidos diante de seu Divino Filho e se encontra no fundo de um arcossólio no Cemitério Maior. Isso mostra não só o uso das imagens, mas também o aprêço que os cristãos sempre tiveram à mãe do Salvador.

As estátuas ou esculturas já são freqüentes em sarcófagos do século 4.º e do 5.º; e há nas catacumbas, pelo menos, 2 estátuas do Bom Pastor que parecem ser anteriores à época de Constantino (portanto, no máximo, do século 3.º).

Passando o testemunho das catacumbas para o dos livros, como autores que testemunham a existência de imagens, temos no século 3.° Tertuliano que fala no Bom Pastor representado nos cálices (De pudicitia VII, 10) e o historiador Eusébio de Cesaréia, que diz ter visto imagens pintadas de Jesus Cristo, de S. Pedro e de S. Paulo (História Eclesiástica VII, 18).

Uma vez conseguida a paz no tempo de Constantino (313), passando o Cristianismo a usar da liberdade de culto no Império Romano, vai-se espalhando por tôda a parte o culto à cruz, principalmente depois que a rainha Helena, mãe de Constantino, encontrou A VERDADEIRA CRUZ DE Nosso SENHOR JESUS CRISTO, a qual, no meio das outras, demonstrou a sua autenticidade por meio de um milagre; e à proporção que se vai extinguindo o paganismo e, portanto, desaparecendo o perigo da confusão que poderia surgir entre os ídolos pagãos e as venerandas imagens de Jesus Cristo, da Santíssima Virgem e dos santos, vão aumentando em tôda a parte, pública e privadamente, o uso e o culto das imagens.

Que do século 5.º em diante já se começam a usar profusamente não só nas casas particulares, mas também nas igrejas públicas, e não só imagens pintadas, mas também esculturas, isto é um fato incontestável.

Quando aparece no século 8.º a heresia dos iconoclastas ou quebradores de imagens, fomentada pelos imperadores bizantinos, é logo condenada pelo 2.º Concílio de Nicéia (que é Concílio Ecumênico, isto é, Universal) reunido em 787. E é de notar que êste Concílio apela, em favor do culto das imagens, para A TRADIÇÃO DA SANTA IGREJA CATÓLICA, ao mesmo tempo que acusa os iconoclastas de quererem introduzir uma novidade, indo de encontro às tradições eclesiásticas. Isto mostra como era antigo na Igreja êste culto.

Se o Imperador Carlos Magno entendeu, por razões políticas, de fazer côro com os imperadores bizantinos e isto produziu uma certa agitação no seio dos francos, a Igreja fêz cessar esta perturbação com outro Concílio Ecumênico, o 4.º Concílio de Constantinopla (869 e 870) em que reafirmou e redefiniu o que já havia sido determinado no 2.º Concílio de Nicéia.

Do 2.º Concílio de Nicéia até os nossos dias, continuou cada vez mais propagado na Igreja Católica o culto das imagens. Aí estão os documentos históricos, os museus, as igrejas antiqüíssimas da Europa para atestá-lo. E a prova é esta: por que os protestantes, aparecendo no século XVI, faziam tanta grita contra o culto das imagens, provocando assim um novo pronunciamento no Concílio de Trento, senão porque êste culto continuava a existir na Igreja Católica?

392. O FEITIÇO CONTRA O FEITICEIRO.

De modo que os protestantes, quando dizem que o culto das imagens é uma idolatria, quando dizem que, se há êste culto é simplesmente porque o paganismo invadiu a Igreja, mostram apenas que NÃO CRÊEM EM NOSSO SENHOR JESUS CRISTO.

Jesus Cristo fundou a sua Igreja e prometeu que as portas do inferno não prevaleceriam contra ela: Tu és Pedro e sôbre esta pedra edificarei A MINHA IGREJA, E AS PORTAS DO INFERNO NÃO PREVALECERÃO CONTRA ELA (Mateus XVI-18). Bem como, mandou seus Apóstolos propagar uma IGREJA UNIVERSAL: Ide, pois, ensinai TÔDAS AS GENTES (Mateus XXVIII-19) e prometeu sua proteção, sua assistência até o fim do mundo: E ESTAI CERTOS de que EU ESTOU convosco todos os dias, até a consumação cio século (Mateus XXVIII-20).

Como é que deixou esta Igreja Universal ficar durante mais de 1.000 anos praticando A IDOLATRIA, invadida por um grosseiro paganismo e só no século XVI fêz aparecer Calvino para remediar a esta situação? Neste caso, então A PALAVRA DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO NÃO SERIA INFALÍVEL.

A Igreja é a amada espôsa de Cristo (Efésios V-25). Não se pode lançar sôbre ela a gravíssima acusação de haver-se prostituído pela idolatria, sem ultrajar ao mesmo tempo o seu Divino Espôso que, tendo poder infinito, tão explicitamente prometeu velar sôbre ela até a consumação do Inundo.

Salvo indicação em contrário, o conteúdo desta página é licenciado sob Creative Commons Attribution-ShareAlike 3.0 License