São Marcos

Marcos, ou João Marcos, autor do segundo Evangelho, era levita nascido na ilha de Chipre. Sua família gozava de certa ascendência entre os cristãos de Jerusalém, tanto que em sua casa se refugiou Pedro ao ser libertado do cárcere de Herodes, encontrando nela "varias pessoas reunidas para rezar" (At 12,12).

Partindo de Jerusalém na sua primeira viagem apostólica, Paulo levou consigo Marcos e o primo deste, Barnabé, Chegando a Prega, na Panfília, Marcos separou-se dos dois e voltou para a Cidade Santa. Essa inconstância não agradou Paulo, que, na segunda viagem, se recusou a aceitar Marcos como companheiro. Então este seguiu com Barnabé para Chipre, enquanto Paulo e Silas rumaram para Cilícia e a Grécia.

O pequeno incidente não abalou a amizade entre Marcos e o grande apóstolo. De fato, mais tarde, o evangelista tornou-se colaborador direto de Pedro e Paulo. Este, em carta de Roma aos fiéis de Colossas (4,10), declara: “Saúdo-vos Marcos, primo de Barnabé”. E na
Epístola a Filêmon: “Saudações de Marcos, meu colaborador” (v. 24).

Por volta do ano 61-62, João Marcos encontrava-se de novo com Paulo. Alguns anos depois, por volta de 63-64, ajudava Pedro na evangelização de Roma, donde este enviou sua primeira Epístola (5,13), em cujo final escreve: “Saúdo-vos meu filho Marcos”, o que denota ter sido batizado príncipe dos apóstolos.

Marcos saiu da capital do Império antes de perseguição de Nero, iniciada em 64. Com efeito, Paulo, em 67, novamente preso e já em vésperas do martírio, escreve a Timóteo sua segunda Carta, na qual lhe pede que vá a Roma e leve consigo Marcos (4,11).

Em seguida ao martírio dos apóstolos Pedro e Paulo, Marcos (conforme antiqüíssimas e autorizadas tradições) evangelizou o Egito, onde fundou a Igreja de Alexandria, e aí morreu mártir. As mesmas tradições rezam que seu corpo foi transladado para Veneza, na Itália.

Eusébio de Cesareia, na sua História Eclesiástica, conserva um fragmento de Papias, bispo de Hierápolis, na Frígia, escrito os anos 110 e 130, no qual se lê textualmente: “Eis o que diz o presbítero João: tendo sido intérprete de Pedro, Marcos escreveu com exatidão, embora
de maneira não ordenada, tudo o que lembrava as coisas que o Senhor disse ou fez”. Segundo os melhores críticos, esse presbítero é o próprio apóstolo João.

Alguns anos mais tarde, o mesmo afirma Irineu, bispo de Lião, nas Gálias. Em seguida, Justino, Tertuliano, Orígenes e outros confirmam unânimes o pensamento da Igreja Primitiva.

Clemente de Alexandria declara que Marcos escreveu o Evangelho em Roma, a pedido de muitos cristãos que tinham recebido a pregação de Pedro.

Como Clemente, todos os demais santos Padres concordam em dizer que o segundo Evangelho foi escrito não tanto para os judeus, mas especialmente para os cristãos de Roma, na maioria convertidos do paganismo. E o texto evangélico confirma tal afirmação. De fato
refere uma única profecia do Antigo Testamento; mostra Jesus como Senhor da natureza e da vida, conhecedor dos corações e do futuro livre, argumentos que podiam convencer os pagãos; não relata discursos de Jesus sobre a lei judaica; usa latinismos e traduz expressões
aramaicas; explica usos e costumes próprios dos judeus; dá indicações geográficas da Palestina; é o único evangelista a lembrar que Simão de Cirene era o pai de Alexandre e Rufo, que faziam parte da comunidade cristã de Roma (Mc 15,21 e Rm 16,13).

Na ordem cronológica, a tradição coloca o segundo Evangelho entre o de Mateus e o de Lucas, ou seja, os anos 54 e 60. Marcos o escreveu enquanto auxiliava Pedro na implantação do cristianismo em Roma, que havia de transformá-la em centro e foco da mensagem cristã, o que lhe valeu o título de Cidade Eterna.

Marcos é o mais breve dos evangelistas. Seu estilo é até descuidado, longe do grego clássico. Contudo, sua narração viva e colorida reflete claramente a pregação do príncipe dos apóstolos, que tinha sido, com Tiago e João, o trio preferido do Senhor no grupo dos doze.

Na sua simplicidade, Marcos atinge plenamente o seu intento: provar que Jesus é o Filho de Deus, o Senhor supremo, o onipotente “Leão de Judá”, que os israelitas esperavam e que devia salvar todos os povos: judeus e pagãos.

O segundo Evangelho pode dividir-se em duas partes, além da introdução geral (1,1):

  1. Ministério público de Jesus: 1 – 13;
  2. Paixão, morte e glorificação de Jesus: 14 – 16.
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