L.I.B.:CAPÍTULO IV

O VERDADEIRO SENTIDO DA SALVAÇÃO PELA FÉ

INTRODUÇÃO

57. TEXTOS BÍBLICOS SOBRE A SALVAÇÃO PELA FÉ.

Agora que já fizemos uma ligeira exposição da doutrina católica no capítulo segundo e mostrámos, no capítulo terceiro, como nasceu a teoria da salvação só pela fé, passamos a mostrar diretamente como é falsa esta teoria, expondo a verdadeira interpretação dos textos em que os protestantes pretendem apoiá-la.

Vamos aos textos.

O Evangelho de S. Marcos nos mostra Jesus mandando os Apóstolos a pregar o Evangelho por todo o mundo: Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a tôda a criatura (Marcos XVI-15) e acrescentando logo em seguida: O que CRER e fôr batizado SERÁ SALVO; o que, porém, não crer será condenado (Marcos XVI-16).

Mas onde se encontram muitos textos sôbre a salvação pela fé é no Evangelho de S. João, que nos mostra Jesus dizendo: Assim amou Deus ao mundo, que lhe deu a seu Filho Unigênito, para que TODO O QUE CRÊ NÊLE não pereça, mas TENHA A VIDA ETERNA; porque Deus não enviou seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Êle. Quem nÊle CRÊ NÃO É CONDENADO, mas o que não crê já está condenado, porque não crê no nome do Filho Unigênito de Deus (João II-16 a 18). Mais adiante, no fim do mesmo capítulo 3.o: O que CRÊ no Filho TEM A VIDA ETERNA; O que, porém, não crê no Filho não verá a vida, mas sôbre êle permanece a ira de Deus (João III-36).

Na capítulo 5.o: Em verdade, em verdade vos digo que quem ouve a minha palavra e CRÊ nAquele que me enviou, TEM a VIDA ETERNA e não incorre na condenação, mas passou da morte para a vida (João V-24).

No capítulo 6.o: A vontade de meu Pai que me enviou é esta: que todo o que vê o Filho e CRÊ nÊle, TENHA A VIDA ETERNA; e eu o ressuscitarei no último dia (João VI-40). Uma palavra semelhante diz Jesus a Marta, pouco antes da ressurreição de Lázaro: Eu sou a ressurreição e a vida; o que CRÊ em mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo o que vive e CRÊ em mim NÃO MORRERÁ ETERNAMENTE (João XI-25 e 26). Ainda no capítulo 6.o: O que CRÊ em mim TEM A VIDA ETERNA (João VI-47).

Nos Atos dos Apóstolos se lê que, enquanto Paulo e Silas estavam na prisão, o carcereiro, tendo visto os fenômenos extraordinários que se deram à meia-noite quando ambos se entregavam à oração, lhes perguntou: Senhores, que é necessário que eu faça para me salvar? (Atos XVI-30). A resposta foi esta: CRÉ no Senhor Jesus, e SERÁS SALVO tu e a tua família (Atos XVI-31).

No primeiro capítulo da Epístola aos Romanos se lêem estas palavras de S. Paulo: Eu não me envergonho do Evangelho, porquanto a virtude de Deus é para dar a SALVAÇÃO a TODO o que CRÊ (Romanos 1-16). E na mesma Epístola se lê mais adiante, com referência a Jesus Todo o que CRÊ NELE NÃO SERÁ CONFUNDIDO (Romanos X-11). Frase esta que se lê também na 1.a Epístola de S. Pedro, em que se fala sôbre Jesus, que é a pedra angular da Igreja: Eis aí ponho eu em Sião a principal pedra do ângulo, escolhida, preciosa; e o que CRER nela NÃO SERÁ CONFUNDIDA (1.a Pedro 11-6).

Há ainda outros textos (todos de S. Paulo) alegados também pelos protestantes em favor de sua teoria; nós os examinaremos, um por um, nos três capítulos seguintes, porque todos êles só podem ser estudados no seu respectivo contexto (6).

Quanto aos textos dêste capítulo, o leitor está vendo logo que são, muitos, mas exprimem exatamente a mesma coisa:

Quem crê em Cristo se salva; quem não crê se condena.

Crê em Jesus e serás salvo.

Quem nÊle crê não perece, mas tem a vida eterna.

Quem nÊle crê não é confundido.

58. DOUTRINA PROTESTANTE E DOUTRINA CATÓLICA.

Nos textos acima apresentados se baseiam os protestantes para tentar provar a salvação só PELA FÉ. Mas caem logo em manifesta contradição, pois enquanto procuram firmar-se nestes textos para dizer que a fé é que salva e nada mais, ao mesmo tempo asseveram que para a salvação é indispensável o ARREPENDIMENTO. E no entanto já mostrámos no capítulo anterior que salvação pelo arrependimento é salvação pelas obras.

Os que não querem cair nesta contradição e afirmam que para o perdão dos pecados o arrependimento não é necessário, ensinam uma doutrina ímpia, imoral e escandalosa, tal qual ensinou Lutero.

Isto, porém, não é obstáculo para que uns e outros se aferrem aos citados textos, desprezando os demais: continuam a pregar com êles a salvação só pela fé, afirmando que a salvação não depende das obras da indivíduo, nem direta, nem indiretamente, porque é dada inteiramente de graça para aquêle que crê. Daí afirmarem abertamente que já estão salvos, porque estão convencidos de que crêem em Jesus Cristo. Se crêem ou não, isto veremos mais adiante (n.o 364). Quanto às boas obras, já não falam como Lutero que dizia serem elas inúteis ou mesmo nocivas à salvação. Dizem os protestantes de hoje que as boas obras são um meio de exercitar a fé, são um fruto ou conseqüência da salvação: o indivíduo que já está salvo pela fé pratica boas obras, mas as boas obras não são CAUSA da salvação.

A distinção é sutil, capciosa e, sobretudo, confusa para se ensinar ao povo, que precisa saber de uma maneira límpida e clara o que deve fazer e o que não deve fazer para ganhar o Céu. Mas o Protestantismo não está ligando muita importância a isto: discordar da Igreja Católica é todo o seu gôsto e prazer.

A fórmula protestante encerra uma linguagem duvidosa e geradora de confusões: "As boas obras são uma conseqüência da fé: aquêle que já está salvo pela fé, pratica boas obras".

Mas conseqüência, de que modo? Conseqüência livre, no sentido de que aquêle que tem fé praticará as boas obras que bem entender? Isto não se admite. Se Deus nos impôs 10 mandamentos, não está em nosso poder fazer uma escolha entre êles, não nos é lícito nem ao menos escolher nove mandamentos e rejeitar um só; quem peca contra um só mandamento que seja, peca contra tôda a lei, pois se rebela contra Deus, Senhor Supremo, que é o Autor de tôda a lei: Qualquer que tiver guardado tôda a lei e faltar em um só ponto, fêz-se réu de ter violado todos (Tiago II-10).

Conseqüência necessária, no sentido de que aquêle que tem fé, já não peca mais e só pratica boas obras? Ninguém é tolo para acreditar nisto. A experiência de cada dia nos demonstra que não existe sôbre a face da terra nenhum homem impecável: Todos nós tropeçamos em muitas coisas (Tiago III-2). Aquêle, pois, que crê estar em pé veja não caia (1.a Coríntios X-12).

Conseqüência necessária, no sentido de que qualquer ação, seja boa, seja má, praticada por aquêle que tem fé se torna uma obra boa? Mas isto seria o maior dos absurdos. Como é que Deus vai considerar obras boas o roubo, a injustiça, o adultério, o falso testemunho pelo simples fato de serem praticados por um homem que tem fé? Muito pelo contrário: se êstes pecados já são graves para o pagão que não conhece a Cristo, mais graves ainda se tornam para o cristão, esclarecido pelas luzes da fé.

Conseqüência necessária, no sentido de que aquêle que tem fé se sente forçosamente na obrigação de observar os mandamentos e praticar boas obras? Mas isto é a pura doutrina católica; neste caso os mandamentos são tão obrigatórios como a própria fé. Sua observância é indispensável para a conquista do Céu. Não se trata mais, portanto, de salvação pela fé sem as obras.

Nós, católicos, afirmamos que para o homem salvar-se, para ganhar o Céu, não só é necessária a fé em Cristo; é necessária também a observância dos mandamentos, pelo amor de Deus e do próximo, indispensável para a salvação. Não é a fé sem as obras que salva; é a fé acompanhada das obras, a fé CONSUMADA PELAS OBRAS (Tiago II-22), como se expressou S. Tiago.

Se se exige o arrependimento dos pecados para o pecador receber o perdão, isto é porque êle, desviando-se da obrigação dos mandamentos, se afastou do caminho do Céu. Dizendo, porém, que a fé salva com as obras, não afirmamos que o homem realiza estas obras, sozinho, por suas próprias forcas naturais; realiza-as, sim, ajudado com a graça de Deus, a qual Deus dá a todos; ao que faz o que está ao seu alcance, Deus não nega a sua graça, porém a graça é necessária, não só para a fé, mas para a observância dos mandamentos, como também para fazer qualquer ato bom meritório para a vida eterna (n.os 24 a 26). Em suma, existe na obra da salvação a parte de Deus e a nossa. A nossa parte não consiste só na fé, mas também nas obras, na observância dos mandamentos, embora que para isto precisamos que Deus nos ajude. Se cooperamos com a sua graça, pela fé e pela observância dos mandamentos de Jesus, e morremos em estado de graça santificante, seremos salvos. Se com ela não cooperamos e morremos em estado de pecado mortal, seremos condenados. A salvação é, portanto, efeito da graça e das nossas obras, da nossa cooperação, ao mesmo tempo.

59. MÉTODO PARA A INTERPRETAÇÃO DOS TEXTOS.

Temos agora que nos entregar, de corpo e alma, à interpretação dos textos acima alegados, que se podem resumir no seguinte:

Crê em Jesus e serás salvo, pois quem não crê em Jesus será condenado.

O que é SALVAR-SE não precisa de explicação.

Salvar-se é livrar-se do inferno, da condenação eterna; é morrer com o direito de ir para o Céu, de participar da vida eterna, vendo a Deus, não por espelho ou em enigmas, porém face a face, como dizem as Escrituras; direito do qual se vai gozar ou imediatamente ou após a temporária purificação no purgatório.

Para bem penetrarmos no sentido dos textos apresentados, temos, sim, que fazer uma idéia bem clara do que seja CRER.

E assim veremos:

1.° — o que é CRER

2.° — o que devemos CRER

3.° — como devemos CRER

Expondo estas 3 partes, não nos valeremos de idéias, nem interpretações nossas, a Bíblia será sempre a nossa mestra e a nossa guia.

O QUE É CRER

60. A CONCEPÇÃO DE LUTERO.

Quem não sabe o que é crer? Quem não entende o que quer dizer crer em Cristo? É aceitar como verdadeiro, abraçar e professar tudo o que Cristo ensinou; qualquer criança sabe disto. Que necessidade há de fazermos uma longa dissertação sare êste assunto?

Sim; não haveria necessidade, se Lutero e os protestantes não houvessem confusamente adulterado esta noção. Lutero, como sabemos, quis ir buscar nas Escrituras a certeza absoluta de que estava salvo folgadamente, sem ter que continuar naquela luta tremenda contra as tentações. Gostou muito daqueles textos em que se diz que quem crê em Cristo se salva. Mas, se fôsse tomar a palavra CRER no sentido de convencer-se de tôdas as palavras de Jesus, isto iria dar novamente num ponto que êle não queria, porque Cristo se mostrou não só um Salvador, mas também um Legislador. Daí a alteração que faz no sentido da palavra CRER: Crer em Cristo é crer que eu estou salvo, certamente salvo, e salvo por Cristo; é, portanto, confiar em Cristo, como em meu Salvador.

Todo o mundo percebe logo a adulteração que se está fazendo aí da noção de FÉ.

Que Cristo é meu Salvador é de fé, está na Bíblia. Mas a mesma Bíblia nos mostra que uns se salvam, outros se condenam, o que não impede que Cristo seja o Salvador de TODOS, é sinal apenas de que muitos não se sabem aproveitar da salvação que a todos é oferecida por Cristo. E irão êstes para o suplício eterno, e os justos para a vida eterna (Mateus XXV-46). Que uns se salvam, outros se condenam é de fé; que eu, Martinho Lutero; que eu, Lúcio Navarro; que eu, Fulano de tal, me salvo com tôda certeza, isto não é objeto de FÉ, porque não foi revelado. Não é o fato de sugestionar-me a mim mesmo de que estou salvo que me dá a salvação, pois o que a Bíblia nós diz é que Cristo é o autor da salvação eterna para TODOS OS QUE LHE OBEDECEM (Hebreus V-9). Posso ter esperança firme de salvar-me. Mas aí já se trata de outra virtude diferente: a virtude da esperança. E é a própria Bíblia quem no-las apresenta como virtudes diversas: Agora, pois, permanecem a fé, a esperança, a caridade, estas TRÊS virtudes; porém a maior delas é a caridade (1.a Coríntios XIII-13). Sejamos sóbrios, estando vestidos da couraça da FÉ e da CARIDADE e tendo por elmo A ESPERANÇA DA SALVAÇÃO (1.a Tessalonicenses V-8). Sois fiéis em Deus, o qual O ressuscitou dos mortos e Lhe deu glória, para que a vossa FÉ e a vossa ESPERANÇA fôsse em Deus, fazendo puras as vossas almas na obediência da CARIDADE (1.a Pedro I-21 e 22).

61. UM TEXTO DA EPÍSTOLA AOS HEBREUS.

Os argumentos que apresentam os protestantes, para confundir uma virtude com outra, são muito fracos diante de tantos textos da Bíblia que vamos daqui a pouco apresentar para mostrar o legítimo sentido da palavra CRER. Apelam para o texto de S. Paulo: É pois, a fé, a substância das coisas que se devem ESPERAR, um argumento das coisas que não aparecem (Hebreus XI-1). É claro que há uma relação íntima entre a esperança e a fé, pois a fé apresenta matéria, objeto, quase diríamos assunto para a esperança. Se espero o Céu, é porque a fé me dá certeza de que este Céu existe; é por isto que S. Paulo diz que a fé é a substância das coisas que se devem esperar, não se esquecendo logo de acrescentar: um argumento, uma demonstração, uma prova daquelas coisas que não aparecem, que não se vêem. E se êle diz um argumento, uma demonstração (que é êste o sentido da palavra ÉLENCHOS, aí empregada no texto grego: ÉLENCHOS, isto é, o ato de argumentar, de convencer, de persuadir, de demonstrar), é porque a fé não é um mero sentimento; é, sobretudo, um ato da inteligência que se convence da verdade. E neste mesmo trecho, cinco versículos mais adiante, diz S. Paulo: Sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que o que se chega a Deus creia que há Deus e que é remunerador dos que O buscam (Hebreus XI-6). Aí S. Paulo nos diz que para agradar a Deus precisamos ter fé; depois mostra em que consiste esta fé INDISPENSÁVEL PARA AGRADAR A DEUS; não se trata da esperança ou da certeza de que seremos salvos; trata-se de, pelo menos, DAR CRÉDITO a duas coisas (uma vez que nem todos chegam a ter conhecimento da doutrina do Evangelho), de dar o nosso assentimento a duas verdades: 1.a Deus existe; 2.a Deus é justo e recompensa aquêles que O buscam.

62. OUTRO ENGANO.

Apresentam também outro argumento que nada prova. A algumas pessoas que alcançaram curas corporais, Nosso Senhor lhes fêz ver que foi por causa de sua fé que conseguiram aquêles milagres. Assim disse à mulher que padecia do fluxo de sangue: Filha, a tua fé te salvou: vai-te em paz e fica curada do teu mal (Marcos V-34). A mesma frase: A tua fé te salvou — Jesus disse ao cego de Jericó (Lucas XVIII-42) e ao leproso que voltou para agradecer (Lucas XVII-19). Ora, dizem os protestantes, aquelas pessoas vieram com tôda a confiança de que Jesus as curaria; Jesus chama a esta confiança, fé; logo, fé é confiança.

É fácil mostrar onde está o engano dêste raciocínio. Aquela fé que traziam os cegos, doentes, leprosos etc., quando vinham ter aos pés de Jesus, se compunha de dois elementos. Êles vinham, certos, convictos de duas coisas:

1.° Jesus queria curá-los;

2.° Jesus podia curá-los.

Ora, a convicção de que Jesus QUERIA curá-los não causa nenhuma admiração. Não admira que um homem, mesmo sendo mau e perverso, se prontificasse a curar um cego, um leproso etc, se soubesse que bastaria uma palavra sua para livrá-lo daquele triste estado. Querer curá-los, qualquer homem quereria; mas poder curar aquilo que é por sua natureza incurável — aí é que está o difícil. A convicção de que Jesus queria curá-los era confiança, mas uma confiança natural, que facilmente se explica; a convicção de que Jesus PODIA, isto era a convicção de uma verdade: que Jesus era Deus ou, pelo menos, um Enviado de Deus, o Messias Prometido, porque estava a seu alcance fazer o que quisesse. É sempre a aceitação de uma verdade.

A prova está aqui: Aos dois cegos que seguiam atrás dÊle dizendo: Tem misericórdia de nós, Filho de Davi, Jesus não pergunta: Tendes confiança de que eu quero curar-vos? Sua pergunta é esta: Credes que vos POSSO fazer isto a vós outros? (Mateus IX-28) e quando êles respondem Sim, Senhor, Jesus lhes diz: Faça-se-vos, segundo a vossa FÉ (Mateus IX-29). E no capítulo anterior, S. Mateus nos narra que, quando Jesus desceu do monte, muita gente, o seguiu; veio ao encontro dÊle um leproso, e como é que êsse leproso exprime a sua fé? É com esta palavra: Se tu queres, Senhor; bem me PODES limpar (Mateus VIII-2). Parece não estar muito certo de que o Mestre quer, pois talvez êle não o mereça; está, porém, certíssimo de que o Mestre pode.

O centurião vem pedir a Jesus a cura do criado e o Mestre lhe diz imediatamente: Eu irei e o curarei (Mateus VIII-7). Até aqui nenhuma admiração de Jesus pelo fato de ter vindo o centurião à sua presença. Mas, quando o centurião Lhe faz ver que não é necessário que Jesus vá à casa dêle, pois PODE curar de longe mesmo: Senhor, eu não sou digno de que entres na minha casa; porém manda-o só com a tua palavra e o meu criado será salvo (Mateus VIII-8) diz o Evangelho o que aconteceu: Jesus, ouvindo-o assim falar, admirou-se e disse para os que O seguiam: Em verdade vos afirmo que não achei tamanha FÉ em Israel (Mateus VIII-10). A fé, portanto, dos que recorriam a Jesus era sobretudo a convicção de que Jesus podia fazer o milagre e, se podia, é porque era um Enviado de Deus, pois, como disse Nicodemos: Ninguém pode fazer êstes milagres que tu fazes, se Deus não estiver com êle (João III-2).

63. A CANANÉIA.

Não faz exceção a esta regra a própria cananéia, que nos legou um tão notável exemplo de confiança.

À semelhança do que no exame faz o mestre com o ótimo discípulo, "espichando-o" bastante para que se saia com brilhantismo, Nosso Senhor procurou pôr em prova as virtudes da cananéia.

Ela vem pedir-Lhe um milagre, mas Jesus não dá resposta. Insiste aos gritos atrás dÊle, a ponto de azucrinar os Apóstolos que, impacientes, dizem a Jesus: Despede-a, porque vem gritando atrás de nós (Mateus XV-23).

Jesus diz: Eu não fui enviado senão às ovelhas que pereceram da casa de Israel (Mateus XV-24). E quando a mulher O adora, dizendo: Senhor, valei-me, Jesus lhe dá uma resposta um bocado dura: Não é bom tirar o pão dos filhos e lançá-lo aos cães (Mateus XV-26). Mas a cananéia responde calmamente: Assim é, Senhor; mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos (Mateus XV-27). Sem falarmos no amor materno, que a faz, tão solícita, tudo enfrentar pela cura da filha, quantas virtudes mostra a mulher com esta réplica tão suave! Dá um exemplo de PRUDÊNCIA NAS PALAVRAS, porque responde com respeito e, ao mesmo tempo, com lógica, fazendo reverter em seu favor as próprias palavras de Jesus; de PACIÊNCIA, porque, se fôsse uma mulher afobada, se tomaria logo de raiva e deitaria tudo a perder; de HUMILDADE, porque se conforma em ser equiparada a uma cadelazinha, em comparação com os judeus que são considerados como filhos; de PERSEVERANÇA NA ORAÇÃO, porque insiste em pedir, mesmo quando já recebeu uma resposta negativa. Por conseguinte não foi só de confiança, que ela nos deu um admirável exemplo! Se Jesus quisesse fazer o seu elogio completo, teria muita coisa que dizer. Preferiu elogiar-lhe a fé: ó mulher, grande é a tua fé; faça-se contigo como queres (Mateus XV-28). De tôdas aquelas virtudes a base era fé, porque, se ela se portou com tanta prudência, paciência, humildade e perseverança diante de Jesus, é porque sabia que estava diante do Messias Prometido, a quem ela chamou: Senhor, filho de Davi (Mateus XV-22), estando certa, portanto, da missão divina de Jesus.

Não há dúvida que a fé vem sempre acompanhada de um certo sentimento de confiança: quem ACREDITA, é porque TEM CONFIANÇA naquele que revela. E se nos textos evangélicos que nos falam das curas por Jesus realizadas, se resume sob o nome de fé um complexo sentimento daqueles que vinham em busca de milagres, sentimento êste que era adesão a Cristo, incluindo também a confiança e até alguma coisa mais como no caso da cananéia e não só a fé, no sentido em que a distinguimos das demais virtudes, não há aí nenhuma confirmação da doutrina protestante, pois daí não se conclui de forma nenhuma que devamos ter uma mera fé-confiança, sem cuidar de aderir seriamente com a inteligência às verdades reveladas. Sem esta adesão da inteligência é que não pode haver fé de maneira alguma. E se podemos ter confiança de nos salvarmos, é só nas bases e sob as condições em que o plano da salvação nos é apresentado pela doutrina infalível de Jesus Cristo no Novo Testamento.

64. O CASO DO PARALÍTICO.

Mas os protestantes apresentam as palavras de Jesus ditas ao paralítico: Filho, tem confiança; perdoados te são teus pecados (Mateus IX-2), tentando provar com elas que basta a confiança para obter o perdão dos pecados e, por conseqüência, a salvação.

O argumento não prova coisa alguma.

Eis aí um belo exemplo para se mostrar, numa aula de português, quanto pode às vezes influir no sentido de uma frase a partícula E, que tantas outras vezes a gente pode colocar ou suprimir, sem alterar, de maneira alguma, o sentido.

Se eu digo: O sol, a lua, as estrelas foram criados por Deus, posso acrescentar o E, sem sofrer alteração o sentido da frase: O sol E a lua E as estrelas foram criados por Deus.

Mas, se Jesus Cristo tivesse dito: — Filho, tem confiança, E perdoados são teus pecados — os protestantes teriam razão: Nosso Senhor estaria dizendo que bastava ao paralítico ter confiança para receber o perdão de suas culpas. Nesse caso os escribas não teriam estranhado a palavra do Mestre; não teriam pensado: Êste blasfema (Mateus IX-3), porque assim Jesus não estaria dizendo que perdoara os pecados ao paralítico, mas aconselhando-o a que tivesse confiança, pois Deus lhe perdoaria, caso esta confiança não lhe faltasse.

Mas Nosso Senhor disse: Filho, tem confiança; perdoados te são teus pecados (Mateus IX-2). No mesmo segundo em que o aconselha a ter confiança, lhe está já anunciando que PERDOOU os seus pecados.

Havia, entre os judeus, a convicção de que as enfermidades corporais eram castigos de pecados. Relacionavam com esta crença as palavras dos Salmos: Se seus filhos abandonarem a minha lei e não andarem nos meus preceitos, se violarem as minhas justiças, e não guardarem os meus mandamentos, visitarei com vara as suas maldades e com açoutes os seus pecados (Salmos LXXXVIII-31 a 33). E uma amostra de que tinham esta convicção está na pergunta que fizeram a Jesus os seus discípulos, diante do cego de nascença: Mestre, que pecado fêz êste, ou fizeram seus pais, para nascer cego? (João IX-2).

Jesus, que lia perfeitamente nos corações, bem sabia que perturbação, que ansiedade reinava na alma do paralítico: êste desejava ardentemente a cura, mas seus pecados não seriam um obstáculo para isto? Jesus o tranqüiliza, fazendo-lhe ver que não há motivo de receio quanto aos pecados, êles já foram absolvidos: Filho, tem confiança; perdoados te são teus pecados (Mateus IX-2).

No ânimo triste e acabrunhado do paralítico, a palavra de Jesus deve produzir o mais benéfico e salutar efeito: é preciso que êle esteja confiante de que alcançará a cura do corpo, pois até a própria cura da alma já lhe foi concedida.

Querer basear-se neste texto para provar que a confiança na salvação é a condição exclusiva para remissão dos pecados, é inteiramente fora de propósito: 1.° porque a confiança, a que Jesus aí se refere, não é a confiança na salvação eterna, é a confiança na libertação daquela cruel enfermidade; 2.° porque esta confiança aí já se mostra não como causa, mas como EFEITO da remissão dos pecados concedida ao paralítico.

65. NOÇÃO LEGÍTIMA DE FÉ.

Desfeita a ilusão protestante, que pretende confundir a fé com a esperança, vejamos o que significa a palavra CRER.

Quando dizemos a uma pessoa: Creio em Você, significamos com isto que aceitamos como sendo verdadeiro o que esta pessoa nos está dizendo, disto estamos convictos, embora nada tenhamos visto nem presenciado, porque estamos certos de que a referida pessoa não é capaz de nos enganar.

Aqui, neste assunto de crença religiosa, crer é estar convicto das verdades reveladas, não porque foi a nossa razão que nos disse que era assim, mas porque Deus o disse, e Deus não nos engana, nem pode enganar-se: Se nós recebemos o testemunho dos homens, o testemunho de Deus é maior (1.a João V-9).

Deus merece todo o nosso crédito, porque é a Suma Verdade; e aparecendo Jesus Cristo, o Filho de Deus feito homem, Deus se encarregou de dar o testemunho em favor de Jesus Cristo, mostrando que suas palavras eram palavras de Deus e mereciam tôda a nossa aceitação: este é aquêle meu Filho especialmente amado; ouvi-O (Lucas IX-35). Êste é o meu Filho amado, no qual tenho pôsto a minha complacência (Mateus III-17).

O testemunho de Deus a favor de Jesus não foi dado somente por palavras, mas também pelos milagres, obras divinas, que por Jesus foram realizadas: As obras que eu faço em nome de meu Pai, elas dão testemunho de mim (João X-25). Se eu não faço as obras de meu Pai, não me creais; porém se eu as faço, e quando não queirais crer em mim, crede as minhas obras, para que conheçais e creais que o Pai está em mim, e eu no Pai (João X-37 e 38).

Tendo Jesus a seu favor o testemunho divino, crer em Jesus é o mesmo que crer em Deus; duvidar de Jesus é duvidar de Deus: A minha doutrina não é minha; mas é dAquele que me enviou (João VII-16). O que me enviou é verdadeiro; e eu o que digo no mundo é o que dÊle aprendi (João VIII-26).

Se cremos na doutrina de Jesus, cremos também que Êle é Deus e igual ao Pai: Eu e o Pai somos uma mesma coisa (João X-30).

66. CRER OU NÃO CRER.

Crer em Jesus é, portanto, aceitar como verdade tudo o que Jesus nos ensinou; uma vez que Êle é o Filho de Deus, igual ao Pai, temos que reconhecer como verdadeiro tudo o que Êle disser, ainda que seja um mistério, ainda que o não possamos compreender. Isto se mostra claramente no capítulo 6.o de S. João, onde se vê um choque entre Jesus e os judeus que nÊle não querem crer.

Jesus lançou perante os judeus a seguinte afirmação: Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do homem e beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós. O que come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia, porque a minha carne VERDADEIRAMENTE é comida; e o meu sangue VERDADEIRAMENTE é bebida (João VI-54 a 56).

O que significam estas palavras? Depois teremos ocasião de explicar (n.° 307 a 309). Por enquanto, pode o leitor perguntar a qualquer um dêsses protestantes que andam por aí, ilustríssimos, sapientíssimos e entusiasmadíssimos intérpretes das Sagradas Escrituras, o que quer dizer: comer a carne de Cristo, beber o sangue de Cristo. Se êle disser que significa crer em Cristo, peça-lhe que prove, por especial obséquio, com citações da Bíblia ou de qualquer escritor do mundo, que comer a carne de uma pessoa é o mesmo que crer nela; beber o seu sangue é o mesmo que fazer um ato de fé. O que é fato é que os ouvintes, como não podia deixar de ser, tomaram as palavras de Cristo no sentido de que Êle falava em dar mesmo a sua carne para comer, o seu sangue para beber. Cristo falava sério, não estava brincando, porque Êle nunca falou brincando, nem para enganar a ninguém.

Qual a reação que aquelas palavras do Mestre produziram entre os seus ouvintes? Uns pensaram assim: Jesus não erra, não mente, não engana, Êle tudo pode fazer, porque o poder de Deus está nÊle, se Êle disse que dará sua carne para comer, é porque vai dar mesmo. Outros, porém, acharam isto impossível e absurdo: Como pode êste dar-nos a comer a sua carne? (João VI-53). Duro é êste discurso e quem no pode ouvir? (João VI-61). Jesus se queixa de sua incredulidade: Há alguns de vós outros que vão CRÊEM (João VI-65). Porque bem sabia Jesus desde o princípio quais eram os que não CRIAM (João VI-65).

Trata-se aqui, portanto, dêste assunto: CRER ou NÃO CRER. Mas crer ou não crer não é, no caso, confiar ou não confiar em que se vai para o Céu mas: ACREDITAR OU NÃO ACREDITAR na revelação tão espantosa que Jesus acabara de fazer, isto é, que daria sua própria carne para comer, seu próprio sangue para beber (veja-se n.º 316). Não resta a menor dúvida. E tão obstinados ficaram aquêles em não crer em Jesus, que O abandonaram de vez: Desde então se tornaram atrás muitos de seus discípulos e já não andavam com Êle (João VI-67).

Jesus volta-se então para os doze. Quererão êles ir embora também, pelo fato de acharem impossível Jesus dar a sua carne para comer, o seu sangue para beber? Quererão êles, também, dizer: Não creio; não Vos sigo mais? Simão Pedro, o primeiro dos Apóstolos, o chefe de todos êles, se encarrega de falar em seu nome e em nome de todos: Senhor, para quem havemos de ir? Tu tens palavras de vida eterna; e nós temos CRIDO e conhecido que tu és o Cristo, Filho de Deus (João VI-69 e 70). Primeiro creram sem ter visto os grandes prodígios; depois à vista dos grandes milagres e pela convivência com o Mestre, conheceram ainda melhor que Jesus é o Filho de Deus, e, portanto, infalível.

Aqui vemos claramente o que o Evangelho entende pela palavra CRER. Crer não é lançar-me aos pés de Jesus e procurar sugestionar a mim mesmo que eu, pessoalmente, eu, Fulano de tal estou salvo, infalivelmente salvo. Crer é aceitar tudo o que Jesus disse, mesmo que isto se me afigure dificílimo, incompreensível, misterioso, impossível aos meus olhos; se Êle diz, é porque está certo; se Êle diz que faz, é porque faz mesmo. E o fundamento da fé é magistralmente apresentado por S. Pedro: Jesus não pode mentir, não pode enganar a ninguém, porque é o Cristo, Filho de Deus e, como tal, tem palavras de vida eterna.

67. CRER EM CRISTO, FILHO DE DEUS.

Cristo ensinou muitas coisas, quando andava neste mundo. Para exprimir a nossa fé em tudo o que Êle ensinou, a gente não precisa relembrar, um por um, todos os seus ensinamentos, pode resumir tudo isto num só artigo: Creio que Jesus é o Filho de Deus; crendo na divindade de Cristo temos que crer necessariamente em tudo o que Ele disse.

Assim resumida foi a profissão de fé que fêz Marta, a irmã de Lázaro. Jesus lhe diz: Eu sou a ressurreição e a vida; o que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo o que vive e crê em mim não morrerá eternamente. Crês isto? (João XI-25 e 26). Marta Lhe responde: Sim, Senhor, eu já estou na CRENÇA de que tu és o Cristo, Filho de Deus Vivo, que vieste a êste mundo (João XI-27).

Nestas palavras estava logicamente incluída a fé em todo o ensino de Jesus; embora Marta não conhecesse perfeitamente todos os dogmas do Cristianismo, contudo nêles cria implicitamente, porque cria em Jesus que os ensinou.

Um exemplo pitoresco e edificante da disposição de crer em tudo o que Jesus disser, se vê no cego de nascença a quem o Mestre concedeu a vista e, depois perguntou: Tu CRÉS no Filho de Deus? (João IX-35). O cego não sabe ainda quem é o Filho de Deus; mas o que Jesus disser, ele acredita. Aponte Jesus quem é o Filho de Deus e ele está disposto a aceitá-Lo. Quem é Ele, Senhor, para eu crer nÊle? Disse-lhe, pois, Jesus: Até já tu O viste, e é Aquêle mesmo que fala contigo. Então respondeu ele: Eu CREIO, Senhor. E prostrando-se, O adorou (João IX-36 a 38).

Jesus, sendo o Filho Unigênito do Pai (João 1-14) é necessáriamente cheio de graça e de VERDADE (João 1-14) e bem pode dizer: Eu sou o caminho e a VERDADE e a vida (João IV-6). Por isto, só podia ser exato o que Lhe disseram os fariseus, embora não o dissessem com reta intenção: És VERDADEIRO, e ensinas o caminho de Deus pela VERDADE (Mateus XXII-16). Seria absurdo, portanto, pensar que crer que Jesus é o Filho de Deus quer dizer somente, crer na divindade ou na divina missão de Jesus e nada mais, sem tirar daí a conclusão lógica, inevitável, imperiosa de que é necessário crer tudo o que Jesus disser.

68. CRER NO EVANGELHO.

A Bíblia tem outra expressão para resumir numa só palavra O objeto da nossa fé: temos obrigação de crer no Evangelho.

O Evangelho é o conjunto de tôda a doutrina ensinada por Cristo. Quando falamos em Evangelho, logo nos lembramos dos quatro livros que nos narram a vida de Cristo e que têm êste título. Mas a palavra já era empregada por Cristo antes de existirem os livros, os quais só foram escritos alguns anos depois que Cristo morreu. É precisamente porque êstes livros trazem esta doutrina que tomaram tal nome. Crer no Evangelho é crer na doutrina pregada por Jesus e pelos Apóstolos, doutrina esta que ou está encerrada nos livros do Novo Testamento, ou foi transmitida oralmente aos primeiros cristãos (2.a Tessalonicenses 11-14, 111-6; 2.a Timóteo 1-13 e 14).

Diz o Evangelho de S. Marcos: Depois que João foi entregue à prisão, veio Jesus para Galiléia, pregando o EVANGELHO do reino de Deus e dizendo: Pois que o tempo está cumprido e se aproxima o reino de Deus, fazei penitência e CREDE no EVANGELHO (Marcos I-14 e 15).

E é depois de dizer aos Apóstolos: Ide por todo o mundo; pregai o EVANGELHO a tôda a criatura (Marcos XVI-15), que Jesus lhes diz: O que CRER e fôr batizado será salvo; o que, porém, não CRER será condenado (Marcos XVI-16). Não é, portanto, a crença só nesta ou naquela verdade, muito menos a impressão de que estamos salvos por Jesus, embora sem o merecermos; é a crença em tôda a doutrina de Jesus, a qual é pregada pelos Apóstolos, que é exigida para a salvação.

E S. Pedro diz no Concílio de Jerusalém: Vós sabeis que desde os primeiros dias ordenou Deus entre nós que da minha bôca ouvissem os gentios a palavra do EVANGELHO e que a CRESSEM (Atos XV-7), o mesmo S. Pedro que diz na sua 1.a Epístola: Qual será o paradeiro daqueles que não CRÊEM no EVANGELHO de Deus? (1.a Pedro IV-17).

69. FÉ PARTICULARIZADA.

Vamos ver outras passagens da Bíblia em que aparece a palavra CRER, sempre no sentido de dar crédito àquilo que nos dizem, aceitar uma verdade que nos é proposta.

O Anjo Gabriel anuncia a Zacarias que Isabel conceberá um filho. Zacarias não acredita: Por donde conhecerei eu a verdade dessas cousas? porque eu sou velho e minha mulher está avançada em anos (Lucas 1-18). O anjo lhe diz: Desde agora ficarás mudo e não poderás falar até o dia em que estás coisas sucedam, visto que não deste crédito às minhas palavras (Lucas I-20). Ao contrário Maria SS.ma, que não duvidou das palavras do Anjo, quando êste lhe anunciou a Encarnação do Verbo, é elogiada por S. Isabel: Bem-aventurada tu, que CRESTE, porque se hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor te foram ditas (Lucas I-45). Maria SS.ma é enaltecida, porque creu —mas não se trata aí de crer que estava salva — e sim crer que, embora virgem, seria mãe, conforme lhe foi anunciado pelo Anjo.

S. Tiago fala em crer na existência de um só Deus: Tu CRÊS que há um só Deus. Fazes bem; mas também os demônios CRÊEM e estremecem (Tiago II-19). Trata-se aí de CRER; mas não é esperança de salvação, pois se diz que até os demônios crêem (embora saibam que não podem salvar-se).

Não podemos falar nesta questão de crer ou não crer, sem que nos venha à lembrança o episódio de S. Tomé, a quem Nosso Senhor disse: Tu CRESTE, Tomé, porque me viste; bem-aventurados os que não viram e CRERAM (João XX-29). De que se tratava então? Da confiança de que seria salvo por Jesus? Não; tratava-se do crédito dado às palavras daqueles que lhe deram notícia de um fato: o fato da Ressurreição do Mestre.

Crer é, portanto, aceitar como verdadeira a palavra de alguém: Veio João a vós no caminho da justiça e não o CRESTES; e os publicanos e as prostitutas o CRERAM; e vós outros, vendo isto, nem ainda fizestes penitência para o CRERDES (Mateus XXI-32). Se vós CRÊSSEIS a Moisés, certamente me CRERÍEIS também a mim, porque êle escreveu de mim. Porém se vós não dais crédito aos seus escritos, como dareis crédito às minhas palavras? (João V-46 e 47). Jesus aí exige dos judeus que creiam nÊle com a mesma fé com que deveriam crer em Moisés. Porventura a crença em Moisés era CONFIANÇA de que Moisés os salvava, os levava para o Céu de qualquer maneira? Não; a crença que deveriam ter em Moisés era, como diz o próprio Divino Mestre, DAR CRÉDITO às suas palavras, aos seus escritos.

Não há dúvida que, entre os ensinamentos de Jesus, estão a vida eterna, a remissão dos pecados, a salvação que Êle realizou na cruz, porém muitas outras verdades, inclusive as obrigações que Cristo nos impôs, também estão incluídas nestes ensinamentos.

Crer em Jesus é ACREDITAR NA SUA PALAVRA, seja quando Êle nos faz uma promessa (daí a base em que se firma a nossa CONFIANÇA), seja quando nos anuncia qualquer verdade (daí o fundamento da nossa CRENÇA). Por que é que acreditamos nÊle quando nos faz as suas promessas de vida eterna? Porque Êle não se engana e nem quer, nem pode enganar-nos. É justamente êste o motivo que nos obriga a aceitar tudo o que Êle nos ensina. A posição que tomam os protestantes, colocando a fé salvadora EXCLUSIVAMENTE no ficarmos convictos de suas promessas, sem incluir neste conceito o crédito que havemos de dar a TODAS AS SUAS PALAVRAS, sem irmos verificar nestas infalíveis palavras em que condições a promessa nos é feita, é uma interpretação mesquinha, interesseira, ofensiva ao Divino Mestre e sem nenhum fundamento. Não há nenhum texto da Bíblia pelo qual nos provem que a fé salvadora consiste só NA CONFIANÇA, teoria esta que tornaria completamente inútil todo o empenho de Jesus em nos ensinar uma DOUTRINA, indo para o Céu da mesma forma os que aceitam fielmente esta doutrina e os que a rejeitam, torcem, adulteram, falsificam e deformam, exigindo-se apenas a interesseira convicção de que se salvam e nada mais. Todo o que se aparta e não permanece na DOUTRINA DE CRISTO não tem a Deus; e o que permanece na doutrina, êste tem assim ao Pai como ao Filho (2.a João verso 9.°).

Crer em Jesus é, portanto, aceitar tudo o que Êle nos revelou, seja promessa, seja doutrina: Se eu vos digo a VERDADE, por que me não CREDES? (João VIII-46). Êle merece todo o nosso crédito, porque é o Filho de Deus: Tu és o Cristo, Filho de Deus vivo (Mateus XVI-16). Ensinou-nos uma doutrina que se chama o Evangelho: Crede no Evangelho (Marcos 1-15). Só nos resta folhear as páginas do Evangelho para vermos.

O QUE DEVEMOS CRER

70. A PALAVRA INFALÍVEL DO MESTRE.

Jesus, Verdade Eterna, nos ensinou muitas coisas. Havemos de crer em tudo o que Êle disse, para podermos ganhar o Céu: Quem nÊle CRÊ não é condenado, mas o que não CRÊ já está condenado, porque não crê no nome do Filho Unigênito de Deus (João III-18). Não vamos repetir aqui tudo o que Jesus ensinou. Mas há uma questão que nos está preocupando neste momento: o que é e o que não é necessário para a salvação, não é assim? Pois bem, vamos ver alguma coisa do que Jesus nos diz a este respeito.

Por felicidade nossa, um dia apareceu um homem que fêz a Jesus esta pergunta: Bom Mestre, que obras boas devo eu fazer para alcançar a vida eterna? (Mateus XIX-16).

É precisamente o problema que ora nos preocupa.

Ora, se bastasse a fé para a salvação, a resposta de Jesus só podia ser uma: "Se queres entrar na vida, basta crer em mim, não é preciso mais nada, crê em mim e serás salvo". Se as obras não vogassem nada para a conquista da vida eterna, não fossem causa nem direta, nem indireta da salvação, se não fôsse, entre outras coisas, a nossa maneira de proceder que decidisse a nossa sorte na eternidade, Jesus não daria a resposta que deu, não falaria da maneira como falou. E a resposta do Mestre foi esta: Se tu queres entrar na vida, GUARDA OS MANDAMENTOS (Mateus XIX-17).

É para que desaparecesse qualquer dúvida, para que ninguém pudesse sofismar sôbre o sentido desta palavra MANDAMENTOS, o próprio consulente se encarrega de perguntar que mandamentos são êstes. Êle Lhe perguntou: QUAIS? (Mateus XIX-18). Vejamos agora a resposta do Mestre: E Jesus lhe disse: Não cometerás homicídio; não adulterarás; não cometerás furto; não dirás falso testemunho, honra a teu pai e a tua mãe, e amarás ao teu próximo como a ti mesmo (Mateus XIX-18 e 19).

Se para a salvação basta a fé, se basta estender a mão para recebê-la, como dizem os protestantes, como é que Jesus impõe tantas obrigações para O homem ALCANÇAR A VIDA ETERNA?

Chamamos a atenção do leitor para o estilo abreviado das Escrituras; a Bíblia não diz tudo num versículo, mas a doutrina completa se obtém conferindo os versículos uns com os outros. O Mestre não fala aí no principal mandamento, que é amar a Deus sôbre tôdas as coisas; cita alguns, porque assim o seu consulente já poderá identificar que mandamentos são êstes. Quando houver oportunidade, Jesus falará no máximo o primeiro mandamento (Mateus XXII-38).

Em outra ocasião (sim, em outra ocasião, pois S. Lucas narra um e outro episódio: X-25 a 28; XVIII-18 a 20), eis que aparece um doutor da lei e faz a Jesus a mesma pergunta: Mestre, que hei de eu fazer para entrar na posse da vida eterna? (Lucas X-25).

Vejamos agora a resposta de Cristo: Disse-lhe então Jesus: Que é o que está escrito na lei? como lês tu? - Êle respondendo disse: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração e de tôda a tua alma, e de tôdas as tuas fôrças e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo. E Jesus lhe disse: Respondeste bem: faze isso e VIVERÁS (Lucas X-26 a 28).

É claro que Jesus lhe quer dizer: Faze isto e VIVERÁS ETERNAMENTE, pois o que Lhe perguntaram foi o que se devia fazer para ENTRAR NA POSSE DA VIDA ETERNA. Havia dúvidas e discussões entre os judeus sôbre o sentido da palavra: o próximo. Muitos estavam inclinados a pensar que o próximo era só o amigo, o patrício, o correligionário; e não o inimigo, o de outra religião, o estrangeiro. O doutor da lei pergunta a Jesus: E quem é o meu próximo? A consulta vem a tempo, porque há grande inimizade e separação entre samaritanos e judeus. Jesus então propõe a parábola do Samaritano; êste faz um grande benefício a um judeu que caiu ferido no meio da estrada, benefício que os judeus, seus compatrícios, não quiseram fazer. Tira-se da parábola a conclusão de que o inimigo também é nosso próximo. E depois de apresentar a bela ação do Samaritano, Jesus manda o doutor da lei imitá-lo: pois vai e faze tu o mesmo (Lucas X-37).

De tudo isto se conclui o papel importantíssimo que não somente a fé, mas também o AMOR (amor de Deus e amor desinteressado do próximo) exerce na consecução da vida eterna, a verdadeira VIDA: Aquêle que não AMA permanece na MORTE (1.a João III-14).

E como é que diante de ensinamentos tão claros, tão simples, tão decisivos do Divino Mestre, os protestantes pregam que só a fé é necessária, que as nossas obras não influem na salvação?

71. AMOR DE DEUS.

Quando Nosso Senhor exige o amor a Deus, de todo o coração, para se ganhar a vida eterna — e amar a Jesus Cristo é o mesmo que amar a Deus, porque Jesus Cristo é Deus (Se algum não ama a Nosso Senhor Jesus Cristo seja anátema — 1.a Corintios XVI-22) — não se pense que se trata apenas de um mero afeto ou sentimento, ou de uma comoção passageira; o amor de Deus se manifesta pelas obras: Não amemos de palavra, nem de língua, mas por OBRA e em verdade (1.a João III-18).

E de que modo havemos de mostrar pelas obras o nosso amor a Deus? Pela observância dos mandamentos. É o que nos ensina o Divino Mestre: Se me amais, GUARDAI OS MEUS MANDAMENTOS (João XIV-15). Aquêle que tem os meus mandamentos e que os GUARDA, êsse é o que me AMA (João XIV-21). Aquêle que TEM os meus mandamentos, explica Cornélio Alápide, quer dizer: "Aquêle que tem na memória, no espírito e no afeto os preceitos que de mim ouviu" é preciso tê-los assim, e observá-los. E S. Agostinho, naquele seu belo e inconfundível estilo, assim desenvolve o pensamento do Mestre: "Aquêle que tem os meus mandamentos na memória e os guarda na vida; aquêle que os tem nas palavras e os guarda nas obras; aquêle que os tem ouvindo e os guarda fazendo; que os tem fazendo e os guarda perseverando, êsse é o que me ama".

Outra não podia ser a doutrina dos Apóstolos: esse é o amor de Deus, que guardemos os seus mandamentos (1.a João V-3).

É por isto que o amor de Deus é chamado o máximo e o primeiro mandamento: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração e de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o máximo e o primeiro mandamento (Mateus XXII-37 e 38). Porque para bem observá-lo é preciso observar todos os outros. Se algum disser, pois: Eu amo a Deus, e aborrecer a seu irmão, é um mentiroso, porque aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, como pode amar a Deus, a quem não vê? E nós temos de Deus este mandamento: que o que ama a Deus ame também a seu irmão (1.a João IV-20 e 21).

72. AMOR DO PRÓXIMO.

O amor ao próximo é, portanto, uma conseqüência necessária do amor de Deus. E Jesus dá ao amor do próximo um novo aspecto.

A lei dizia: Ama ao próximo, como a ti mesmo. A medida do amor ao próximo era o amor que naturalmente cada um tem a si próprio. Jesus, que nos deu o maior exemplo de amor aos homens, amor até aos próprios inimigos, propõe o seu exemplo, como a medida do amor: Eu dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei (João XIII-34). este amor ao próximo, mesmo aos inimigos, de que ele mostrou um modelo no Samaritano da parábola, Jesus pregou-o, e pregou-o como NECESSÁRIO À SALVAÇÃO.

1.O Jesus pregou o amor aos inimigos:

Tendes ouvido que foi dito: Amarás ao teu próximo e aborrecerás a teu inimigo.. Mas eu vos digo: Amai a vossos inimigos, fazei bem aos que vos têm ódio e orai pelos que vos perseguem e caluniam, para serdes filhos de vosso Pai que está nos Céus, o qual faz nascer o seu sol sôbre bons e maus, e vir chuva sôbre justos e injustos (Mateus V-43 a 45).

Por aí já se vê que não se trata de mero conselho; precisamos amar aos inimigos, para sermos filhos de Deus. Mas há outras passagens que nos mostram ainda mais claramente que Jesus

2.O pregou o amor aos inimigos como indispensável à salvação.

Todos nós pecamos e é claro que não podemos salvar-nos, se Deus não perdoa os nossos pecados. Pois bem, eis o que ensinou Jesus: Quando vos puserdes em oração, se tendes alguma cousa contra alguém, perdoai-lha, para que também vosso Pai, que está nos Céus, vos perdoe vossos pecados; porque, se vós não perdoardes, também vosso Pai, que está nos Céus, vos não há de perdoar vossos pecados (Marcos XI-25 e 26). E, depois da parábola do devedor insolvente, na qual o rei se mostra rigoroso e implacável para com o servo que, depois de perdoado, não quis perdoar ao seu companheiro, acrescenta: ASSIM TAMBÉM vos HÁ DE FAZER meu Pai Celestial, SE NÃO PERDOARDES do Íntimo de vossos CORAÇÕES cada um a seu irmão (Mateus XVIII-35).

Ninguém pode alcançar a salvação, se não obtiver o perdão dos pecados. O perdão dos pecados, não o recebe quem não perdoa a seu próximo. Logo, não basta a fé para a salvação; é necessário também o perdão aos inimigos.

E, enquanto os protestantes dizem que o homem pelas suas obras nada pode merecer, mas só pela fé, Nosso Senhor exalta o merecimento daqueles que sabem dispensar e perdoar, e lhes promete grande recompensa: E, se vós amais aos que vos amam, que MERECIMENTO é o que vós tereis? porque os pecadores também amam aos que os amam a êles. E, se fizerdes bem aos que vos fazem bem, que MERECIMENTO é O que vós tereis? porque isto mesmo fazem os pecadores. E, se vós emprestardes àqueles de quem esperais receber, que MERECIMENTO é o que vós tereis? porque também os pecadores emprestam uns aos outros, para que se lhes faça outro tanto. Amai, pois, a vossos inimigos, fazei bem e emprestai sem daí esperardes nada; e tereis MUITO AVULTADA RECOMPENSA (Lucas VI-32 a 35).

73. A CASTIDADE.

Outro ponto em que Jesus, o novo Legislador, exige maior perfeição do que entre os antigos, e não está apenas aconselhando, mas exigindo mortificação e sacrifício, sob pena de condenação eterna, é o sério problema da castidade. É uma interpretação cristã mais rigorosa do 6.O mandamento: Ouvistes que foi dito aos antigos : Não adulterarás. Eu, porém, digo-vos que todo o que olhar para uma mulher cobiçando-a, já no seu coração adulterou com ela. E, se o teu ôlho direito te serve de escândalo, arranca-o e lança-o fora de ti; porque melhor te é que se perca um de teus membros, do que todo o teu corpo seja lançado no inferno (Mateus V-27 a 29).

Ninguém, é claro, vai interpretar isto no sentido material de que havemos de cegar os nossos olhos, para não ficarmos mais sujeitos às tentações da carne; mas Jesus quer mostrar que, como essas amizades pecaminosas tanto prendem e escravizam o coração da criatura, nestas ocasiões é preciso fazer a renúncia, o sacrifício, mesmo que seja este tão doloroso para a alma, como seria cruel para o corpo a extirpação do próprio olho. Porque, como diz S. Paulo: os que são de Cristo crucificaram a sua própria carne com os seus vícios e concupiscências (Galatas V-24).

74. O JUÍZO FINAL

Um dia Jesus Cristo descreveu o juízo final. No juízo final iremos ver quais os que são salvos e quais os que são condenados. Ótima ocasião, portanto, para apreciarmos as CAUSAS da salvação e da condenação de cada um. Ora, se Jesus exigisse para a salvação apenas a fé, a única descrição que Êle poderia fazer do juízo final seria a seguinte: De um lado os que crêem e são salvos. Do outro lado os que não creem e são condenados. Todo o mundo percebe logo que isto seria mais cômodo e mais simples do que a separação dos salvos e dos condenados pelas boas ou más obras. As boas e as más obras são de natureza tão diversa, variam tanto de indivíduo para indivíduo, que seria preciso passar horas e mais horas para descrever, embora resumidamente, o julgamento de todos os homens por este critério. Pois bem, Nosso Senhor não se importa de fazer uma descrição incompleta, contanto que saliente ser o ponto mais importante do julgamento a prática da caridade.

Repare-se bem na palavra PORQUE, empregada por Nosso Senhor. Os justos serão salvos, PORQUE praticaram a caridade. Os réprobos serão condenados PORQUE não a praticaram. O que mostra evidentemente como é errônea a doutrina protestante de que as boas obras não podem ser CAUSA da salvação.

Vejamos a descrição do julgamento final feita pelo Mestre: Quando vier o Filho do Homem na sua majestade, e todos os anjos com Êle, então se assentará sobre o trono da sua majestade; e serão tôdas as gentes congregadas diante dÊle; e separará uns dos outros, como o pastor aparta dos cabritos as ovelhas; e assim porá as ovelhas à direita e os cabritos à esquerda.

Então dirá o rei aos que hão de estar à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai; possuí o reino que vos está preparado desde o princípio do mundo, PORQUE tive fome e destes-me de comer; tive sede e destes-me de beber; era hóspede e recolhestes-me; estava nu e cobristes-me; estava enfêrmo e visitastes-me; estava no cárcere e viestes ver-me.

Então Lhe responderão os justos, dizendo: Senhor, quando é que nós te vimos faminto e te demos de comer, ou sequioso, e te demos de beber? E quando te vimos hóspede e te recolhemos, ou nu e te vestimos? Ou quando te vimos enfêrmo ou no cárcere e te fomos ver?

E respondendo o rei, lhes dirá: Na verdade vos digo que quantas vêzes vós fizestes isto a um dêstes meus irmãos mais pequeninos, a mim é que o fizestes.

Então dirá também aos que hão de estar à esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno que está aparelhado para o diabo e para os seus anjos, PORQUE tive fome e não me destes de comer; tive sêde e não me destes de beber; era hóspede e não me recolhestes; estava nu e não me cobristes; estava enfêrmo e no cárcere e não me visitastes… Quantas vêzes o deixastes de fazer a um dêstes mais pequeninos, a mim o deixastes de fazer (Mateus XXV-31 a 43, 45).

Chamamos outra vez a atenção do leitor para o estilo abreviado da Bíblia. A Bíblia não diz tudo de uma vez; uma passagem completa a outra. Ninguém vai concluir daí que seremos julgados Unicamente por causa das ações caridosas ou das faltas de caridade. A descrição é claramente incompleta, como dissemos, porque Nosso Senhor mesmo nos declara que se nos pedirão contas até de uma palavra inútil: E digo-vos que de TÔDA A PALAVRA OCIOSA que falarem os homens, darão conta dela no dia do juízo; porque pelas tuas palavras serás justificado e pelas tuas palavras serás condenado (Mateus XII-36 e 37). O que Nosso Senhor quer dizer é que o homem será julgado pelas suas boas ou más ações, como Êle disse claramente noutra ocasião: Todos os que se acham nos sepulcros ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que OBRARAM BEM sairão para a ressurreição da vida; mas os que OBRARAM MAL sairão ressuscitados para a condenação (João V-28 e 29). E entre estas boas ou más obras, ocupa um papel muito saliente a questão da caridade para com o próximo.

Afirmativa esta, que não só se demonstra pela descrição do juízo final acima transcrita, senão também pela firmeza com que Nosso Senhor nos ensina que Deus nos tratará no seu julgamento da mesma forma como tratarmos o nosso próximo: será duro ou complacente para conosco, na mesma proporção em que tivermos sido duros ou complacentes para com os nossos semelhantes:

Bem-aventurados os misericordiosos, porque êles alcançarão misericórdia (Mateus V-7). Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados; dai e dar-se-vos-á; no seio vos meterão uma boa medida e bem cheia e bem acalcada e bem acogulada; porque, qual fôr a medida de que vós usardes para os outros, tal será a que se use para vós (Lucas VI-37 e 38). O que concorda com a palavra de S. Tiago: Porque se fará um juízo sem misericórdia àquele que não usou de misericórdia (Tiago II-13).

Logo, devemos CRER que não é a fé somente que salva, mas também a observância dos mandamentos, o amor de Deus e do próximo, pois isto é o que o próprio Jesus, que merece todo nosso crédito, nos ensinou; se, não cremos isto, não nos salvamos, pois o QUE NÃO CRÊ JÁ ESTÁ CONDENADO (João III-18).

COMO DEVEMOS CRER

75. COMO DEVE SER A NOSSA FÉ?

Devemos crer com uma fé viva, uma fé sincera, coerente, uma fé que não encontre contradição na nossa maneira de agir, porque aqui não se trata de armazenar conhecimentos, não se trata de um estudo teórico, de uma mera contemplação intelectual; trata-se de um princípio de vida, de ação, de atividade: crer para ganhar a vida eterna.

Assim o exige a Escritura, como já veremos.

Chegamos agora ao fim da nossa argumentação.

Vimos o que é CRER. Crer é aceitar, como verdadeira, tôda a doutrina de Jesus. Jesus é o Filho de Deus; não se pode duvidar de nenhuma de suas palavras, porque Ele é o Caminho e, a VERDADE e a Vida (João XIV-6).

Vimos claramente Jesus a nos ensinar que para possuir a vida eterna, é preciso guardar os mandamentos, que se resumem no amor de Deus e do próximo.

Agora perguntamos: Aquele que crê em Cristo e sabe, pelas palavras de Cristo, que precisa observar os mandamentos para salvar-se, mas apesar disto não guarda estes mandamentos, pode salvar-se? Quem vai responder a isto é o próprio Cristo:

Por que me chamais: Senhor, Senhor, e não fazeis o que eu vos digo? Todo o que vem a mim e ouve as minhas palavras e AS PÕE POR OBRA, eu vos mostrarei a quem êle é semelhante: é semelhante a um homem que edifica uma casa, o qual cavou profundamente e pôs o fundamento sôbre uma rocha; e quando veio uma enchente dáguas, deu impetuosamente a inundação sôbre aquela casa e não pôde movê-la, porque estava fundada sôbre rocha. Mas o que ouve E NÃO OBRA, é semelhante a um homem que fabrica a sua casa sôbre terra levadiça, na qual bateu com violência a corrente do rio e logo caiu; e foi GRANDE a RUÍNA daquela casa (Lucas VI-46 a 49).

A esta altura da nossa demonstração e com tais palavras do Mestre, cai por terra a teoria protestante da salvação só pela fé; porque é a própria fé nas palavras de Cristo que nos leva a convencer-nos de que a fé sem as obras não é suficiente para a salvação.

Segundo o ensino bíblico, aquêle que tem a fé, mas não age de acôrdo com ela, nega, contradiz a sua crença; anula, portanto, o valor da sua própria fé. Vejamos o que nos diz S. Paulo: Para os impuros e infiéis, nada há limpo; antes se acham contaminadas tanto a sua mente, como a sua consciência. Êles confessam que conhecem a Deus, mas NEGAM-NO com as obras (Tito I-15 e 16). E o mesmo S. Paulo diz a respeito daqueles que não se interessam pelos seus, que êles por êste simples fato, negam a sua fé: Se algum não tem cuidado dos seus, e principalmente dos da sua casa, êsse NEGOU a fé e é pior que um infiel (1.a Timóteo V-8).

Porque, como diz S. Pedro, se não ajuntamos à fé as outras virtudes, ficamos VAZIOS e INFRUTUOSOS, o que, é claro, nos levará à condenação, pois como disse Jesus: Tôda a árvore que não dá BOM FRUTO será cortada e metida no fogo (Mateus VII-19). Ouçamos o Apóstolo: Ajuntai à vossa fé a virtude, e à virtude a ciência, e à ciência a temperança, e à temperança a paciência, e à paciência a piedade, e à piedade o amor de vossos irmãos, e ao amor de vossos irmãos a caridade, porque se estas coisas se acharem e abundarem em vós, elas vos não deixarão VAZIOS nem INFRUTUOSOS no conhecimento de Nosso Senhor Jesus Cristo (2.a Pedro I-5 a 8).

É por isto que a Sagrada Escritura nos diz abertamente que A FÉ SEM AS OBRAS NÃO PODE SALVAR: Que aproveitará, irmãos meus, a um que diz que tem fé, se não tem obras? Acaso podê-lo-á SALVAR a fé? (Tiago II-14). Bem como um corpo sem espírito é morto, assim também A FÉ SEM OBRAS É MORTA (Tiago II-26).

Estes 2 textos de S. Tiago que refutam diretamente, usando as mesmas palavras, a tese da salvação pela fé sem as obras, são o tiro de misericórdia dado na teoria dos protestantes; se estes ainda querem insistir com alguns textos de S. Paulo, é porque não os entenderam bem, como mostraremos nos 3 capítulos seguintes; e isto o leitor já pode bem avaliar, pois não pode haver contradição nas Escrituras.

76. A FÉ É O NOSSO MÉDICO.

A fé salva, a fé é o caminho do Céu, isto nos ensina Jesus. A fé salva sozinha, sem a observância da lei de Deus, isto é doutrina de Lutero.

Somos justificados pela fé, é doutrina da Bíblia: Justificados, pois, pela fé, tenhamos paz com Deus, por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo (Romanos V-1). Mas a mesma Bíblia nos ensina que a fé não nos justifica sozinha, sem as obras: Não vêdes como pelas obras é justificado o homem, e não pela fé somente? (Tiago II-24).

Para usarmos (ampliando-a) uma comparação de Cornélio Alápide: Assim como o doente que se achava em estado grave e foi curado pode dizer: — Este médico me salvou — e, no entanto não foi o médico sozinho, foi o médico por meio dos remédios, das injeções, da dieta, dos exercícios que êle prescreveu e a que o doente voluntariamente se sujeitou, assim também a fé em Cristo é o médico a nos apontar as outras virtudes, as obras, os sacramentos que nos são necessários à salvação, a qual não é possível sem as praticarmos ou sem os receber-mos em obediência aos ditames da nossa fé. O fato de dizer o doente:

— Este médico me salvou — não o impede de dizer também: Santo remédio este! foi êle quem me pôs em pé! Assim como não o impede de aconselhar a outro doente que não quer observar a dieta: Não faça isto, meu caro; se eu não tivesse cumprido bem com a dieta, feito a mortificação quando estava com vontade de comer tais e tais alimentos que sabia que não podia comer, hoje eu já estaria na "cidade dos pés juntos".

Do fato, portanto, de dizer a Escritura que a fé nos salva, não se segue necessariamente que a fé seja A CAUSA ÚNICA da salvação. Isto se mostra claramente no episódio da mulher pecadora. Sabe-se muito bem que ela não podia salvar-se, se os seus pecados, que eram muitos, não lhe fossem perdoados. Se perguntarmos ao Divino Mestre POR QUE foram perdoados os pecados daquela mulher, Ele nos esclarecerá: Perdoados lhe são seus muitos pecados, PORQUE AMOU MUITO (Lucas VII-47). A sua contrição perfeita, baseada no puro AMOR, foi aí apontada como a CAUSA da salvação. E no entanto, nesta mesmíssima ocasião, Jesus lhe disse: A tua FÉ te salvou; vai-te em paz (Lucas VII-50). Tanto a fé, como o amor, são considerados aí como causas da salvação para a pecadora arrependida: a fé, porque foi o PONTO DE PARTIDA de sua felicidade; o amor, porque CONSUMOU esta mesma felicidade. É por isto que nos diz muito bem o Concílio de Trento: "somos justificados pela fé neste sentido de que a fé, sem a qual é impossível agradar a Deus, é o princípio da salvação, o fundamento e a raiz de toda a justificação" (Sessão VI, 8).

77. A FÉ COMO PONTO DE PARTIDA.

Quando dizemos a alguém: Tome este navio e chegará a Londres, porque a nado Você não consegue chegar até lá, não queremos dizer com isto que é EXCLUSIVAMENTE o fato de embarcar no vapor, que o faz chegar a Londres. Supomos, é claro, que êle não vai atirar-se ao mar, durante a viagem, movido pela tentação de tomar um banho salgado ou de apanhar algum peixe; supomos que, nos portos onde se demorar o navio, êle, quando quiser dar algum passeio, vai tomar tôdas as precauções para estar presente na hora da partida, bem como não vai cometer nenhum crime para ficar em terra, trancafiado no xadrez; supomos que êle não vai tomar veneno durante a viagem etc, etc. Supomos em suma que êle QUER realmente chegar a Londres e tudo fará para conseguir êste objetivo. Sem valer-se de uma condução como aquela, é que não o conseguiria de forma alguma.

Assim também a Bíblia nos fala da FÉ como de um ponto de partida para a salvação. Quando S. Paulo diz ao carcereiro: Crê no Senhor Jesus e serás salvo tu E A TUA FAMÍLIA (Atos XVI-31), ninguém vai concluir daí que bastava o carcereiro crer, para a família dêle ser salva também. É claro que a família tem que crer por sua vez, para ser salva. Mas a fé, por parte do carcereiro, seria o PONTO DE PARTIDA para a sua família também crer, induzida pelo seu exemplo. E a fé, tanto no carcereiro como nos seus, teria que ser a inspiradora das virtudes e boas obras.

Quando S. Paulo diz: Se confessares com a tua bôca ao Senhor Jesus e creres no teu coração que Deus O ressuscitou dentre os mortos, serás salvo (Romanos X-9), ninguém pode concluir daí que para o indivíduo ganhar o Céu, basta confessar a Jesus DE BÔCA, podendo fazer o que bem entender; e acreditar exclusivamente na Ressurreição de Jesus Cristo, podendo, portanto, rejeitar todos os outros artigos de fé. Seria uma conclusão absurda, imoral e escandalosa, bem como seria abrir uma fonte para os maiores erros e heresias. S. Paulo aí está apresentando a FÉ e o professá-la abertamente como PONTO DE PARTIDA para a salvação. E vê-se perfeitamente, não é fé no sentido de confiança, convicção de que já se está salvo. É fé intelectual: é ACREDITAR que Jesus ressuscitou dentre os mortos. Acreditando isto, acreditará que Jesus Cristo é Deus. Aceitando isto, terá que aceitar tudo o que Jesus ensinou, portanto terá que aceitar toda a moral do Evangelho, tudo aquilo que Jesus mandou fazer e observar. E cumprindo tudo isto, com as graças abundantes que receberá na Igreja Verdadeira, conquistará o Céu.

UM CAMINHO SÓ

78. DESFAZENDO A CONFUSÃO.

Pelo que já foi explicado, o leitor inteligente está percebendo perfeitamente o engano dos protestantes.

Quando vemos a Bíblia falar de 2 maneiras:

ora dizendo que, se nos queremos salvar, o que é necessário é crer em Cristo; crendo em Cristo alcançaremos a salvação;

ora dizendo que, se nos queremos salvar, o que é preciso é observar os mandamentos; guardando os mandamentos, chegaremos ao Céu;

parece à primeira vista que a Bíblia nos está falando de dois caminhos diversos.

Os protestantes que não gostam de aprofundar o sentido das Escrituras, contentando-se apenas com o JÔGO DE PALAVRAS, na preocupação máxima de se colocarem em oposição à Igreja, enxergam aí 2 caminhos diversos e se decidem por um, rejeitando o outro. Já viu o leitor algum protestante citar, explicar e comentar razoavelmente os textos em que Jesus exige para a salvação a guarda dos mandamentos?

O simples fato de ficarem assim apavorados diante de certos textos da Bíblia, que é a palavra infalível de Deus, mostra que estão completamente enganados. E o seu engano reside precisamente em não perceber isto: que ou exija só a fé em Cristo, ou exija só a guarda dos divinos preceitos, a Bíblia nos está ensinando UM CAMINHO só, porque nos mandamentos está incluída a obrigação da fé; na fé em Cristo está incluída a obrigação dos mandamentos.

1.o Nos mandamentos está incluída a obrigação da fé.

Se devemos amar a Deus com todo o coração, com tôda a alma, com todo o ENTENDIMENTO, não podemos negar crédito às palavras de Cristo que são palavras de Deus; seria negar a Deus a submissão da nossa inteligência. Quem peca contra a fé, portanto, peca contra o 1.o mandamento, pois quem duvida da palavra de Deus O está desonrando e considerando mentiroso; não se pode amar a uma pessoa e desonrá-la ao mesmo tempo. É o que dizia Jesus aos judeus: Se eu vos digo a verdade, por que me não credes? O que é de Deus ouve as palavras de Deus; por isso vós não nas ouvis, porque não sois de Deus (João VIII-46 e 47). Por isto dizia o Eclesiastes: Teme a Deus e observa os seus mandamentos, porque isto é O TUDO do homem (Eclesiastes XII-13).

2.o A fé inclui a obrigação dos mandamentos.

Em outras ocasiões, falando a pessoas que já estão certas e convencidas de que para ganhar o Céu precisamos cumprir com os mandamentos de Deus, Nosso Senhor lhes faz ver que o caminho do Céu é crer na sua doutrina. Aprendendo esta doutrina, estas pessoas verão, no meio das coisas novas que não sabiam, a confirmação daquilo de que já tinham ciência, isto é, de que para ganhar o Céu é indispensável a observância dos mandamentos. O amor de Deus e o amor do próximo, eis os pontos altos da doutrina moral pregada pelo Mestre, que nisto tantas vezes insistiu, como acabamos de ver. Aquele que não quer guardar os mandamentos é como se não cresse em Jesus Cristo, pois nem ao menos O conhece. É o que nos ensina S. João que, falando a respeito de Jesus, nos diz o seguinte: Ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo. E nisto sabemos que O CONHECEMOS, se GUARDAMOS os seus MANDAMENTOS.

Aquêle que diz que O CONHECE e NÃO GUARDA OS SEUS MANDAMENTOS, é um mentiroso; e não há nêle verdade (1.a João II-2 a 4).

Logo, a fé em Cristo inclui a obrigação de observar os seus mandamentos.

A Bíblia, portanto, pode falar num dos 2 pontos e apresentá-lo como essencial à salvação — crer em Cristo ou observar os mandamentos — porque um inclui o outro. O que não impede a própria Bíblia de falar nos 2 pontos ao mesmo tempo: um confirmando o outro, quando assim entender o Autor Sagrado. S. João, na sua 1.a Epístola, falando a respeito de Deus, diz: Êste é o seu mandamento: que CREAMOS no nome de seu Filho Jesus Cristo e que NOS AMEMOS UNS AOS OUTROS, como Êle nos mandou (1.a João III-23). E o livro do Apocalipse diz: Aqui está a paciência dos santos que guardam os MANDAMENTOS de Deus e a FÉ de Jesus (Apocalipse XIV-12).

O ESTILO DA BÍBLIA E O TEOR DAS DIVINAS PROMESSAS

79. NAS PEGADAS DO BOM PASTOR.

Jesus é o Bom Pastor que guia as suas ovelhas pelo caminho do Céu: Eu sou o Bom Pastor (João X-11). O que me segue não anda em trevas, mas terá o lume da vida (João VIII-12).

Se nós desejamos chegar ao Reino dos Céus, à Jerusalém Celeste pedimos a Jesus que nos leve até lá, Ele nos diz: Entra no meu rebanho e terás o Céu.

Entrando no rebanho de Cristo, ficamos muito anchos e satisfeitos: Tenho certeza de que em breve estarei no Céu; o Bom Pastor me disse: Entra no meu rebanho e terás o Céu. Ora, eu entrei no rebanho. Logo…

É quando uma ovelha mais esclarecida nos adverte:

— Não, meu amigo; o Bom Pastor não te disse: Basta entrar no meu rebanho para conseguires o Céu; mas disse: Entra no meu rebanho e terás o Céu, o que é bem diferente. Entra no meu rebanho — quer dizer: Vem e segue-me, sê minha ovelha fiel; entrega-te à minha direção. E o Bom Pastor então nos vai apontando o verdadeiro caminho da bem-aventurança, mostrando-nos o caminho que Êle próprio seguiu à nossa frente, quando nos deu o seu exemplo: Eu dei-vos o exemplo, para que como eu vos fiz, assim façais vós também (João XIII-15). Precisas seguir o caminho que Êle te aponta para chegares ao Céu; se te desviares, és uma ovelha desgarrada que o Bom Pastor misericordiosamente irá buscar, mas precisarás então voltar ao caminho indicado, sem isto não alcançarás o teu destino. Porventura achas que, quando um professor diz: Quem entrar na minha escola, se tornará um homem bem preparado — é o simples fato de entrar na escola que torna logo um sábio aquele que ali entrou? É preciso entrar na escola, mas para fazer bem direitinho as tarefas e exercícios que o mestre indicar.

Compreendeu Você agora, caro amigo protestante?

Quando Jesus nos diz: Crê em mim e serás salvo (porque Êle nunca disse: Basta crer em mim para ser salvo) é o Bom Pastor que nos está dizendo: Entra no meu rebanho e terás o Céu. Crer em Jesus é aceitar toda a sua doutrina, colocar-nos no número dos seus discípulos, entrar no seu rebanho. Por isto disse Jesus aos judeus: Vós não credes, porque não sois das minhas ovelhas (João X-26). Mas entrar no rebanho de Cristo já encerra em si um compromisso: o de O seguirmos como ao Bom Pastor que nos aponta o caminho. E quando Ele diz: Guarda os mandamentos, ama a teu próximo como eu te amei — está apontando este caminho que havemos de seguir para conquistar o Céu: As minhas ovelhas ouvem a minha voz: eu conheço-as e elas ME SEGUEM (João X-27).

80. AS PROMESSAS E SUAS CONDIÇÕES.

Há, sem dúvida alguma, nestas palavras: Crê no Senhor Jesus e serás salvo (Atos XVI-31), quem nele crê não é condenado (João III-18), o que crê no Filho tem a vida eterna (João III-36), Deus deu ao mundo seu Filho Unigênito para que todo o que crê nEle não pereça, mas tenha a vida eterna (João III-16), a virtude de Deus é para dar a salvação a todo o que crê (Romanos 1-16) etc, etc. — uma PROMESSA DE VIDA ETERNA para todos aqueles que creem em Jesus.

O que, porém, se torna indispensável é que aqueles que creem em Jesus se esforcem para se tornarem DIGNOS destas divinas promessas. E a Igreja sabiamente põe os seus filhos a rezar da seguinte maneira: — "Rogai por nós, Santa Mãe de Deus, para que sejamos DIGNOS das promessas de Cristo". Porque uma coisa que não podem negar àqueles que conhecem perfeitamente o ESTILO DA BÍBLIA é o seguinte: a Bíblia não nos diz tudo de uma vez, é muito comum no texto sagrado estar nuns versículos consignada A PROMESSA, e noutros AS CONDIÇÕES SOB AS QUAIS ESTA PROMESSA SERÁ REALIZADA. Não se pode desprezar nenhum versículo bíblico; tudo ali é palavra de Deus; e querer alguém olhar somente para os versículos que falam da promessa, porque os acha muitos bons, muito agradáveis e consoladores e desprezar outras passagens da Escritura, em que se apontam as condições impostas por Deus para que sejamos dignos desta promessa, é evidentemente falsear a palavra divina.

É fácil mostrar isto com exemplos.

81. A INVOCAÇÃO DO NOME DO SENHOR.

Vejamos êste texto: Todo aquêle, quem quer que fôr, o que INVOCAR O nome do Senhor, será salvo (Romanos X-13; Joel 11-32).

Sôfregamente se lançam os protestantes sôbre êste versículo e o apresentam, muito anchos, vendo aí a destruição do Catolicismo: para o homem salvar-se não precisa pertencer à Igreja Católica, não é necessária a observância dos mandamentos, não é necessário o Batismo, nem a Confissão, nem a Eucaristia, basta invocar o nome do Senhor!

Mas o argumento que prova demais, não prova coisa alguma e diante dêste texto assim tão mal interpretado, vê o protestante desmoronar-se também todo o seu Protestantismo:

- A Bíblia! para que me dão Vocês a Bíblia?

- Para conhecer a palavra de Deus; para conhecer a doutrina de Jesus.

- Que necessidade tenho eu de conhecer a palavra de Deus, de acreditar ou deixar de acreditar naquilo que ensinou Jesus, se para salvar-me basta só uma coisa: invocar o seu nome! Para invocar o seu nome, basta saber que Êle existe e como se chama; não é preciso saber qual foi, nem qual deixou de ser a sua doutrina.

Assim poderá falar qualquer pagão convidado a abraçar o Cristianismo ou qualquer indiferente em matéria religiosa que fôr exortado à prática da religião.

E o crápula, o devasso, o libertino, o salteador, o homem que vive praticando as maiores misérias poderá dizer: Pratico muitos crimes, não nego; porém, por mais crimes que cometa, irei com tôda certeza para o Céu, pois para isto não se precisa nem arrependimento, basta invocar o nome do Senhor; isto é o que tenho cuidado de fazer de vez em quando, porque não sou idiota…

Por aí se vê a que absurdos se poderá chegar com êste sistema desonesto de isolar um texto qualquer e apresentá-lo criminosamente ao público que nada entende de interpretação da Bíblia, tendo o cuidado de desprezar ou ocultar outros textos do Livro Sagrado.

Não há dúvida que estas palavras encerram uma PROMESSA. A questão está agora em saber pela própria Bíblia, EM QUE CONDIÇÕES O HOMEM PODE TORNAR-SE DIGNO DA REALIZAÇÃO DESTA PROMESSA. Porque a própria Bíblia em outro texto se encarrega de nos dizer que NÃO BASTA INVOCAR O NOME DO SENHOR PARA SER SALVO; bem como nos esclarece quais as condições sob as quais o homem, invocando o nome do Senhor, pode alcançar a salvação: Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos Céus, mas sim o que faz a vontade de meu Pai que está nos Céus, êsse entrará no reino dos Céus (Mateus VII-21).

Há contradição entre um texto e outro? Não. Apenas êste último está indicando com que sentimentos, com que disposições de ânimo precisa o homem de invocar o nome do Senhor para salvar-se.

É preciso que o faça com o coração sincero do servo que quer ser fiel ao seu senhor, do filho que não quer de modo algum desagradar a seu pai. E uma vez que Deus exige a observância dos mandamentos, (n.º 274 a 279), sintetizados no amor de Deus e do próximo; uma vez que Deus lhe exige a fé em tôda a doutrina de Jesus; uma vez que Deus exige a confissão, como veremos (capítulo 12.º), pois instituiu o Sacramento da Penitência para aquêles que pecam depois do Batismo; uma vez que Deus lhe ordena a recepção da Eucaristia (João VI-54), é preciso que êle esteja disposto a aceitar e praticar tudo isto para alcançar a salvação, pois esta não se pode conseguir contrariando a vontade de Deus.

Se se trata de um pagão que, sem culpa. sua, não tem conhecimento de todos êstes preceitos de Deus revelados ao homem, é preciso que esteja disposto a realizar EM SI A VONTADE DIVINA, tal qual esta vontade se lhe apresenta diante da sua reta consciência, é preciso que esteja disposto a abraçar a Verdade e o Bem, onde quer que êles se encontrem.

Como se observa pelo contexto, S. Paulo, citando esta profecia de Joel, tinha apenas por fim salientar que qualquer homem, judeu ou gentio (e assim se destrói a idéia que tinham muitos judeus de que só para êles havia salvação) pode alcançar o Reino dos Céus, desde que invoque a Deus sinceramente, disposto a cumprir em si a divina vontade: Não há distinção de JUDEU e de GREGO, pôsto que um mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que O invocam. Porque todo aquêle, quem quer que fôr o que invocar o nome do Senhor, será salvo (Romanos X-12 e 13).

82. A EFICÁCIA DA ORAÇÃO.

Vejamos agora outro exemplo.

Nosso Senhor disse: Pedi e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei e abrir-se-vos-á; porque todo aquêle que pede recebe, e o que busca acha, e ao que bate se lhe abrirá (Lucas XI-9 e 10).

São palavras bem claras, enunciando a PROMESSA que faz Deus de atender a tôdas as nossas orações.

Ora, a experiência de cada dia nos mostra evidentemente que há muitas coisas que se pedem a Deus e não se alcançam. Quando adoece o pai ou a mãe, ou qualquer outro membro de uma família, nada mais natural do que a família inteira pôr-se em oração e pedir a Deus que cure aquela pessoa, e que livre a todos daquele golpe. É o que freqüentemente acontece. E no entanto muitas e muitas vêzes esta prece não é atendida. Quantos pedidos sobem aos Céus (uma moça quer casar-se, um homem quer conseguir um melhor emprêgo, outro quer meios para fazer uma viagem, o encarcerado quer livrar-se da prisão etc, etc.) e não são satisfeitos!

Que significa isto? Que Deus falta com a sua promessa? Não; a palavra de Deus é infalível. Quer dizer que num texto vem a PROMESSA; noutros vêm explicadas AS CONDIÇÕES sob as quais ESTA PROMESSA SE REALIZA.

Está visto que uma destas condições é que aquilo que nós pedimos seja realmente bom e conveniente para nós. Se um pai diz a seus filhinhos: darei tudo quanto Vocês pedirem — aí logo se subentende que dará só o que fôr bom e útil para êles. Um quer uma peixeira bem amolada para brincar de vendelhão com seus irmãozinhos; o outro quer uma motocicleta para sumir-se no meio das ruas movimentadas com risco da sua própria vida; a outra quer a liberdade de passear com certas companheirazinhas que não se recomendam. Que faz o pai extremoso? Nega-lhes inapelàvelmente o que lhe pedem, embora esperneiem e se zanguem, porque quer somente o bem de seus filhos e reserva alguma coisa melhor, de outro gênero, para coroar de qualquer maneira, o seu pedido. Somos diante de Deus como crianças inexperientes: não sabemos o que havemos de pedir, como convém (Romanos VIII-26); é o que nos diz S. Paulo. A família tôda se reúne para rezar pela saúde do pai ou da mãe ou de qualquer outro membro que se acha enfêrmo; mas se, por exemplo, aquêle é o momento propício para a salvação daquela criatura que se acha contrita e, se ficar boa, pode, quem sabe perder-se mais tarde; não é o caso de Deus negar o pedido, porque a salvação daquela alma está acima de tudo? O emprêgo melhor remunerado ou o casamento, a viagem ou o livramento do cárcere podem ser contrários aos desígnios altíssimos de Deus, segundo os quais a salvação se poderá tornar muito mais fácil na pobreza, na renúncia e na penitência. E assim por diante.

Por isto Jesus mesmo se encarrega de esclarecer que a promessa da eficácia da oração subentende que Deus dará coisas boas, não coisas que nos são nocivas ou que não nos aproveitam. Se vós outros, sendo maus, sabeis dar BOAS DÁDIVAS a vossos filhos, quanto mais vosso Pai que está nos Céus, dará BENS aos que lhos pedirem! (Mateus VII-11). S. Paulo nos diz que pediu a Deus que o livrasse de certas angústias e aflições no seu corpo, mas Deus não o atendeu, porque queria elevá-lo a uma maior perfeição da virtude: Permitiu Deus que eu sentisse na minha carne um estímulo que é o anjo de Satanás para me esbofetear. Por cuja causa roguei ao Senhor três vêzes que êle se apartasse de mim. E então me disse: Basta-te a minha graça; porque a virtude se aperfeiçoa na enfermidade (2.o Coríntios XII-7 a 9). E S. Jerônimo diz sôbre êste fato: "Bom é o Senhor que muitas vêzes não nos concede o que queremos, para nos conceder o que preferiríamos".

Outra das condições é que a oração seja feita com fé e confiança: Tôdas as cousas que pedirdes, FAZENDO ORAÇÃO com FÉ, haveis de conseguir (Mateus XXI-22). Tôdas as cousas que vós pedirdes orando, CREDE que as haveis de haver e que assim vos sucederão (Marcos XI-24). Cheguemo-nos, pois, CONFIADAMENTE ao trono da graça, afim de alcançar misericórdia e de achar graça para sermos socorridos em tempo oportuno (Hebreus IV-16). Se algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus que a todos dá liberalmente e não impropera, e ser-lhe-á dada. MAS PEÇA-A COM FÉ, SEM HESITAÇÃO ALGUMA; porque aquêle que duvida é semelhante à onda do mar que é agitada e levada duma parte para a outra pela violência do vento; NÃO CUIDE, pois, êste tal, QUE ALCANÇARÁ DO SENHOR ALGUMA COUSA (Tiago I-5 a 7).

A oração deve ser humilde, como mostra Nosso Senhor com a parábola do fariseu e do publicano (Lucas XVIII-9 a 14), a qual termina assim: Todo o que se exalta, será humilhado e todo o que se humilha será exaltado (Lucas XVIII-14). Humilhai-vos na presença do Senhor e Êle vos exaltará (Tiago IV-10). Humilhai-vos, pois, debaixo da poderosa mão de Deus, para que Êle vos exalte no tempo da sua visita, remetendo para Êle tôdas as vossas inquietações, porque Êle tem cuidado de vós (1.a Pedro V-6 e 7). Deus resiste aos soberbos e dá a sua graça aos humildes (Tiago IV-6; 1.a Pedro V-5).

Finalmente a oração precisa ser também perseverante, como mostra Jesus com a parábola do homem, a quem um amigo, à meia-noite, vem pedir três pães emprestados: E se o outro perseverar em bater; digo-vos que no caso que êle se não levantar a dar-lhos por ser seu amigo, certamente pela sua importunação se levantará e lhe dará quantos pães houver mister (Lucas XI-8). Como também, com a parábola do juiz iníquo e da viúva suplicante, a quem o juiz atende somente pela importunação desta: por último disse lá consigo: Ainda que eu não temo a Deus nem respeito os homens, todavia, como esta viúva me importuna, far-lhe-ei justiça, para que por fim não suceda que, vindo ela muitas vêzes me carregue de afrontas. Então disse o Senhor: Ouvi o que diz êste juiz iníquo. E Deus não fará justiça aos seus escolhidos que estão clamando a Êle de dia e de noite? (Lucas XVIII-4 a 7).

Por tudo isto se vê que há um versículo que nos assegura a eficácia da oração: é a PROMESSA. Mas é preciso folhear várias partes do Novo Testamento para ver EM QUE CONDIÇÕES ESTA PROMESSA SE REALIZA.

83. A EUCARISTIA E A VIDA ETERNA.

Vamos a um terceiro exemplo: Cristo prometeu a vida eterna àqueles que participassem da sagrada Eucaristia: O que come a minha carne e bebe o meu sangue TEM A VIDA ETERNA; E EU O RESSUSCITAREI NO ÚLTIMO DIA (João VI-55). O que come dêste pão VIVERÁ ETERNAMENTE (João VI-59).

Eis aí A PROMESSA. Pode parecer à primeira vista, que para entrar na vida eterna, não se precisa de outra coisa a não ser participar uma só vez da mesa eucarística.

Mas S. Paulo já se encarrega de nos ensinar uma das condições exigidas para isto; condição, na qual Cristo não havia falado (porque a Bíblia não nos ensina tudo de uma vez). É preciso que seja recebida a Eucaristia com a consciência limpa, purificada dos pecados: Examine-se, pois, a si mesmo o homem e assim coma dêste pão e beba dêste cálice, porque todo aquêle que o come e bebe indignamente, come e bebe para si a condenação, não discernindo o corpo do Senhor (1.ª Coríntios XI-28 e 29).

Mas será que pelo simples fato de ter recebido uma vez condignamente o corpo do Senhor, fica o homem com a salvação assegurada para sempre? Não há dúvida que a comunhão lhe traz uma íntima união com Cristo: O que come a minha carne e bebe o meu sangue, êsse FICA EM MIM E EU NÊLE (João VI-57). Da sua parte, Cristo entra com a sua graça, com a sua presença inefável na alma, robustecendo-a, dando-lhe o auxílio necessário para que se vença a si mesma nas tentações e alcance a vida eterna. Mas o homem é livre e não se tornou impecável com a comunhão, tem que corresponder às graças divinas e fazer da sua parte o esfôrço para permanecer com Cristo em sua alma, e é a isto que Cristo o exorta: O QUE PERMANECE EM MIM E O EM QUE EU PERMANEÇO, êsse dá muito fruto; porque vós sem mim não podeis fazer nada. Se alguém NÃO PERMANECER EM MIM será lançado fora como a vara, e secará e enfeixá-lo-ão e lançá-lo-ão no fogo e ali arderá (João XV-5 e 6).

Eis aí, portanto, mais outra condição para que a comunhão nos garanta a vida eterna: é preciso permanecer em Cristo pela fuga ao pecado, e isto fica a depender de nós, pois Cristo já nos dá, pela comunhão, um valioso aumento de graça para mantermos a nossa fidelidade. A obrigação de permanecer com Ele supõe, pelo menos, que tenhamos sempre o cuidado de com Ele nos reconciliarmos e de O recebermos novamente, se tivermos a desgraça de afastá-Lo pelo pecado mortal.

84. GRANDE CONDIÇÃO PARA UMA GRANDE PROMESSA.

Está mais do que provado, por conseguinte, qual é o sistema de doutrinação da Bíblia: em uns versículos estão AS GRANDES PROMESSAS, em outros vem explicado O QUE HAVEMOS DE FAZER PARA Vê-LAS REALIZADAS.

Pois bem, o mesmo acontece COM A PROMESSA DE VIDA ETERNA PARA TODO O QUE CRÊ; sim, para todo o que crê, pois aquêle que se recusa a crer já está excluído: sem fé é impossível agradar a Deus (Hebreus XI-6); e até mesmo os que de forma alguma não conhecem a Cristo, têm que crer em alguma coisa, têm que crer ao menos que há Deus e que é remunerador dos que O buscam (Hebreus XI-6).

Lemos em vários versículos A GRANDE PROMESSA DE VIDA ETERNA PARA OS QUE CRÊEM em Jesus Cristo. Esta mesma fé em Cristo é que nos leva a ver no próprio ensino do Novo Testamento EM QUE CONDIÇÕES TAL PROMESSA SURTIRÁ O SEU EFEITO. As condições são várias, estão esparsas aqui e acolá no ensino bíblico, mas podem ser tôdas resumidas numa só, numa GRANDE CONDIÇÃO, expressa neste texto há pouco citado: Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos Céus; mas sim o que faz a vontade de meu Pai que está nos Céus (Mateus VII-21).

Caro amigo protestante, não se fie nesta doutrina: Jesus, Jesus, Jesus, Jesus é meu Salvador; logo, eu estou salvo — isto não passava de uma malandragem de Lutero que queria ter por fina fôrça a convicção de que realmente estava salvo, mas sem o trabalho de vencer as tentações que o atormentavam; foi êle quem inventou e propagou no mundo êste sistema de se olhar na Bíblia, só para o prêmio que Deus promete e não para aquilo que se nos impõe como obrigatório afim de alcançar o que foi prometido por Deus.

Ninguém pode alcançar O Céu SEM REALIZAR A VONTADE DIVINA. E para todos os homens: ou seja para os gentios antes de Cristo e os pagãos de hoje que de Cristo não tiveram conhecimento, os quais entretanto tinham e têm os mandamentos de Deus (não matarás, não furtarás, não adulterarás, não levantarás falso testemunho, não desejarás a mulher do próximo etc.) impressos no seu coração pela voz da consciência, pela lei natural; ou seja para os judeus antes de Cristo, aos quais tinha Deus impôsto o Decálogo, além de muitas cerimônias e prescrições; ou seja para os seguidores de Cristo, que não estão obrigados absolutamente às cerimônias e prescrições da lei mosaica, mas estão sujeitos à lei de Cristo que confirmou, refundiu, e aperfeiçoou os preceitos do Decálogo, dando além disto várias determinações sôbre a Igreja que Êle fundou e sôbre os sacramentos que Êle instituiu, determinações estas que, sendo mandamentos de Cristo, o são também de Deus; para todos, enfim, a vontade do Pai Celeste está expressa nos seus mandamentos. Observe-os; realize a vontade divina. Faça isto e Você VIVERÁ, como disse o Divino Mestre, porque só assim Você se tornará digno das promessas de Cristo.

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