Sao João

João – como ele mesmo afirma – era “o discípulo que Jesus amava”de modo especial, sem dúvida por causa da missão extraordinária que lhe iria confiar, qual seja a de substituí-lo no amparo à Virgem Santíssima.

O apóstolo predileto era discípulo de João Batista, quando este, vendo Jesus, disse inspirado: “Eis o Cordeiro de Deus!” o evangelista, junto com André, irmão de Pedro, seguiu imediatamente o Salvador.

Pouco depois, já formado o Colégio apostólico, João e seu irmão Tiago, juntamente com Pedro, foram os três mais achegados ao Mestre, e presenciaram a transfiguração no Tabor, a agonia mortal no Getsêmani e outros fatos de maior importância. Na última Ceia, João reclinou a cabeça no peito de Jesus, como que haurindo então as idéias centrais de suas Epístolas e Evangelho: a divindade de Cristo, as maravilhas da graça e a caridade fraterna.

Quando os demais apóstolos abandonaram o Mestre no início da grande jornada do sofrimento, João o acompanhou até o Calvário junto com a Virgem. E ele foi como o testamento sublime que Cristo lhe confiou quando disse: “Eis a tua Mãe!” (Jo 19,27).

Ao anúncio da ressurreição, João correu com Pedro até o sepulcro. Depois, às margens do Lago de Tiberíades, reconheceu a Jesus ressuscitado.

Pelo menos até o Concílio apostólico de Jerusalém, João aí permaneceu. Juntamente com Pedro e Tiago, era considerado “coluna” da Igreja (Gl 2,9).

Antiga tradição refere que ele evangelizou a Ásia Menor, onde governou a Igreja de Éfeso, provavelmente logo depois de ter abandonado Jerusalém durante a perseguição que vitimou o apóstolo Tiago (At 12, 1-3). De fato, quando Paulo, por volta do ano 52, esteve na Cidade Santa, já não encontrou nem Pedro nem João.

Tertuliano, pelos fins do século II, nos diz que o apóstolo da caridade foi levado a Roma, onde o imperador Domiciano o fez lançar numa caldeira de óleo fervente, da qual saiu ileso, sendo em seguida exilado para Patmos, pequena ilha de uns 40 Km2 no mar Egeu, onde escreveu o apocalipse.

Sob o império de Nerva, que terminou após a morte de Domiciano, de 96 a 98, João regressou a Éfeso, onde escreveu as três Epístolas e o Evangelho. Aí mesmo faleceu quase centenário, entre os anos 98 e 100, encerrando-se então a Revelação Bíblica e a Era apostólica. Uma Igreja construída nas montanhas perto de Éfeso, guarda os sagrados despojos do apóstolo.

O quarto Evangelho supõe os sinóticos já bem conhecidos. O cristianismo estava muito espalhado e começavam a surgir algumas heresias. Contra a dos gnósticos4 é que João transcreve os discursos e provas com que o Messias atestava a própria divindade. No dizer de são Jerônimo, “João provou, com os fatos, que Jesus Cristo é verdadeiramente Deus”.

Realmente, o quarto Evangelho tem em mira completar a narração dos sinóticos, salientando as provas da divindade do Verbo que se fez carne e que é a luz do mundo, luz que o mundo não quis receber. Daí os freqüentes debates entre Jesus e os fariseus, que o rejeitam.

Mas então, por que os sinóticos quase nada relatam desses discursos de Cristo na Judéia, e de suas discussões com os judeus?

Por uma razão muito simples: porque não se relacionam diretamente com o espaço pelo qual os sinóticos escreviam, e porque estes narram quase exclusivamente o ministério na Galiléia. Note-se ainda que foi muito breve o ministério em Jerusalém e na Judéia, onde se deram tias discursos e debates, quase sempre diante dos rabinos, que eram bons conhecedores da Sagrada Escritura. Comparem-se com o estilo da pregação ao povo bem mais simples da Galiléia.

Tudo João conservava vivo na memória e repetia sem cessar em suas alocuções aos fiéis da Ásia Menor.

Pela sua sublimidade especial, João mereceu dos Padres gregos o título de “Teólogo”, e o seu principal escrito era chamado o “Evangelho espiritual”.

Apesar da diferença considerável entre os sinóticos e o quarto Evangelho, a figura de Cristo mostra-se perfeitamente igual nos quatro: humano, misericordioso e ao mesmo tempo firme e claro em suas afirmações e atitudes.

Um exame até superficial do texto demonstra claramente que “o discípulo que Jesus amava” é mesmo João, que com Pedro e Tiago formavam o trio mais próximo do Redentor, no grupo dos doze.

Recentes descobertas comprovam a historicidade do quarto Evangelho e a exatidão das particularidades aí referidas: o poço de Jacó em Sicar (4,5), os cinco pórticos da piscina de Betésda (5,2), e o estrado lageado Litóstrotos ou Gábata (19,13). O autor insiste em afirmar que presenciou o que descreve (1,14; 19,35): esses e vários outros pormenores sobre lugares e costumes da Palestina o demonstram.

Diversas passagens desse livro santo já se encontram nos Padres apostólicos em inícios do segundo século.

A seguir, Polícrates, Irineu, Teófilo de Antioquia e o famoso fragmento ou Cânon muratoriano são alguns nomes que fazem referência expressa ao mesmo Evangelho de João.

Papias, por exemplo, entre os anos 110 e 130, lembra que desde a mocidade procurava interrogar os discípulos diretos dos apóstolos sobre o que estes haviam ensinado. E escreveu no seu livro Escalercimentos: “O Evangelho de João foi publicado e comunicado às Igrejas pelo próprio João ainda em vida”.

Após o sublime prólogo (1,1-18), que mereceu para o apóstolo o apelativo de Águia do Céu, o quarto Evangelho pode dividir-se em quatro partes, além dos dois epílogos (20, 30-31; 21, 24-25):

  1. parte: manifestação de Jesus (1,19 – 4,54);
  2. parte: pregação de Jesus e oposição dos Judeus (5 – 12);
  3. parte: discursos e oração na Última Ceia (13 – 17);
  4. parte: paixão, morte e ressurreição de Jesus (18 – 21).

(4) Os Cristãos Gnósticos constituíram, nos primeiros anos dessa nossa era, uma comunidade fechada, iniciática, que guardou os aspectos esotéricos dos evangelhos, principalmente das parábolas do Mestre Jesus, o Cristo, apresentando um cristianismo muito mais profundo e filosófico do que daqueles cristãos que ficaram conhecidos como a ortodoxia.

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