Portugal

(por Antonio Augusto Borelli Machado)

PREFÁCIO: Fátima, numa visão de conjunto (*)

(*) "Carta Pastoral sobre a preservação da Fé e dos bons costumes", de 2 de fevereiro de 1967. - Por Plínio Corrêa de Oliveira

Deparando no presente número comemorativo [com] o relato das diversas aparições de Nossa Senhora aos três pastorinhos de Fátima, em 1917, e posteriormente à Irmã Lúcia parecerá talvez útil a mais de um leitor uma análise sucinta dos múltiplos aspectos que essas importantes manifestações da Santíssima Virgem contêm.

Pressupostos e lineamentos gerais das aparições

I - PRIMEIRO PRESSUPOSTO: O DOGMA DA COMUNHÃO DOS SANTOS

Para se entender o conjunto de visões e comunicações com que Lúcia, Francisco e Jacinta foram favorecidos, é preciso ter em vista, antes de tudo, a doutrina católica sobre a comunhão dos santos. As preces e méritos de uma pessoa podem beneficiar outra. Assim, as orações, os sacrifícios e o holocausto da própria vida, oferecidos pelas três crianças, máxime depois de espiritualmente beneficiadas pelas aparições da Rainha de todos os Santos, é lógico que pudessem aproveitar a um grande número de almas, e até a nações inteiras. Nossa Senhora veio, pois, solicitar orações e sacrifícios aos três. A Jacinta e Francisco, pediu também o holocausto da vida como vítimas expiatórias pelos pecados dos homens. A Lúcia pediu que ficasse neste mundo para o cumprimento de uma missão da qual adiante falaremos.

II - SEGUNDO PRESSUPOSTO: A MEDIAÇÃO UNIVERSAL DE MARIA SANTÍSSIMA

Outro pressuposto para a intelecção dos acontecimentos de Fátima é a mediação universal de Maria Santíssima. Ela atua, em todos, como a Medianeira suprema e necessária - por livre vontade de Deus - entre o Redentor ofendido e a humanidade pecadora. Mediadora, de outro lado, sempre ouvida, e enquanto tal exercendo uma verdadeira direção sobre os acontecimentos. Mediadora régia, que será glorificada com a vitória de seu Coração materno. O que é a mais requintada expressão da vitória do próprio Deus.

III - EM FÁTIMA, NOSSA SENHORA NÃO FALOU APENAS PARA PORTUGAL, MAS PARA O MUNDO INTEIRO

Falando aos pequenos pastores, quis Nossa Senhora falar ao mundo inteiro exortando todos os homens à oração, à penitência, à emenda de vida. De modo especial, falou Ela ao Papa e à Sagrada Hierarquia, pedindo-lhes a consagração da Rússia ao seu Coração Puríssimo.

IV - A SITUAÇÃO ALTAMENTE CALAMITOSA DO MUNDO EM NOSSOS DIAS

Estes pedidos, a Mãe de Deus os fez em vista da situação religiosa em que se encontrava o mundo na época das aparições, isto é, em 1917. Nossa Senhora apontou tal situação como altamente calamitosa. A impiedade e a impureza haviam dominado a terra a tal ponto, que para punir os homens explodira a verdadeira hecatombe que foi a [Primeira] Grande Guerra. Essa conflagração terminaria em breve, e os pecadores teriam tempo para se emendar ao apelo de Fátima. Se esse apelo fosse ouvido, a humanidade conheceria a paz. Caso não fosse ouvido, viria outra guerra, mais terrível ainda. E, caso o mundo ainda continuasse surdo à voz de sua Rainha, uma suprema hecatombe, de raiz ideológica e de porte universal, implicando em uma grave perseguição religiosa, afligiria todos os homens trazendo grandes provações para o Romano Pontífice: "A Rússia espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja… O Santo Padre terá muito que sofrer".

V - DEPOIS DE UMA SUPREMA HECATOMBE, DE RAIZ IDEOLÓGICA E DE PORTE UNIVERSAL, VIRÁ O REINO DE MARIA

Quebrada assim, ao longo de toda uma cadeia de calamidades, a dura cerviz da humanidade contemporânea, haverá, em larga escala, uma conversão das almas. Tal conversão será especificamente uma vitória do Coração Puríssimo da Mãe de Deus: "Por fim o meu Imaculado Coração triunfará…". Será o reinado de Maria sobre os homens…

VI - A MEDITAÇÃO SOBRE OS TORMENTOS ETERNOS É EFICAZ E ADEQUADA PARA OS HOMENS DESTE SÉCULO

No intuito de mais eficazmente incitar a humanidade a acolher essa mensagem, Nossa Senhora fez ver aos seus três confidentes as almas condenadas ao inferno. Quadro trágico por eles descrito de modo admirável, e próprio a reconduzir à virtude os pecadores endurecidos. Essa visão lúgubre [sombria] bem mostra quão profundamente estão enganados os que afirmam ser inadequada para os homens deste século a meditação sobre os tormentos eternos.

VII - PROVAS DA AUTENTICIDADE DA MENSAGEM DE FÁTIMA

A fim de provar a realidade das aparições, e portanto a autenticidade da mensagem, a Virgem dispôs três ordens de acontecimentos:

a) Afluência de grande número de espectadores, no momento em que Ela falava aos videntes. Embora somente estes fossem os destinatários imediatos da mensagem, os circunstantes, fazendo uso de uma penetração psicológica comum, podiam certificar-se de que as três crianças não mentiam nem eram objeto de uma ilusão, ao afirmar que estavam em contato com Nossa Senhora, mas realmente ouviam um ser invisível para os outros, ao qual falavam.

b) O prodígio das transformações cromáticas e dos movimentos do sol. Esse prodígio se fez notar em uma zona tão maior do que o local das aparições, que não pode ser explicado por um fenômeno de sugestão coletiva (sumamente difícil de ocorrer, aliás, com as 50 a 70 mil pessoas que se achavam na Cova da Iria).

c) Confirmou-se a profecia de que, pouco depois das aparições de Fátima, a primeira guerra mundial chegaria ao fim. Como igualmente se confirmou a profecia de que, não se emendando a humanidade, uma outra guerra mundial eclodiria. A luz extraordinária [aurora boreal] que iluminou os céus da Europa antes da segunda conflagração foi um fato observado em vários países e universalmente conhecido. A Senhora prevenira os videntes de que este seria o sinal da punição iminente. E pouco depois a punição veio.

d) A previsão do castigo supremo, que é a difusão do comunismo, começou a realizar-se pouco depois das aparições.

É importante notar que a Santíssima Virgem anunciou que "a Rússia espalhará seus erros pelo mundo", mas que, por ocasião dessa profecia - 13 de julho de 1917 - a expressão era mais ou menos ininteligível. Com efeito, o czarismo acabava apenas de cair, substituído pelo regime ainda burguês de Kerensky, e não se podia saber quais seriam esses erros russos. Pois manifestamente não se tratava aí da difusão da religião greco-cismática, mumificada e privada de qualquer força de expansão. Assim, a ascensão dos marxistas ao poder na infeliz Rússia, no mês de novembro de 1917, já foi um eloqüente começo de confirmação da profecia.

Em seguida, o Partido Comunista russo iniciou a propagação mundial dos seus erros, o que acentuou ainda mais a coincidência entre o que a Virgem anunciara e o curso dos acontecimentos. Depois da segunda guerra mundial, a expansão comunista se acentuou ainda muito mais, porque numerosas nações, subjugadas pela fraude e pela força, caíram sob domínio soviético. A URSS se converteu assim em um perigo mundial. E uma agressão comunista é hoje como que uma espada de Dâmocles suspensa sobre o Ocidente. Desse modo, a ameaça formulada por Nossa Senhora, que poderia parecer confusa e inverossímil em 1917, se apresenta em 1967 como um perigo que faz estremecer toda a terra.

VIII - AS DUAS FAMÍLIAS DE ALMAS DO MUNDO CONTEMPORÂNEO

Ante estas afirmações de uma grandeza apocalíptica, é preciso fazer uma observação. O mundo de hoje se vai dividindo cada vez mais em duas famílias de almas. Uma considera que a humanidade é presa de um feixe de erros e de iniqüidades, as quais começaram na esfera religiosa e cultural com o humanismo, a Renascença e a Pseudo-Reforma protestante. Tais erros se agravaram com o iluminismo e o racionalismo, e culminaram na esfera política com a Revolução Francesa. Do terreno político passaram eles para o campo social e econômico, no século XIX, com o socialismo utópico e com o socialismo dito científico. Com o advento do comunismo na Rússia, toda essa congérie [soma, acúmulo, n.d.c.] de erros passou a ter um começo de transposição, incipiente mas maciça, para a ordem concreta dos fatos, nascendo daí o império comunista moloch que vai desde o coração da Alemanha até o Vietnã, e cuja unidade (a divisão em "linha russa" e "linha chinesa" não passa de um "bluff" propagandístico) é indiscutível. Ao mesmo tempo, sobretudo a partir da Grande Guerra, a moralidade se pôs a declinar com rapidez espantosa no Ocidente, preparando-o para a capitulação ante o comunismo, o qual é a mais audaciosa expressão doutrinária e institucional da amoralidade.

A concepção histórica contida nessas considerações se encontra exposta no artigo "A cruzada do século XX" publicado no primeiro número desta folha. Procuramos dar-lhe um mais amplo desenvolvimento no ensaio "Revolução e Contra-Revolução", que "Catolicismo" estampou em seu nº 100. Por fim, encontra-se ela enunciada com grande elevação e clareza no histórico documento em que duzentos Padres do II Concílio Ecumênico do Vaticano, por iniciativa dos Exmos. Revmos. Srs. D. Antonio de Castro Mayer e D. Geraldo de Proença Sigaud, pediram uma nova condenação do marxismo. Para as incontáveis almas de todos os estados, condições de vida e nações, que condividem este modo de pensar, a mensagem de Fátima é tudo quanto há de mais coerente com a doutrina católica e com a realidade dos fatos.

Há também outra família de almas, para a qual os problemas do mundo contemporâneo pouca ou nenhuma relação têm com a impiedade (considerada enquanto desvio culposo da inteligência) e a imoralidade. Nascem eles exclusivamente de equívocos involuntários, que uma boa difusão doutrinária e um conhecimento objetivo da realidade podem dissipar. Esses equívocos resultam, aliás, de carências econômicas. Filhos da fome, morrerão quando no mundo não houver mais fome. E não morrerão antes disto. Com o auxílio da ciência e da técnica, a crise da humanidade se resolverá.

Não só isto. Não havendo como nota tônica das catástrofes e dos perigos em meio aos quais nos debatemos, o fator culpa, a noção de um castigo universal se torna incompreensível. Tanto mais quanto, para esta família de almas, o comunismo não é intrinsecamente mau, e com ele são possíveis acomodações que evitem incômodas perseguições.

É claro que por amor à brevidade a descrição dessas duas famílias de almas esquematiza algum tanto o panorama. Entre uma e outra há muitas gamas. Não haveria porém espaço para retratá-las aqui. Na medida em que qualquer das correntes intermediárias se aproxima de um pólo ou do outro, para ela se vai tornando compreensível ou incompreensível a mensagem de Fátima. Fátima se encontra pois, neste sentido, como um verdadeiro divisor de águas das mentalidades contemporâneas.

De qualquer forma, exceção feita da parte ainda mantida em segredo, os pedidos, as admonições, as profecias (todos com mero caráter de revelações particulares, é bem de ver…) da Cova da Iria estão lançados e em larga via de confirmação. Aos cépticos dizemos: "Qui vivra verra…" [Quem viver verá]

IX - A MENSAGEM DE FÁTIMA NÃO FOI CORRESPONDIDA

Dar-se-ão os acontecimentos previstos em Fátima, e ainda não realizados até aqui? É a pergunta que a humanidade contemporânea faz. Em princípio, não há como duvidar. Pois o fato de uma parte das profecias já se haver realizado com impressionante precisão prova o caráter sobrenatural delas. E, provado tal caráter não há como pôr em dúvida que a mensagem celeste se cumpra até o fim.

Mas, poderia alguém objetar, as profecias de 13 de julho de 1917 têm um cunho condicional. Elas se realizariam caso o Papa e, em união com ele, os Bispos não fizessem a consagração da Rússia e do mundo ao Imaculado Coração de Maria. Ora, tal consagração foi feita por Pio XII quanto ao mundo (em 1942) e quanto à Rússia em particular (1952). Logo, é de esperar que os castigos previstos pela Senhora do Rosário não ocorrerão…

A esta objeção duas respostas podem ser dadas.

Primeiramente, conforme palavras de Nosso Senhor à Irmã Lúcia, em 1943, por ela referidas em carta ao Bispo titular de Gurza, a consagração do mundo feita por Pio XII, se bem que tenha sido do divino agrado, não preencheu todas as condições formuladas pela Mãe de Deus. Em conseqüência, parece discutível que tal consagração tenha por efeito afastar as calamidades previstas. A essas palavras comunicadas por Nosso Senhor à Irmã Lúcia cumpre dar todo o crédito, pois, tendo ela ficado nesta vida com uma missão concernente à mensagem de Fátima, é normal que receba do Céu comunicações dessa natureza, próprias a orientar o mundo sobre a interpretação a ser dada à mesma mensagem, bem como sobre a relação desta com o desenrolar dos acontecimentos. E por isto mesmo é normal também que Jesus e sua Mãe dêem à Religiosa fiel e tão amada pelos Sagrados Corações toda a assistência para que desempenhe essa missão sem cair em erro nem induzir ao erro a humanidade.

Em segundo lugar, sobreleva notar que, na Cova da Iria, Nossa Senhora formulou duas condições, ambas indispensáveis para que se desviassem os castigos com que Ela nos ameaçava.

Uma dessas condições era a consagração. Digamos que esta tenha sido realizada da maneira pedida pela Santíssima Virgem. Resta a segunda condição: a divulgação da prática da Comunhão reparadora dos cinco primeiros sábados. Parece-nos evidente que essa devoção não se propagou até hoje pelo orbe católico na medida desejada pela Mãe de Deus.

E há ainda outra condição, implícita na mensagem, mas também ela indispensável: é a vitória do mundo sobre as mil formas de impiedade e de impureza que o vêm dominando. Tudo indica que esta vitória não foi alcançada, e, pelo contrário, que nos aproximamos cada vez mais do paroxismo nesta matéria. Assim, uma mudança de rumo da humanidade se vai tornando cada vez mais improvável. E, à medida que caminhamos para esse paroxismo, mais provável se vai tornando que estejamos caminhando para a efetivação dos castigos…

Cumpre aqui fazer uma observação. É que, a não serem vistas as coisas assim, a mensagem de Fátima seria absurda. Pois se Nossa Senhora afirmou em 1917 que os pecados do mundo haviam chegado a um tal cúmulo que clamavam pelo castigo de Deus, não pareceria lógico que esses pecados continuassem a crescer durante cinqüenta anos, o mundo se recusasse obstinadamente e até o fim a ouvir o que lhe foi dito em Fátima, e o castigo não viesse. Seria o mesmo que se Nínive não tivesse feito penitência e contudo as ameaças do Profeta não se verificassem.

De mais a mais, a própria consagração pedida por Nossa Senhora não teria por efeito afastar o castigo se o gênero humano continuasse cada vez mais aferrado à impiedade e ao pecado. Pois enquanto tal se desse, a consagração conservaria algo de incompleto e despido de conteúdo real.

Em resumo, desde que não se operou no orbe a imensa transformação espiritual pedida na Cova da Iria, vamos cada vez mais caminhando para o abismo. E, à medida que caminhamos, aquela transformação se vai tornando sempre mais improvável.

X - POR QUE NÃO FOI REVELADA A TERCEIRA PARTE DO SEGREDO?

Entra aqui o famoso assunto da parte ainda não revelada do segredo de Fátima. Conterá ela talvez palavras de perdão e de paz que nos deixem esperar uma indefinida impunidade para esse indefinido crescimento da impiedade e da impureza? A isto devemos dizer, desde logo, que não conseguimos perceber o que haja de piedoso em tal idéia. Em situações análogas - de um mundo surdo e recalcitrante até o fim - as almas santas do Antigo e do Novo Testamento sempre preferiram a misericórdia à justiça, e o perdão ao castigo. Mas sempre preferiram o castigo ao espetáculo da impiedade vitoriosa escarnecendo impunemente e por tempo indefinido da majestade de Deus.

Ademais, parece absurdo admitir que Nossa Senhora tenha feito uma mensagem pública asseverando que sem emenda de vida o mundo incorreria em terríveis castigos, e uma mensagem privada na qual afirmasse de um ou de outro modo que na mesma hipótese ocorreria o contrário.

O que importa é, pois, rezar, sofrer e agir para que a humanidade se converta. E isto com redobrado empenho, porque senão o castigo está às portas.

Um segredo é um segredo. E, em boa lógica, ninguém pode tirar deduções do seu conteúdo, já que não o conhece.

Entretanto, não é fora de propósito fazer aqui uma conjetura. A parte ainda não divulgada do segredo provavelmente contém pormenores assustadores sobre o modo pelo qual se cumprirão os castigos anunciados em Fátima. Pois só assim se explica porque possa parecer duro publicá-la. Se ela contivesse perspectivas distensivas, tudo leva a crer que já estaria publicada.

XI - OS CLARÕES SACRAIS DA AURORA DO REINO DE MARIA

É bom que, ao fim destas reflexões, nosso espírito se detenha na consideração das perspectivas últimas da mensagem de Fátima. Para além da tristeza e das punições supremamente prováveis, para as quais caminhamos, temos diante de nós os clarões sacrais da aurora do Reino de Maria: "Por fim o meu Imaculado Coração triunfará". É uma perspectiva grandiosa de universal vitória do Coração régio e maternal da Santíssima Virgem. É uma promessa apaziguadora, atraente e sobretudo majestosa e empolgante.

Para obviar o castigo na tênue medida em que é obviável, obter a conversão dos homens na fraca medida em que segundo a economia comum da graça ela é ainda obtenível antes do castigo, para apressar o quanto possível a aurora bendita do Reino de Maria, e para nos ajudar a caminhar no meio das hecatombes que tão gravemente nos ameaçam, o que podemos fazer? Nossa Senhora no-lo indica: o afervoramento na devoção a Ela, a oração, a penitência.

Para estimular-nos à oração, revestindo-Se sucessivamente dos atributos próprios às invocações de Rainha do SS. Rosário, de Mãe Dolorosa e de Nossa Senhora do Carmo, Ela nos indicou quanto Lhe é grato ser conhecida, amada e cultuada por esta forma.

Outrossim, insistiu a Virgem de Fátima de modo muitíssimo especial sobre a devoção ao seu Imaculado Coração. Referiu-se Ela a seu Coração sete vezes nas suas mensagens (e Nosso Senhor, nove).

Assim, o valor teológico, aliás já tão comprovado, da devoção ao Imaculado Coração de Maria, encontra em Fátima uma preciosa e impressionante corroboração. De outro lado, a insistência da Santíssima Virgem prova à evidência a altíssima oportunidade dessa devoção.

Quem toma a sério as revelações de Fátima deve, pois, inscrever o incremento da devoção ao Coração Puríssimo como um dos mais altos desideratos de um sadio "aggiornamento" [atualização] da piedade.

E é neste sentido que deixamos aqui consignada uma comovida recomendação aos leitores de "Catolicismo". Recomendação esta que não é senão um eco do que sobre Fátima está contido na Carta Pastoral, rica em empolgantes ensinamentos, com que o ilustre Bispo de Campos, D. Antonio de Castro Mayer, acaba de brindar seu felizes diocesanos.

Icone-pronto.png

INTRODUÇÃO

NOS LIVROS que tratam dos acontecimentos de Fátima, a descrição das aparições e os colóquios de Nossa Senhora com os videntes aparecem insertos numa seqüência de fatos que englobam as repercussões locais que as aparições provocaram, os interrogatórios dos videntes e das testemunhas, as curas e conversões extraordinárias que se seguiram, os pormenores tão atraentes da ascensão espiritual das privilegiadas crianças, e numerosos episódios conexos. Nada mais lógico e compreensível, por certo.

Lidos os livros, porém, surge em muitos espíritos o desejo de dispor de um texto que lhes facilite deter-se mais especialmente sobre o conteúdo mesmo das aparições, no empenho de penetrar sempre mais o sentido da mensagem que Nossa Senhora veio comunicar aos homens, de modo a poder atender-lhe às prescrições.

No intuito de satisfazer a esse anelo tão legítimo, compusemos um relato circunscrito ao que se passou entre a Virgem, o Anjo de Portugal, e os videntes, isto é, um relato no qual todos os outros fatos, edificantes ou pitorescos, que entremeiam a história de Fátima, foram deixados de lado com vistas a fixar a atenção sobre o essencial.

À relação das manifestações do Anjo em 1916 e de Nossa Senhora em 1917 segue-se a das revelações particulares recebidas por um ou outro dos videntes isoladamente (em especial as da Irmã Lúcia). Constituindo um complemento das aparições da Cova da Iria, não poderiam elas faltar aqui.


Na primeira redação deste trabalho, havíamos nos baseado principalmente em duas obras muito conhecidas, que recomendamos aos leitores desejosos de possuir uma história completa de Fátima. A primeira delas é a do escritor católico norte-americano William Thomas Walsh, Our Lady of Fatima, com tradução em português editada no Brasil e intitulada Nossa Senhora de Fátima. A segunda obra é a do Pe. João de Marchi IMC, sob o título de Era uma Senhora mais brilhante que o sol…

O Pe. De Marchi passou três anos em Fátima, a partir de 1943, interrogando as principais testemunhas dos acontecimentos e anotando cuidadosamente seus depoimentos. Entrevistou a Irmã Lúcia e pôde compulsar os manuscritos da vidente, dos quais falaremos adiante.

William Thomas Walsh esteve em Portugal em 1946 realizando inquéritos e entrevistas. Falou com a Irmã Lúcia e baseou seu livro, de modo especial, nas quatro Memórias por ela escritas.

As obras do Pe. De Marchi e de Walsh são bastante fidedignas, e concordam, fundamentalmente, entre si. Entretanto, para maior segurança, confrontamo-las com outros autores, que completam certos fatos e esclarecem alguns pormenores. Eles vão citados nos lugares correspondentes.

Não nos tinha sido dado, entretanto, recorrer diretamente à fonte mais autorizada, que são, sem dúvida, os manuscritos da Irmã Lúcia. Com efeito, permaneciam eles, até então, inéditos, salvo um ou outro fragmento reproduzido pelos autores que tinham podido examiná-los.

Por ocasião do cinqüentenário das aparições, quando este nosso trabalho foi publicado pela primeira vez, formulamos o voto de que fosse dado a lume o texto integral desses preciosos manuscritos, para edificação de todos os devotos de Nossa Senhora de Fátima.

Cabe-nos registrar [Registramos] com alegria que tal voto foi felizmente realizado. Com efeito, em 1973 foram por fim publicadas as Memórias e Cartas da Irmã Lúcia, pelo Pe. Dr. Antonio Maria Martins SJ (ver "Obras citadas" na página 87). A bem cuidada edição traz o fac-símile dos manuscritos da Irmã Lúcia e, lado a lado, o seu texto composto em caracteres tipográficos, com as correspondentes traduções para o francês e o inglês (em outra edição da mesma obra aparecem as traduções para o italiano e o espanhol).

Permitimo-nos, não obstante, expressar [Na mesma ocasião exprimíamos igualmente] o desejo de que fosse feita, no futuro, uma edição crítica completa, contendo além das Memórias e cartas já publicadas, os interrogatórios vários a que a Irmã Lúcia foi submetida(1), as diversas peças do processo(2) canônico e toda a correspondência da vidente que se conseguisse reunir.(3) A importância do assunto Fátima certamente comportava que se fizesse tão meritório esforço.

Os diversos relatos redigidos pela Irmã Lúcia são habitualmente designados como Memórias I, II, III e IV.

O primeiro, escrito num caderno pautado comum, é um repositório de memórias pessoais para a biografia de Jacinta. No dia 12 de setembro de 1935, ao ser feita a exumação dos restos mortais da pequena vidente de Fátima falecida em 1920, verificou-se que seu rosto se mantinha incorrupto. O Bispo de Leiria, D. José Alves Correia da Silva, enviou à Irmã Lúcia uma fotografia que nessa ocasião se tirou, e ela, ao agradecer, referiu-se às virtudes da prima. O Prelado ordenou, então à irmã, que escrevesse tudo o que sabia da vida de Jacinta, daí resultando o primeiro manuscrito, que ficou pronto por volta do Natal de 1935.

Em abril de 1937, o Pe Ayres da Fonseca ponderou ao Bispo de Leiria que o primeiro relato da Irmã Lúcia permitia supor a existência de outros dados interessantes relativos às aparições e que permaneciam desconhecidos. A Irmã Lúcia pôs-se então a escrever, entre os dias 7 e 21 de novembro daquele ano — após nova ordem de D. José Alves Correia da Silva — a história de sua vida. Nesse segundo escrito, fala também, embora muito sumariamente, das aparições de Nossa Senhora, e relata, pela primeira vez publicamente, as aparições do Anjo. Diversas razões levaram-na a silenciar, até então, a respeito: um conselho do Arcipreste do Olival, Pe. Faustino José Jacinto Ferreira — a quem narrara as aparições — reforçado, mais tarde, por uma recomendação idêntica do Bispo de Leiria; por outro lado, as críticas e zombarias surgidas a propósito do relato das primeiras aparições do Anjo na primavera e verão de 1915, e as repreensões severas de sua mãe, induziram-na sempre a uma grande cautela e discrição. Aliás, chama a atenção, nas Memórias da Irmã Lúcia, a sua grande relutância em falar de si mesma e, por via de conseqüência, das aparições.

Em 1941, o Bispo de Leiria ordenou à vidente que escrevesse tudo o mais de que pudesse ainda lembrar-se a respeito da vida de sua prima, com vistas a uma nova edição do livro sobre Jacinta que o Cônego Galamba de Oliveira queria mandar imprimir. “Esta ordem — escreve a Irmã Lúcia — caiu-me no fundo da alma como um raio de luz, dizendo-me que era chegado o momento de revelar as duas primeiras partes do segredo” (Memórias e Cartas da Irmã Lúcia, p. 444). Assim, a Irmã Lúcia inicia o seu terceiro manuscrito revelando as duas primeiras partes do Segredo de Fátima. Em seguida, registra as impressões que elas causaram sobre o espírito de Jacinta. O relato é datado de 31 de agosto de 1941.

Surpreendido com tais revelações, o Cônego Galamba de Oliveira concluiu que a Irmã Lúcia não havia dito tudo nos documentos anteriores, e instou o Bispo de Leiria a que lhe ordenasse escrever um histórico completo das aparições: “Mande-lhe, Senhor Bispo, […] que escreva TUDO. Mas TUDO. Que há de dar muitas voltas no Purgatório por ter calado tanta coisa”. A Irmã Lúcia se desculpa dizendo que agiu sempre por obediência. O Cônego Galamba insiste com o Bispo que lhe ordene “que diga TUDO, TUDO; que não oculte nada” (com o que aludia, ao que parece, também à terceira parte do Segredo). O Bispo, entretanto, prefere não se envolver: “Isso não mando. Em assuntos de segredos não me meto”. E ordena simplesmente, à vidente, que faça uma narração completa das aparições (cfr. IV Memória, pp. 314, 316 — os destaques em maiúscula são da própria Irmã Lúcia). Foi então redigido o quarto manuscrito, que leva a data de 8 de dezembro de 1941. Nele, a Irmã Lúcia faz pela primeira vez um relato sistemático e ordenado das aparições, declarando, por fim, que “advertidamente” nada omitiu de quanto podia ainda se lembrar, salvo, evidentemente, a terceira parte do Segredo, que não tinha até então ordem de revelar (cf. IV Memória, p. 316 e 352).


Na primeira versão deste trabalho procuramos reconstituir com a maior fidelidade possível, com base nas principais fontes bibliográficas então disponíveis, o transcorrer das aparições. Infelizmente, verificavam-se pequenas discrepâncias entre os melhores autores. Com a publicação dos manuscritos da Irmã Lúcia e dos volumes já editados da Documentação Crítica de Fátima, muitas dúvidas puderam ser dirimidas [esclarecidas]. Algumas, porém, ainda subsistem e outras surgiram após a divulgação da terceira parte do Segredo. Por essa razão, em 2001 nos dirigimos respeitosamente à autoridade competente para que as apresentasse à vidente ainda viva, a fim de que ela mesma, na medida do possível, as venha a esclarecer. [Pormenores do assunto serão expostos adiante, quando analisarmos o contexto em que se insere o terceiro Segredo (cfr. Capítulo II, Terceira aparição).]

Assim, [para satisfazer o desejo dos leitores de uma maior autenticidade quanto ao conteúdo da mensagem de Fátima], à medida que a documentação nova ia sendo publicada e novos acontecimentos ligados a Fátima iam ocorrendo, fomos introduzindo, nas sucessivas edições deste trabalho, as precisões e modificações necessárias para mantê-lo sempre atualizado. É o que se impunha mais uma vez, nesta oportunidade, tendo em vista a publicação da terceira parte do Segredo e o falecimento da Irmã Lúcia, que encerra o ciclo das revelações de Nossa Senhora aos videntes de Fátima. Não encerra porém, como é óbvio, a sua história e o cumprimento das profecias ali feitas, cujo desfecho, ao mesmo tempo grandiosamente trágico e cheio de perspectivas luminosas para a humanidade em geral e para a Santa Igreja em particular, ainda está por ocorrer. Desta maneira, oferecendo agora ao público o presente trabalho consideravelmente ampliado, almejamos contribuir para que a mensagem de Nossa Senhora de Fátima seja cada vez mais conhecida, amada e acatada.

Oferecendo ao público brasileiro o presente trabalho, almejamos contribuir para que a mensagem de Nossa Senhora de Fátima seja cada vez mais conhecida, amada e acatada.

Rodapé:

(1) O Pe. Sebastião Martins dos Reis, em seu livro "A Vidente de Fátima dialoga pelas Aparições", traz os seguintes documentos:
a) Interrogatórios sucessivos feitos aos videntes, ao tempo das aparições, pelo Visconde de Montelo (pseudônimo do Cônego Dr. Manuel Nunes Formigão, da Sé Patriarcal de Lisboa);
b) […]
c) […]
d) […]
e)

(2) […]
(3) […]

[…]

Icone-pronto.png

Aparições do Anjo de Portugal

Antes das aparições de Nossa Senhora, Lúcia, Francisco e Jacinta — Lúcia de Jesus dos Santos, e seus primos Francisco e Jacinta Marto, todos residentes na aldeia de Aljustrel, freguesia de Fátima — tiveram três visões do Anjo de Portugal, ou da Paz.

Primeira aparição do anjo

A primeira aparição do Anjo deu-se na primavera ou no verão de 1916, numa loca (ou gruta) do outeiro do Cabeço, perto de Aljustrel, e desenrolou-se da seguinte maneira, conforme narra a Irmã Lúcia:

“Alguns momentos havia que jogávamos, e eis que um vento forte sacode as árvores e faz-nos levantar a vista para ver o que se passava, pois o dia estava sereno. Então começamos a ver, a alguma distância, sobre as árvores que se estendiam em direção ao nascente, uma luz mais branca que a neve, com a forma de um jovem transparente, mais brilhante que um cristal atravessado pelos raios do sol.

“Alguns momentos havia que jogávamos, e eis que um vento forte sacode as árvores e faz-nos levantar a vista para ver o que se passava, pois o dia estava sereno. Então começamos a ver, a alguma distância, sobre as árvores que se estendiam em direção ao nascente, uma luz mais branca que a neve, com a forma de um jovem transparente, mais brilhante que um cristal atravessado pelos raios do sol.

À medida que se aproximava, íamos-lhe distinguindo as feições: um jovem dos seus 14 a 15 anos, de uma grande beleza. Estávamos surpreendidos e meio absortos. Não dizíamos palavra.

Ao chegar junto de nós, disse:

— “Não temais. Sou o Anjo da Paz. Orai comigo”.

E ajoelhando em terra, curvou a fronte até o chão. Levados por um movimento sobrenatural, imitamo-lo e repetimos as palavras que lhe ouvimos pronunciar:

— “Meu Deus! Eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão para os que não crêem, não adoram, não esperam e Vos não amam”.

Depois de repetir isto três vezes, ergueu-se e disse:

— “Orai assim. Os Corações de Jesus e Maria estão atentos à voz das vossas súplicas”.

E desapareceu.

A atmosfera do sobrenatural, que nos envolveu, era tão intensa, que quase não nos dávamos conta da própria existência, por um grande espaço de tempo, permanecendo na posição em que nos tinha deixado, repetindo sempre a mesma oração. A presença de Deus sentia-se tão intensa e íntima, que nem mesmo entre nós nos atrevíamos a falar. No dia seguinte, sentíamos o espírito ainda envolvido por essa atmosfera, que só muito lentamente foi desaparecendo.

Nesta aparição, nenhum pensou em falar, nem em recomendar o segredo. Ela de si o impôs. Era tão íntima, que não era fácil pronunciar sobre ela a menor palavra. Fez-nos talvez também maior impressão, por ser a primeira assim manifesta”.

(Cfr. II Memória, pp. 114, 116; IV Memória, pp. 318, 320; De Marchi, pp. 51-52; Walsh, pp. 39-40; Ayres da Fonseca, p. 121; Galamba de Oliveira, pp. 52-57).

Segunda aparição do Anjo

A segunda aparição deu-se no verão de 1916, sobre o poço da casa dos pais de Lúcia, junto ao qual as crianças brincavam. Assim narra a Irmã Lúcia o que o Anjo lhes disse — a ela e aos primos — então:

— “Que fazeis? Orai! Orai muito! Os Corações Santíssimos de Jesus e Maria têm sobre vós desígnios de misericórdia. Oferecei constantemente ao Altíssimo orações e sacrifícios”.

— “Como nos havemos de sacrificar?” — perguntei.

— “De tudo que puderdes, oferecei a Deus um sacrifício em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores. Atraí assim sobre a vossa pátria a paz. Eu sou o Anjo da sua guarda, o Anjo de Portugal. Sobretudo aceitai e suportai com submissão o sofrimento que o Senhor vos enviar”.

E desapareceu.

Estas palavras do Anjo gravaram-se em nosso espírito, como uma luz que nos fazia compreender quem era Deus; como nos amava e queria ser amado; o valor do sacrifício, e como ele Lhe era agradável; como, por atenção a ele, convertia os pecadores”.

(Cfr. II Memória, p. 116; IV Memória, pp. 320, 322; De Marchi, p. 53; Walsh, p. 42; Ayres da Fonseca, pp. 121-122; Galamba de Oliveira, pp. 57-58).

Terceira aparição do Anjo

A terceira aparição ocorreu no fim do verão ou princípio do outono de 1916, novamente na Loca do Cabeço, e decorreu da seguinte forma, sempre de acordo com a descrição da Irmã Lúcia:

“Logo que aí chegamos, de joelhos, com os rostos em terra, começamos a repetir a oração do Anjo: “Meu Deus! Eu creio, adoro, espero e amo-Vos, etc.” Não sei quantas vezes tínhamos repetido esta oração, quando vemos que sobre nós brilha uma luz desconhecida. Erguemo-nos para ver o que se passava, e vemos o Anjo trazendo na mão esquerda um cálice e suspensa sobre ele uma Hóstia, da qual caíam dentro do cálice algumas gotas de Sangue. Deixando o cálice e a Hóstia suspensos no ar, prostrou-se em terra junto de nós e repetiu três vezes a oração:

— “Santíssima Trindade, Pai, Filho, Espírito Santo, adoro-Vos profundamente e ofereço-Vos o Preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos do seu Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-Vos a conversão dos pobres pecadores”.

Depois, levantando-se, tomou de novo na mão o cálice e a Hóstia, e deu-me a Hóstia a mim e o que continha o cálice deu-o a beber à Jacinta e ao Francisco, dizendo ao mesmo tempo:

— “Tomai e bebei o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo horrivelmente ultrajado pelos homens ingratos. Reparai os seus crimes e consolai o vosso Deus”.

De novo se prostrou em terra e repetiu conosco mais três vezes a mesmo oração: “Santíssima Trindade… etc.” e desapareceu.

Levados pela força do sobrenatural, que nos envolvia, imitávamos o Anjo em tudo, isto é, prostrando-nos como ele e repetindo as orações que ele dizia. A força da presença de Deus era tão intensa, que nos absorvia e aniquilava quase por completo. Parecia privar-nos até do uso dos sentidos corporais por um grande espaço de tempo. Nesses dias fazíamos as ações materiais como que levados por esse mesmo ser sobrenatural que a isso nos impelia. A paz e a felicidade que sentíamos era grande, mas só íntima, completamente concentrada a alma em Deus. O abatimento físico que nos prostrava também era grande.

Não sei porque, as aparições de Nossa Senhora produziam em nós efeitos bem diferentes. A mesma alegria íntima, a mesma paz e felicidade. Mas, em vez desse abatimento físico, uma certa agilidade expansiva; em vez desse aniquilamento na Divina Presença, um exultar de alegria; em vez dessa dificuldade no falar, um certo entusiasmo comunicativo. Mas, apesar destes sentimentos, sentia a inspiração para calar, sobretudo algumas coisas. Nos interrogatórios, sentia a inspiração íntima que me indicava as respostas que, sem faltar à verdade, não descobrissem o que devia por então ocultar”.

(Cfr. II Memória, p. 118; IV Memória, pp. 322-326; De Marchi, pp. 54-55; Walsh pp. 43-44; Ayres da Fonseca, pp. 122-123; Galamba de Oliveira, pp 58-59).

As aparições do Anjo, em 1916, foram precedidas por três outras visões, de abril a outubro de 1915, nas quais Lúcia e outras três pastorinhas, Maria Rosa Matias, Teresa Matias e Maria Justino, viram, também no outeiro do Cabeço, suspensa no ar sobre o arvoredo do vale, “uma como que nuvem mais branca que a neve, algo transparente, com forma humana”. Era “uma figura como se fosse uma estátua de neve, que os raios do sol tornavam algo transparente”. A descrição é da própria Irmã Lúcia (cfr. II Memória, p. 110; IV Memória, pp. 316 e 318; De Marchi, pp. 50-51; Walsh, pp. 27-28; Ayres da Fonseca, p. 119; Galamba de Oliveira, p. 51).

Icone-pronto.png

Aparições da Santíssima Virgem

Quando das aparições de Nossa Senhora, Lúcia de Jesus [dos Santos], Francisco e Jacinta Marto tinham 10, 9 e 7 anos de idade, respectivamente, tendo nascido em 22 de março de 1907, 11 de junho de 1908 e 11 de março de 1910. As três crianças moravam, como dissemos, em Aljustrel, lugarejo da freguesia de Fátima. As aparições se deram numa pequena propriedade dos pais de Lúcia, chamada Cova da Iria, a dois quilômetros e meio de Fátima, pela estrada de Leiria. Nossa Senhora aparecia sobre uma azinheira, ou carrasqueira, de um metro ou pouco mais de altura. Francisco apenas via Nossa Senhora, e não A ouvia. Jacinta via e ouvia. Lúcia via, ouvia, e falava com a Santíssima Virgem. As aparições ocorriam por volta do meio-dia.

Primeira aparição: 13 de maio de 1917

Brincavam os três videntes na Cova da Iria quando observaram dois clarões como de relâmpagos, após os quais viram a Mãe de Deus sobre a azinheira. Era “uma Senhora vestida toda de branco, mais brilhante que o sol, espargindo luz mais clara e intensa que um copo de cristal cheio de água cristalina, atravessado pelos raios do sol mais ardente”, descreve Lúcia. Sua face, indescritivelmente bela, não era “nem triste, nem alegre, mas séria”, com ar de suave censura. As mãos juntas, como a rezar, apoiadas no peito e voltadas para cima. Da mão direita pendia um rosário. As vestes pareciam feitas só de luz. A túnica era branca, e branco o manto, orlado de ouro, que cobria a cabeça da Virgem e Lhe descia aos pés. Não se Lhe viam os cabelos e as orelhas. Os traços da fisionomia, Lúcia nunca pôde descrevê-los, pois foi-Lhe impossível fitar o rosto celestial, que ofuscava. Os videntes estavam tão perto de Nossa Senhora — a um metro e meio de distância, mais ou menos — que ficavam dentro da luz que A cercava, ou que Ela espargia. O colóquio desenvolveu-se da seguinte maneira:1

Nossa Senhora: “Não tenhais medo, Eu não vos faço mal”.

Lúcia: “Donde é Vossemecê?”

Nossa Senhora: “Sou do Céu” (e Nossa Senhora ergueu a mão para apontar o céu).

Lúcia: “E que é que Vossemecê me quer?”

Nossa Senhora: “Vim para vos pedir que venhais aqui seis meses seguidos2, no dia 13, a esta mesma hora. Depois vos direi quem sou e o que quero. Depois voltarei ainda aqui uma sétima vez”.

Lúcia: “E eu também vou para o Céu?”

Nossa Senhora: “Sim, vais”.

Lúcia: “E a Jacinta?”

Nossa Senhora: “Também”.

Lúcia: “E o Francisco?”

Nossa Senhora: “Também, mas tem que rezar muitos terços”.

Lúcia: “A Maria das Neves já está no Céu?”

Nossa Senhora: “Sim, está”.

Lúcia: “E a Amélia?”

Nossa Senhora: “Estará no Purgatório até o fim do mundo.

Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?”

Lúcia: “Sim, queremos”.

Nossa Senhora: “Ides, pois, ter muito que sofrer, mas a graça de Deus será o vosso conforto”.

Foi ao pronunciar estas últimas palavras (a graça de Deus, etc.), que abriu pela primeira vez as mãos comunicando-nos — é a Irmã Lúcia quem escreve — uma luz tão intensa, como que reflexo que delas expedia, que penetrando-nos no peito e no mais íntimo da alma, fazia-nos ver a nós mesmos em Deus, que era essa luz mais claramente do que nos vemos no melhor dos espelhos. Então, por um impulso íntimo também comunicado, caímos de joelhos e repetimos intimamente: “Ó Santíssima Trindade, eu Vos adoro. Meu Deus, meu Deus, eu Vos amo no Santíssimo Sacramento”.

Passados os primeiros momentos, Nossa Senhora acrescentou:

— “Rezem o terço todos os dias para alcançarem a paz para o mundo e o fim da guerra”.

Em seguida — descreve a Irmã Lúcia — começou a elevar-Se serenamente, subindo em direção ao nascente, até desaparecer na imensidade da distância. A luz que A circundava ia como que abrindo um caminho no cerrado dos astros”.

(Cf. Memória II, p. 126; IV Memória, pp. 330 e 336; De Marchi, pp. 58-60; Walsh, pp. 52-53; Ayres da Fonseca, pp. 23-26; Galamba de Oliveira, pp. 63-64).

Segunda aparição: 13 de junho de 1917

Antes da segunda aparição, os videntes notaram novamente um clarão, a que chamavam relâmpago, mas que não era propriamente tal, e sim o reflexo de uma luz que se aproximava. Alguns dos espectadores, que em número de aproximadamente cinqüenta tinham acorrido ao local, notaram que a luz do sol se obscureceu durante os minutos que se seguiram ao início do colóquio. Outros disseram que o topo da azinheira, coberto de brotos, pareceu curvar-se como sob um peso, um momento antes de Lúcia falar. Durante o colóquio de Nossa Senhora com os videntes, alguns ouviram um sussuro como se fosse o zumbido de uma abelha.

Lúcia: “Vossemecê que me quer?”

Nossa Senhora: “Quero que venhais aqui no dia 13 do mês que vem, que rezeis o terço todos os dias, e que aprendais a ler3. Depois direi o que quero”.

Lúcia pediu a cura de uma pessoa doente.

Nossa Senhora: “Se se converter, curar-se-á durante o ano”.

Lúcia: “Queria pedir-Lhe para nos levar para o Céu”.

Nossa Senhora: “Sim, à Jacinta e ao Francisco levo-os em breve. Mas tu ficas cá mais algum tempo. Jesus quer servir-se de ti para Me fazer conhecer e amar. Ele quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração. A quem a abraçar, prometo a salvação; e serão queridas de Deus estas almas, como flores postas por Mim a adornar o seu trono”.

Lúcia: “Fico cá sozinha?”

Nossa Senhora: “Não, filha. E tu sofres muito? Não desanimes. Eu nunca te deixarei. O meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá até Deus”.

Foi no momento que disse estas últimas palavras — conta a Irmã Lúcia — que abriu as mãos e nos comunicou pela segunda vez o reflexo dessa luz imensa. Nela nos víamos como que submergidos em Deus. A Jacinta e o Francisco pareciam estar na parte dessa luz que se elevava para o Céu e eu na que se espargia sobre a terra. À frente da palma da mão direita de Nossa Senhora estava um Coração cercado de espinhos que pareciam estar nele cravados. Compreendemos que era o Imaculado Coração de Maria, ultrajado pelos pecados da humanidade, que queria reparação”4

(Cfr. II Memória, p. 130; IV Memória, pp. 334 e 336; p. 400; De Marchi, pp. 76-78; Walsh, pp. 65-66; Ayres da Fonseca, pp. 34-36; Galamba de Oliveira, p. 70).

Terceira aparição: 13 de julho de 1917

Ao dar-se a terceira aparição, uma nuvenzinha acinzentada pairou sobre a azinheira, o sol se ofuscou, uma aragem fresca soprou sobre a serra, apesar de se estar no pino do verão. O sr. Marto, pai de Jacinta e Francisco, que assim o refere, diz que ouviu também um sussuro como o de moscas num cântaro vazio. Os videntes viram o reflexo da costumada luz e, em seguida, Nossa Senhora sobre a carrasqueira.

Lúcia: “Vossemecê que me quer?”

Nossa Senhora: “Quero que venham aqui no dia 13 do mês que vem, que continuem a rezar o terço todos os dias em honra de Nossa Senhora do Rosário para obter a paz do mundo e o fim da guerra, porque só Ela lhes poderá valer”.

Lúcia: “Queria pedir-lhe para nos dizer quem é, e para fazer um milagre com que todos acreditem que Vossemecê nos aparece”.

Nossa Senhora: “Continuem a vir aqui todos os meses. Em outubro direi quem sou, o que quero, e farei um milagre que todos hão de ver para acreditarem”.

Lúcia apresenta então uma série de pedidos de conversões, curas e outras graças. Nossa Senhora responde recomendando sempre a prática do terço que assim alcançariam as graças durante o ano5

Depois prosseguiu: “Sacrificai-vos pelos pecadores e dizei muitas vezes e em especial sempre que fizerdes algum sacrifício: Ó Jesus, é por vosso amor, pela conversão dos pecadores e em reparação pelos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria”.

PRIMEIRA PARTE DO SEGREDO: A VISÃO DO INFERNO

“Ao dizer estas últimas palavras — narra a Irmã Lúcia — abriu de novo as mãos como nos dois meses passados. O reflexo [de luz que elas expediam] pareceu penetrar a terra e vimos como que um grande mar de fogo e mergulhados nesse fogo os demônios e as almas como se fossem brasas transparentes e negras ou bronzeadas, com forma humana, que flutuavam no incêndio levadas pelas chamas que delas mesmas saíam juntamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados — semelhante ao cair das fagulhas nos grandes incêndios — sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero que horrorizavam e faziam estremecer de pavor. Os demônios distinguiam-se por formas horríveis e asquerosas de animais espantosos e desconhecidos, mas transparentes como negros carvões em brasa”.

A visão demorou apenas um momento, durante o qual Lúcia soltou um “ai!”. Ela comenta que, se não fosse a promessa de Nossa Senhora de os levar para o Céu, os videntes teriam morrido de susto e pavor.

SEGUNDA PARTE DO SEGREDO: O ANÚNCIO DO CASTIGO E DOS MEIOS DE EVITA-LO

Assustados, pois, e como que a pedir socorro, os videntes, levantaram os olhos para Nossa Senhora, que lhes disse com bondade e tristeza:

Nossa Senhora: “Vistes o inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores. Para as salvar, Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração.

Se fizerem o que Eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz.

A guerra vai acabar, mas se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI começará outra pior6. Quando virdes uma noite alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal, por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre.7

Para a impedir, virei pedir a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja; os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas; por fim, o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-Me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz.

Em Portugal se conservará sempre o Dogma da Fé etc.

Isto não o digais a ninguém. Ao Francisco, sim, podeis dizê-lo8

Passados instantes:

"Quando rezais o terço, dizei depois de cada mistério: Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as alminhas todas para o Céu, principlmente aquelas que mais precisarem9

Lúcia: "Vossemecê não quer mais nada?

Nossa Senhora: "Não, hoje não te quero mais nada"

E, como de costume, começõu a elevar-Se em direção ao nascente, até desaparecer na imensa distância do firmamento"

Ouviu-se então uma espécie de trovão indicando que a aparição cessara10

(Cf. Memórias II, p. 138; III, pp. 218 e 220; IV, pp. 336 a 342; De Marchi, pp. 90-93; Walsh, pp. 75-77; Aryes da Fonseca, pp. 41-46; Galamba de Oliveira, pp. 72-78 e 146-147).

Quarta aparição: 15 de agosto de 1917

No dia 13 de agosto, em que deveria dar-se a quarta aparição, os videntes não puderam comparecer à Cova da Iria, pois foram raptados pelo Administrador de Ourém, que à força quis arrancar-lhes o segredo. As crianças permaneceram firmes.

Na hora costumeira, na Cova da Iria, ouviu-se um trovão, ao qual se seguiu o relâmpago, tendo os espectadores notado uma pequena nuvem branca que pairou alguns minutos sobre a azinheira. Observaram-se também fenômenos de coloração, de diversas cores, do rosto das pessoas, das roupas, das árvores, do chão. Nossa Senhora certamente tinha vindo, mas não encontrara os videntes.

[Entretanto, voltou alguns dias depois.] No dia 15 de agosto11, Lúcia estava com Francisco e mais um primo no local chamado Valinhos, propriedade de um de seus tios, quando, pelas 4 horas da tarde, começaram a se produzir as alterações atmosféricas que precediam as aparições de Nossa Senhora na Cova da Iria: um súbito refrescar da temperatura e um desmaiar do sol. Lúcia, sentindo que alguma coisa de sobrenatural se aproximava e os envolvia, mandou chamar às pressas Jacinta, a qual chegou em tempo para ver Nossa Senhora que — anunciada, como das outras vezes, por um reflexo de luz — aparecera sobre uma azinheira, ou carrasqueira, um pouco maior que a da Cova da Iria.

Lúcia: “Que é que Vossemecê me quer?”

Nossa Senhora: “Quero que continueis a ir à Cova da Iria no dia 13 e que continueis a rezar o terço todos os dias. No último mês farei o milagre para que todos acreditem” 12.

Lúcia: “Que é que Vossemecê quer que se faça do dinheiro que o povo deixa na Cova da Iria?”

Nossa Senhora: “Façam dois andores; um leva-o tu com a Jacinta e mais duas meninas vestidas de branco, o outro, que o leve o Francisco com mais três meninos. O dinheiro dos andores é para a festa de Nossa Senhora do Rosário, e o que sobrar é para a ajuda de uma capela que hão de mandar fazer” 13.

Lúcia: “Queria pedir-Lhe a cura de alguns doentes”.

Nossa Senhora: “Sim, alguns curarei durante o ano”. E tomando um aspecto mais triste, recomendou-lhes de novo a prática da mortificação, dizendo, no fim de tudo: “Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios pelos pecadores, que vão muitas almas para o inferno por não haver quem se sacrifique e peça por elas”.

E, como de costume, começou a elevar-Se em direção ao nascente”.

Os videntes cortaram ramos da árvore sobre a qual Nossa Senhora lhes tinha aparecido, e levaram-nos para casa. Os ramos exalavam um perfume singularmente suave.

(Cfr. II Memória, p. 150; IV Memória, pp. 342 e 344; De Marchi, pp. 127-129; Walsh, pp. 109-110; Ayres da Fonseca, pp. 61-62; Galamba de Oliveira, p. 89).

Quinta aparição: 13 de setembro de 1917

Como das outras vezes, uma série de fenômenos atmosféricos foram observados pelos circunstantes, cujo número foi calculado entre 15 a 20 mil pessoas, ou talvez mais: o súbito refrescar da atmosfera, o empalidecer do sol até ao ponto de se verem as estrelas, uma espécie de chuva como que de pétalas irisadas ou flocos de neve, que desapareciam antes de pousarem na terra. Em particular foi notado, desta vez, um globo luminoso que se movia lenta e majestosamente pelo céu, do nascente para o poente, e, no final da aparição, em sentido contrário. Os videntes notaram, como de costume, o reflexo de uma luz e, a seguir, Nossa Senhora sobre a azinheira:

Nossa Senhora: “Continuem a rezar o terço para alcançarem o fim da guerra. Em outubro virá também Nosso Senhor, Nossa Senhora das Dores e do Carmo, São José com o Menino Jesus, para abençoarem o mundo. Deus está contente com os vossos sacrifícios, mas não quer que durmais com a corda, trazei-a só durante o dia”. 14

Lúcia: “Têm-me pedido para Lhe pedir muitas coisas: cura de alguns doentes, de um surdo-mudo”.

Nossa Senhora: “Sim, alguns curarei, outros não.15 Em outubro farei um milagre para que todos acreditem”. 16

“E começando a elevar-Se, desapareceu como de costume”.

(Cfr. II Memória, p. 156; IV Memória, pp. 346 e 348; De Marchi, pp. 138-139; Walsh, pp. 115-116; Ayres da Fonseca, pp. 70-71; Galamba de Oliveira, p. 93).

Sexta e última aparição: 13 de outubro de 1917

Como das outras vezes, os videntes notaram o reflexo de uma luz e, em seguida, Nossa Senhora sobre a carrasqueira:

Lúcia: “Que é que Vossemecê me quer?”

Nossa Senhora: “Quero dizer-te que façam aqui uma capela em minha honra, que sou a Senhora do Rosário, que continuem sempre a rezar o terço todos os dias. A guerra vai acabar e os militares voltarão em breve para suas casas”.

Lúcia: “Eu tinha muitas coisas para Lhe pedir. Se curava uns doentes e se convertia uns pecadores…”

Nossa Senhora: “Uns sim, outros não.17 É preciso que se emendem, que peçam perdão dos seus pecados”. E tomando um aspecto triste: “Não ofendam mais a Deus Nosso Senhor que já está muito ofendido”. 18

Em seguida, abrindo as mãos, Nossa Senhora fê-las refletir no sol, e enquanto Se elevava, continuava o reflexo da sua própria luz a projetar-se no sol.

Lúcia, nesse momento, exclamou: “Olhem para o sol!”

[Três quadros simbólicos dos mistérios do Rosário:]

Desaparecida Nossa Senhora na imensa distância do firmamento, desenrolaram-se aos olhos dos videntes três quadros, sucessivamente, simbolizando primeiro os mistérios gozosos do Rosário, depois os dolorosos e por fim os gloriosos (apenas Lúcia viu os três quadros; Francisco e Jacinta viram apenas o primeiro):

Apareceram, ao lado do sol, São José com o Menino Jesus, e Nossa Senhora do Rosário. Era a Sagrada Família. A Virgem estava vestida de branco, com um manto azul. São José também se vestia de branco e o Menino Jesus de vermelho claro. São José abençoou a multidão, traçando três vezes o sinal da Cruz. O Menino Jesus fez o mesmo.

Seguiu-se a visão de Nossa Senhora das Dores e de Nosso Senhor acabrunhado de dor no caminho do Calvário. Nosso Senhor traçou um sinal da Cruz para abençoar o povo. Nossa Senhora não tinha a espada no peito. Lúcia via apenas a parte superior do Corpo de Nosso Senhor.

Finalmente apareceu, numa visão gloriosa, Nossa Senhora do Carmo, coroada Rainha do Céu e da Terra, com o Menino Jesus ao colo.

[O milagre do sol]

Enquanto estas cenas se desenrolavam aos olhos dos videntes, a grande multidão de 50 a 70 mil espectadores assistia ao milagre do sol.

Chovera durante toda a aparição. Ao encerrar-se o colóquio de Lúcia com Nossa Senhora, no momento em que a Santíssima Virgem Se elevava e que Lúcia gritava “Olhem para o sol!”, as nuvens se entreabriram, deixando ver o sol como um imenso disco de prata.

Brilhava com intensidade jamais vista, mas não cegava. Isto durou apenas um instante. A imensa bola começou a “bailar”. Qual gigantesca roda de fogo, o sol girava rapidamente.

Parou por certo tempo, para recomeçar, em seguida, a girar sobre si mesmo, vertiginosamente. Depois seus bordos tornaram-se escarlates e deslizou no céu, como um redemoinho, espargindo chamas vermelhas de fogo.

Essa luz refletia-se no solo, nas árvores, nos arbustos, nas próprias faces das pessoas e nas roupas, tomando tonalidades brilhantes e diferentes cores.

Animado três vezes de um movimento louco, o globo de fogo pareceu tremer, sacudir-se e precipitar-se em ziguezague sobre a multidão aterrorizada.

Durou tudo uns dez minutos. Finalmente o sol voltou em ziguezague para o ponto de onde se tinha precipitado, ficando novamente tranqüilo e brilhante, com o mesmo fulgor de todos os dias.

O ciclo das aparições havia terminado.

Muitas pessoas notaram que suas roupas, ensopadas pela chuva, tinham secado subitamente.

O milagre do sol foi observado também por numerosas testemunhas situadas fora do local das aparições, até a 40 quilômetros de distância.

(Cfr. II Memória, p. 162; IV Memória, pp. 348 e 350; De Marchi, pp. 165-166; Walsh, pp. 129-131; Ayres da Fonseca, pp. 91-93; Galamba de Oliveira, pp. 95-97).

Icone-pronto.png

Algumas visões particulares

No pouco tempo que passaram na terra depois das aparições, e mesmo no período abrangido por estas, Francisco e Jacinta, mas sobretudo esta última, tiveram isoladamente diversas visões. Relataremos aqui as principais.

Francisco: graças místicas do mais elevado grau:

“O Francisco — diz a Irmã Lúcia — pareceu ser o que menos se impressionou com a vista do Inferno” (IV Memória, p. 266). O Pe. Joaquín María Alonso opina que a percepção mística de Francisco era do mais alto grau e, por isso, “a própria visão do inferno não o impressionou tanto, certamente porque contemplou o mistério da Iniqüidade à luz superior da contemplação mística” (Doctrina y espiritualidad del mensaje de Fátima, p. 122). “O que mais o impressionava ou absorvia — comenta a Irmã Lúcia — era Deus, a Santíssima Trindade, nessa luz imensa que nos penetrava no mais íntimo da alma” (IV Memória, p. 266).

O que não impediu que, em outras visões de menor porte, tremesse de medo diante da visão do demônio. A Irmã Lúcia assim descreve essa cena:
“Andávamos, um dia, num sítio chamado Pedreira, e, enquanto as ovelhas pastavam, saltávamos de penedo em penedo, fazendo ecoar a voz no fundo desses grandes barrancos. O Francisco, como era seu costume, retirou-se lá para a concavidade de um penedo.

Passado um bom bocado, ouvimo-lo gritar e chamar por nós e por Nossa Senhora. Aflitas pelo que lhe teria acontecido, começamos a procurá-lo, chamando por ele.

— Onde estás?

— Aqui! Aqui!

Mas ainda nos levou tempo a encontrá-lo. Por fim, lá demos com ele, a tremer de medo, ainda de joelhos, que, aflito, nem arte tinha tido para se pôr de pé.

— Que tens?! Que foi?!

Com a voz meio sufocada pelo susto, lá disse: ‘Era um daqueles bichos grandes, que estavam no Inferno, que estava aqui a deitar lume [pôr fogo]’” (IV Memória, pp. 288, 290).

“Que luz tão bonita, ali, junto da nossa janela”

Francisco, o que mais queria era consolar a Nosso Senhor ofendido pelos pecados dos homens. Assim, nas vésperas de morrer, disse à Lúcia:

“— Olha! Estou muito mal; já me falta pouco para ir para o Céu.

— Então vê lá: não te esqueças de lá pedir muito pelos pecadores, pelo Santo Padre, por mim e pela Jacinta.

— Sim, eu peço; mas olha: essas coisas pede-as antes à Jacinta, que eu tenho medo de me esquecer quando vir a Nosso Senhor! E, depois, antes O quero consolar” (IV Memória, p. 304).

Por isso certamente foi premiado com uma visão celeste pouco antes de morrer. Narra o Pe. Fernando Leite SJ: “Nesse dia 4 de abril de 1919, a certa altura exclamou: — ‘Ó minha mãe, que luz tão bonita, ali, junto da nossa janela!’. — E depois de alguns minutos de doce enleio: — ‘Agora já não vejo’ (Inquérito Paroquial de 28 de setembro de 1923). — Passado pouco tempo, o seu rosto iluminou-se com um sorriso angélico e, pelas 10 horas da manhã, sem agonia, sem uma contração, sem um gemido, expirou docemente” (Francisco de Fátima, p. 154).

É lícito supor que foi o próprio Deus, que é luz infinitamente bela, que assim se manifestou no derradeiro momento ao confidente da Virgem.
https://aparicaodelasalette.blogspot.com/p/fatima-pagina-2.html

"Eu vi o Santo Padre…"

[Tal como o Francisco, Jacinta se compenetrou profundamente de tudo quanto viu e ouviu durante o ciclo das aparições de 1917 (bem como das aparições do Anjo, no ano anterior), e foi depois favorecida com várias visões particulares de Nossa Senhora ou relativas a aspectos da mensagem de Fátima:]

Numa ocasião, aproximamente ao meio-dia, junto ao poço da casa dos pais de Lúcia, Jacinta perguntou a Lúcia:

— “Não viste o Santo Padre?”

— “Não”.

— “Não sei como foi, eu vi o Santo Padre numa casa muito grande, de joelhos diante de uma mesa, com as mãos no rosto a chorar; fora da casa estava muita gente e uns atiravam-lhe pedras, outros rogavam-lhe pragas e diziam-lhe muitas palavras feias. Coitadinho do Santo Padre, temos que pedir muito por ele!” (cfr. III Memória, p. 228; De Marchi, pp. 98-99; Walsh, p. 85; Ayres da Fonseca, p. 136).

Numa tarde de agosto de 1917, estando os videntes sentados nos rochedos do outeiro do Cabeço, Jacinta pôs-se subitamente a rezar a oração que o Anjo lhes ensinara, e depois de um profundo silêncio disse à prima:

— “Não vês tanta estrada, tantos caminhos e campos cheios de gente a chorar com fome e não têm nada para comer? E o Santo Padre numa igreja diante do Imaculado Coração de Maria a rezar? E tanta gente a rezar com ele?” (cfr. III Memória, p. 228; De Marchi, p. 99; Walsh, p. 84; Ayres da Fonseca, p. 137).

[A Irmã Lúcia acrescenta: “Passados alguns dias, perguntou-me: posso dizer que vi o Santo Padre e toda aquela gente? — Não. Não vês que isso faz parte do Segredo?! Que por aí logo se descobria? — Está bem; então não digo nada” (III Memória, p. 228)]

Um dia, em casa de Jacinta, Lúcia encontrou-a muito pensativa e interrogou-a:

— “Jacinta, que estás a pensar?”

— “Na guerra que há de vir. Há de morrer tanta gente! E vai quase toda para o inferno! Hão de ser arrasadas muitas casas e mortos muitos Padres. Olha, eu vou para o Céu, e tu quanto vires de noite essa luz que aquela Senhora disse que vem antes, foge para lá também” (cfr. III Memória, p. 228; De Marchi, p. 238; Walsh, p. 85; Ayres da Fonseca, pp. 161-162).

Últimas visões de Jacinta

Em fins de outubro de 1918, Francisco e Jacinta adoeceram, quase ao mesmo tempo. Indo visitá-los, Lúcia encontrou Jacinta no auge da alegria. Esta explicou-lhe a causa:

— “Nossa Senhora veio-nos ver, e disse que vem buscar o Francisco muito breve para o Céu. E a mim perguntou-me se queria ainda converter mais pecadores. Disse-lhe que sim. Disse-me que ia para um hospital, que lá sofreria muito. Que sofresse pela conversão dos pecadores, em reparação dos pecados contra o Imaculado Coração de Maria, e por amor de Jesus. Perguntei se tu ias comigo. Disse que não. Isto é o que me custa mais. Disse que ia minha mãe levar-me, e, depois, fico lá sozinha!” (cfr. I Memória, p. 70; De Marchi, p. 227; Walsh, p. 146; Ayres da Fonseca, p. 153).

Durante a doença dos dois videntes, Lúcia visitava-os freqüentemente. Conversavam então longamente sobre os acontecimentos de que tinham sido protagonistas. Transcrevemos algumas observações de Jacinta:

— “Já me falta pouco para ir para o Céu. Tu ficas cá para dizeres que Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao Imaculado Coração de Maria. Quando for para dizeres isso, não te escondas, dize a toda a gente que Deus nos concede as graças por meio do Coração Imaculado de Maria, que Lhas peçam a Ela, que o Coração de Jesus quer que, a seu lado, se venere o Coração Imaculado de Maria. Que peçam a paz ao Imaculado Coração de Maria, que Deus Lha entregou a Ela. Se eu pudesse meter no coração de toda a gente o lume que tenho cá dentro no peito a queimar-me e a fazer-me gostar tanto do Coração de Jesus e do Coração de Maria!” (cfr. III Memória, p. 234; De Marchi, p. 244; Walsh, p. 156).

— “Olha, sabes? Nosso Senhor está triste porque Nossa Senhora disse-nos para não O ofenderem mais, que já estava muito ofendido e ninguém fez caso; continuam a fazer os mesmos pecados” (cfr. III Memória, p. 236; De Marchi, p. 243; Walsh, p. 157).

Em fins de dezembro de 1919, Nossa Senhora apareceu novamente à Jacinta, que assim relatou o fato à prima:

— “Disse-me que vou para Lisboa, para outro hospital;19 que não te torno a ver, nem a meus pais; que depois de sofrer muito, morro sozinha; mas que não tenha medo, que me vai lá Ela a buscar para o Céu” (cfr. I Memória, pp. 74 e 76; De Marchi, p. 245; Walsh, p. 157; Ayres da Fonseca, p. 162).

“Quem te ensinou tantas coisas?”

Transportada para Lisboa, Jacinta ficou primeiramente num orfanato contíguo à Igreja de Nossa Senhora dos Milagres, sendo depois levada para o Hospital Dona Estefânia. No primeiro destes estabelecimentos foi assistida pela Madre Maria da Purificação Godinho, que tomou nota — embora nem sempre literalmente — de suas últimas palavras.

Reproduzimos abaixo algumas delas, repassadas de tom profético e cheias de unção e ensinamentos, aliás em perfeita consonância com o teor geral da mensagem de Fátima. Por isso são recebidas em geral como autênticas pelos estudiosos de Fátima. De Marchi publica-as agrupadas por assunto.

Sobre a guerra

“Nossa Senhora disse que no mundo há muitas guerras e discórdias.

As guerras não são senão castigos pelos pecados do mundo.

Nossa Senhora já não pode suster o braço do seu amado Filho sobre o mundo.

É preciso fazer penitência. Se a gente se emendar, ainda Nosso Senhor valerá ao mundo; mas, se não se emendar, virá o castigo.

Nosso Senhor está profundamente indignado com os pecados e crimes que se cometem em Portugal. Por isto, um terrível cataclismo de ordem social ameaça o nosso País e principalmente a cidade de Lisboa. Desencadear-se-á, segundo parece, uma guerra civil de caráter anarquista ou comunista, acompanhada de saques, morticínios, incêndios e devastações de toda espécie. A capital converter-se-á numa verdadeira imagem do inferno. Na ocasião em que a Divina Justiça ofendida infligir tão pavoroso castigo, todos aqueles que o puderem fazer fujam dessa cidade. Este castigo agora predito convém que seja anunciado pouco a pouco e com a devida discrição” (cfr. De Marchi, p. 255; Walsh, pp. 160-161).

“Se os homens não se emendarem, Nossa Senhora enviará ao mundo um castigo como não se viu igual, e, antes dos outros países, à Espanha” (De Marchi, p. 92).

Jacinta falava também de “grandes acontecimentos mundiais que se deviam realizar por volta de 1940” (De Marchi, p. 92).

Sobre os sacerdotes e os governantes

“Minha madrinha, peça muito pelos pecadores!

Peça muito pelos Padres!

Peça muito pelos Religiosos!

Os Padres só deviam ocupar-se das coisas da Igreja.

Os Padres devem ser puros, muito puros.

A desobediência dos Padres, e dos Religiosos aos seus Superiores e ao Santo Padre ofende muito a Nosso Senhor.

Minha madrinha, peça muito pelos governos!

Ai dos que perseguem a Religião de Nosso Senhor!

Se o governo deixasse em paz a Igreja e desse a liberdade à Santa Religião, era abençoado por Deus” (De Marchi, pp. 255-256; Walsh, p. 161).

Sobre o pecado

“Os pecados que levam mais almas para o inferno são os pecados da carne.

Hão de vir umas modas que hão de ofender muito a Nosso Senhor.

As pessoas que servem a Deus não devem andar com a moda. A Igreja não tem modas. Nosso Senhor é sempre o mesmo.

Os pecados do mundo são muito grandes.

Se os homens soubessem o que é a eternidade, faziam tudo para mudar de vida.

Os homens perdem-se porque não pensam na morte de Nosso Senhor e não fazem penitência.

Muitos matrimônios não são bons, não agradam a Nosso Senhor e não são de Deus”.

Sobre as virtudes cristãs

“Minha madrinha, não ande no meio do luxo; fuja das riquezas.

Seja muito amiga da santa pobreza e do silêncio.

Tenha muita caridade, mesmo com quem é mau.

Não fale mal de ninguém e fuja de quem diz mal.

Tenha muita paciência, porque a paciência leva-nos para o Céu.

A mortificação e os sacrifícios agradam muito a Nosso Senhor.

A Confissão é um sacramento de misericórdia. Por isso é preciso aproximarem-se do confessionário com confiança e alegria. Sem confissão não há salvação.

A Mãe de Deus quer mais almas virgens, que se liguem a Ela pelo voto de castidade.

Para ser Religiosa é preciso ser muito pura na alma e no corpo”.

— “E sabes tu o que quer dizer ser pura?” — perguntou a Madre Godinho.

— “Sei, sei. Ser pura no corpo é guardar a castidade; e ser pura na alma é não fazer pecados; não olhar para o que não se deve ver, não roubar, não mentir nunca, dizer sempre a verdade ainda que nos custe…”

“Quem não cumpre as promessas que faz a Nossa Senhora nunca terá felicidade nas suas coisas.

“Os médicos não têm luz para curar bem os doentes, porque não têm amor de Deus”.

— “Quem foi que te ensinou tantas coisas?” — pergunta a Madre Godinho.

— “Foi Nossa Senhora; mas algumas penso-as eu. Gosto muito de pensar” (De Marchi, pp. 254-256; Walsh, pp. 161-162).

Notando que muitas visitas conversavam e riam na capela do orfanato, Jacinta pediu à Madre Godinho que as advertisse da falta de respeito que isso constituía para com a Presença real. Não dando tal medida resultados satisfatórios, pedia que comunicasse isso ao Cardeal: “Nossa Senhora não quer que a gente fale na igreja” (De Marchi, p. 252; Walsh, p. 160).

Últimos dias de Jacinta

Durante a sua curta permanência no hospital, Jacinta foi favorecida com novas visitas de Nossa Senhora, que lhe anunciou o dia e a hora em que haveria de morrer. Quatro dias antes de a levar para o Céu, a Santíssima Virgem tirou-lhe todas as dores.

Nas vésperas de sua morte, alguém perguntou-lhe se queria ver a mãe. Jacinta respondeu:

— “A minha família durará pouco tempo e em breve se encontrarão no Céu… Nossa Senhora aparecerá outra vez, mas não a mim, porque com certeza morro, como Ela me disse…” (De Marchi, p. 262).

Nossa Senhora veio buscar Jacinta no dia 20 de fevereiro de 1920.

Jacinta foi sepultada no cemitério de Vila Nova de Ourém. Francisco o fora, anteriormente, no cemitério de Fátima. Em 12 de setembro de 1935, os restos mortais de Jacinta foram transladados para o cemitério de Fátima, onde foram depositados num jazigo novo especialmente construído para ela e seu irmão. Na lápide, uma inscrição singela dizia: “Aqui repousam os restos mortais de Francisco e Jacinta, a quem Nossa Senhora apareceu”.

Mais tarde (em 1951 e 1952, respectivamente), os preciosos despojos foram levados para o transepto da Basílica de Fátima, onde se encontram.

Os processos canônicos preparatórios para a beatificação dos dois videntes de Fátima foram oficialmente iniciados em 1949. A comunicação das graças obtidas por intercessão dos Servos de Deus Francisco e Jacinta deve ser feita ao Vice-postulador da Causa (Paço Episcopal, Leiria, Portugal) [E em 28 de junho de 1999 foi exarado o decreto reconhecendo a autenticidade do milagre necessário para a beatificação. Por fim, no dia 13 de maio de 2000, S.S. João Paulo II deslocou-se pessoalmente ao Santuário de Fátima, onde procedeu solenemente, perante uma multidão calculada em 400 mil pessoas, à beatificação dos servos de Deus Francisco e Jacinta Marto, cuja festa celebrar-se-á anualmente, “nos lugares e segundo as normas do direito, no dia 20 de fevereiro” (Voz da Fátima, 13-6-2000).]

Icone-pronto.png

A missão da Irmã Lúcia

Quando da segunda aparição, ao pedido de Lúcia para que a levasse para o Céu juntamente com seus primos, Nossa Senhora lhe respondeu, como vimos:

— “Sim, à Jacinta e ao Francisco levo-os em breve. Mas tu ficas cá mais algum tempo. Jesus quer servir-Se de ti para Me fazer conhecer e amar. Ele quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração”.

Estas palavras indicam claramente que Lúcia, além de depositária dos segredos revelados por Nossa Senhora, ficava nesta terra para desempenhar uma determinada missão.

[A sétima aparição]

[Antes de mais nada,] cabe lembrar, ainda, que, logo na primeira aparição, no dia 13 de maio, Nossa Senhora anunciara:

— “Vim para vos pedir que venhais aqui seis meses seguidos, no dia 13, a esta mesma hora. Depois vos direi quem sou e o que quero. Depois voltarei ainda aqui uma sétima vez”.

Devia, portanto, dar-se uma sétima aparição de Nossa Senhora, na Cova da Iria. Quando? O que Nossa Senhora queria comunicar ou manifestar nela aos homens? Seja como for, era normal admitir que a Irmã Lúcia deveria ser, ainda uma vez, a confidente de Nossa Senhora na Cova da Iria.

Assim, a não ser que esta sétima aparição se tenha dado secretamente, representaria ela uma das grandes expectativas do assunto Fátima.
[Com o desaparecimento da Irmã Lúcia, ela evidentemente não poderá mais ser a privilegiada vidente dessa aparição, se e quando vier a ocorrer.]

O itinerário de Lúcia

A 17 de junho de 1921, Lúcia partiu de Aljustrel para o Porto, e foi recebida como aluna interna no Colégio das Irmãs Dorotéias, em Vilar, subúrbio desta última cidade. Em 24 de outubro de 1925 ingressa no Instituto de Santa Dorotéia, sendo então admitida como postulante no convento dessa Congregação em Tuy, na Espanha, junto da fronteira com Portugal. A 2 de outubro de 1926 é noviça. A 3 de outubro de 1928 pronuncia seus primeiros votos como Irmã conversa. Seis anos depois, no mesmo dia de outubro, emite votos perpétuos. Toma o nome de religião de Irmã Maria das Dores.

Por ocasião da revolução comunista na Espanha, é transferida, por motivos de segurança, para o Colégio do Sardão, em Vila Nova de Gaia (Portugal), onde permanece durante algum tempo.

Mais tarde, no dia 26 de maio de 1946, a Irmã Lúcia pôde rever o local das aparições, tendo estado na Cova da Iria, na gruta do Cabeço e no sítio dos Valinhos.

Posteriormente, em 25 de março de 1948, deixou o Instituto de Santa Dorotéia para ingressar no Carmelo de São José, em Coimbra, com o nome de Irmã Maria Lúcia de Jesus e do Coração Imaculadonn. A 13 de maio do mesmo ano vestiu o hábito de Santa Teresa, e no dia 31 de maio de 1949 professou como Carmelita descalça.

Sobre os motivos pelos quais a Irmã Lúcia deixou o Instituto de Santa Dorotéia para ingressar no Carmelo de Coimbra, o Bispo-Conde desta cidade assim se exprime, em carta de 27 de maio de 1948, ao Pe. José Aparício SJ, antigo diretor espiritual da vidente: “De fato, a vidente passou no dia 25 de março para o Carmelo desta cidade, porque o Santo Padre, a pedido dela, ordenou que não levantasse dificuldades à sua transferência, pois era perturbada por inúmeras visitas, algumas das quais bem impertinentes e curiosas, que a atormentavam sem proveito para ninguém. […] Diz ela que nunca sentiu tanta paz e alegria como naquele asilo, o qual não trocaria por tudo quanto há no mundo. Em vista do desejo do Santo Padre, não recebe cartas nem visitas, mas dou-lhe conhecimento, por escrito, das necessidades de pessoas que se lhe recomendam. Ainda não abri uma exceção. […] Só é permitido que a visitem os que obtiverem licença da Santa Sé” (cfr. Pe. Luiz Gonzaga Mariz SJ, Fátima, onde o céu tocou a terra, p. 32).

As revelações posterioses a 1917; devoção dos cinco primeiros sábados

No segredo de julho, Nossa Senhora dissera:

— “Virei pedir a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados”.

A mensagem de Fátima não estava, pois, definitivamente encerrada com o ciclo de aparições da Cova da Iria, em 1917.

No dia 10 de dezembro de 1925, a Santíssima Virgem, tendo ao lado o Menino Jesus sobre uma nuvem luminosa, apareceu à Irmã Lúcia, em sua cela, na Casa das Dorotéias, em Pontevedra (Espanha). Pondo-lhe uma das mãos ao ombro, mostrou-lhe um Coração rodeado de espinhos, que tinha na outra mão. O Menino Jesus, apontando para ele, exortou a vidente com as seguintes palavras: “Tem pena do Coração de tua Santíssima Mãe, que está coberto de espinhos que os homens ingratos a todos os momentos Lhe cravam, sem haver quem faça um ato de reparação para os tirar”.

A Santíssima Virgem acrescentou: “Olha, minha filha, o meu Coração cercado de espinhos que os homens ingratos a todos os momentos Me cravam com blasfêmias e ingratidões. Tu, ao menos, vê de Me consolar, e dize que todos aqueles que durante cinco meses, no primeiro sábado, se confessarem, recebendo a Sagrada Comunhão, rezarem um terço e Me fizerem quinze minutos de companhia meditando nos quinze mistérios do Rosário com o fim de Me desagravar, Eu prometo assisti-los na hora da morte com todas as graças necessárias para a salvação dessas almas” (cfr. Memórias e Cartas da Irmã Lúcia, p. 400; Ayres da Fonseca, pp. 350-351; Walsh, p. 196; De Marchi, ed. em inglês, pp. 152-153; Fazenda, pp. X-XI).

No dia 15 de fevereiro de 1926, o Menino Jesus torna a aparecer à Irmã Lúcia, em Pontevedra, perguntando-lhe se já havia divulgado a devoção à sua Santíssima Mãe. A vidente dá conta de dificuldades apresentadas pelo confessor, e explica que a Superiora estava pronta a propagá-la, mas que aquele Sacerdote havia dito que sozinha a Madre nada podia. Jesus respondeu: — “É verdade que a tua Superiora só nada pode, mas com a minha graça pode tudo”. A Irmã Lúcia expôs a dificuldade de algumas pessoas de se confessarem no sábado, e pediu para ser válida a confissão de oito dias. Jesus respondeu: — “Sim, pode ser de muitos mais dias ainda, contanto que, quando Me receberem, estejam em graça e tenham a intenção de desagravar o Imaculado Coração de Maria”. A Irmã Lúcia ainda levantou a hipótese de alguém esquecer de formar a intenção ao confessar-se, ao que Nosso Senhor respondeu: — “Podem formá-la na outra confissão seguinte, aproveitando a primeira ocasião que tiverem de se confessar” (cfr. Memórias e Cartas da Irmã Lúcia, p. 400; Fazenda, pp. XI-XII; Ayres da Fonseca, p. 351; De Marchi, ed. em inglês, p. 153).

Na vigília de 29 para 30 de maio de 1930, Nosso Senhor, falando interiormente à Irmã Lúcia, resolveu ainda outra dificuldade: “Será igualmente aceita a prática desta devoção no domingo seguinte ao primeiro sábado, quando os meus Sacerdotes, por justos motivos, assim o concederem às almas” (cfr. Memórias e Cartas da Irmã Lúcia, p. 410).

Na mesma ocasião, Nosso Senhor responde a outra consulta que o Pe. José Bernardo Gonçalves SJ dirigira, como a anterior, à Irmã Lúcia: “Por que hão de ser ‘cinco sábados’, e não nove, ou sete em honra das dores de Nossa Senhora?”

“Minha filha, o motivo é simples, são cinco as espécies de ofensas e blasfêmias proferidas contra o Imaculado Coração de Maria:

1º — As blasfêmias contra a Imaculada Conceição;
2º — Contra a sua Virgindade;
3º — Contra a Maternidade Divina, recusando, ao mesmo tempo, recebê-La como Mãe dos homens;
4º — Os que procuram publicamente infundir, nos corações das crianças, a indiferença, o desprezo, e até o ódio para com esta Imaculada Mãe;
5º — Os que a ultrajam diretamente nas suas sagradas imagens” (cfr. Memórias e Cartas da Irmã Lúcia, pp. 408-410).

A divulgação [da primeira e da segunda parte] do Segredo

A 17 de dezembro de 1927 Lúcia foi para junto do sacrário, na Capela da Casa das Dorotéias em Tuy, perguntar a Nosso Senhor como satisfaria a ordem do confessor de colocar por escrito algumas graças recebidas de Deus, se nelas estava encerrado o segredo que a Santíssima Virgem lhe tinha confiado. Jesus, com voz clara, fez-lhe ouvir estas palavras: — “Minha filha, escreve o que te pedem; e tudo o que te revelou a Santíssima Virgem na aparição em que falou desta devoção [ao Imaculado Coração de Maria] escreve-o também. Quanto ao resto do segredo, continua o silêncio” (cfr. Memórias e Cartas da Irmã Lúcia, p. 400; Ayres da Fonseca, p. 34).

Em conseqüência da ordem assim recebida, Lúcia revelou o que se passara na aparição de junho.

Mais tarde, em 1941, quando o Bispo de Leiria lhe ordenou que recordasse tudo o mais que pudesse interessar à história da vida de Jacinta, para uma nova edição que queriam mandar imprimir, a vidente, obtida licença do Céu, revelou duas das três partes do segredo de julho.

São suas palavras:

— “O segredo consta de três coisas distintas, duas das quais vou revelar.

A primeira foi, pois, a vista do inferno”.

E segue-se a narração das duas partes do segredo, conforme a reproduzimos no devido lugar, ao relatar a aparição de julho (cfr. III Memória, pp. 216-220; Ayres da Fonseca, pp. 43-44; Galamba de Oliveira, p. 146).

O itinerário da terceira parte do Segredo até a sua divulgação oficial:
Quanto à terceira parte do Segredo, a vidente escreveu-a na Casa das Dorotéias, em Tuy (Espanha), no dia 3 de janeiro de 1944, ao que parece numa folha só de papel de carta pautado, dobrada ao meio, de modo a constituir um fólio de 4 páginas (no formato aproximado de 12 x 18 cm, com 16 pautas por página). Sabe-se que a Irmã Lúcia o fez a instâncias do Bispo de Leiria, por ocasião de uma grave enfermidade por que passou, conforme já historiamos na Introdução deste trabalho.

Em carta do dia 9 de janeiro, a Irmã Lúcia comunicou ao Prelado que o texto estava redigido e à disposição dele, num envelope lacrado, do modo que ele determinara.

No dia 17 de junho, a pedido do Bispo de Leiria, o Bispo titular de Gurza, D. Manuel Maria Ferreira da Silva, dirigiu-se para Valença, cidade portuguesa limítrofe com Tuy, à margem do Rio Minho. Ali, no Asilo Fonseca, recebeu das mãos da Irmã Lúcia, que também para lá se deslocara, o precioso documento. E na mesma tarde o entregou a D. José, na Quinta da Formigueira, casa de campo do Prelado nos arredores de Braga.

Em Leiria, D. José o colocou em outro envelope maior, também lacrado, e o depositou na caixa forte da Cúria. Do lado de fora do envelope maior escreveu: “Este envelope, com seu conteúdo, será entregue a Sua Eminência o Sr. Cardeal D. Manuel, patriarca de Lisboa, após a minha morte. Leiria, 8 de dezembro de 1945. José, Bispo de Leiria”.

Da caixa-forte da Cúria, o documento só saiu em raríssimas ocasiões, simplesmente para ser contemplado por fora por algumas pessoas privilegiadas. De uma dessas ocasiões é a célebre foto do Bispo de Leiria tendo à frente o envelope lacrado. O Prelado consentira em deixar-se fotografar pela revista Life, que a publicou em 3 de janeiro de 1949.

Ao encaminhar o envelope lacrado ao Bispo de Leiria, a Irmã Lúcia escrevera no envelope exterior que ele poderia ser aberto somente depois de 1960, pelo Patriarca de Lisboa ou pelo Bispo de Leiria.

Em princípios de 1957, a Sagrada Congregação do Santo Ofício (atual Congregação para a Doutrina da Fé) pediu que o Bispo de Leiria o remetesse para Roma. Levou-o então para a Nunciatura Apostólica em Lisboa o Bispo Auxiliar de Leiria, D. João Pereira Venâncio (cfr. Frère Michel de la Sainte Trinité, tomo III, pp. 320-321). De Lisboa, o Núncio Mons. Fernando Cento, depois Cardeal, conduziu-o até o Vaticano, onde deu entrada no Arquivo Secreto do Santo Ofício no dia 4 de abril de 1957.

Não consta que Pio XII, o qual faleceu em 9 de outubro de 1958, tenha tomado conhecimento do Segredo. O Pe. Leiber, íntimo colaborador desse Pontífice, diz que o boato segundo o qual o Papa teria chorado, ou até desmaiado, ao ler o Segredo, “é inteiramente gratuito; não houve nada disso” (apud J. M. Alonso, La verdad sobre el Secreto de Fátima, p. 43).

Como era natural, à medida que o ano de 1960 ia se aproximando, a curiosidade mundial em torno do Segredo ia aumentando.

No dia 8 de fevereiro de 1960, um despacho distribuído pela Agência Nacional de Informação, de Portugal, louvando-se em declarações de “círculos do Vaticano, altamente fidedignos” anunciava ser “muito provável que o ‘Segredo de Fátima’ seja mantido, para sempre, sob absoluto sigilo”. E esclarecia: “Perante as pressões que têm sido exercidas junto ao Vaticano, afirmaram os mesmos círculos, — umas para que a carta seja aberta e o seu conteúdo revelado ao mundo inteiro; outras, partindo da suposição de que na carta se conteriam vaticínios alarmantes, para que não seja publicada, — o Vaticano resolveu que o texto da carta da Irmã Lúcia não seja revelado, continuando a ser mantido sob rigoroso sigilo” (apud Sebastião Martins dos Reis, O Milagre do Sol e o Segredo de Fátima, pp. 127-128).

O que efetivamente se passara? — No dia 17 de agosto de 1959, João XXIII recebe das mãos do Pe. Pierre Paul Philippe OP (então Comissário do Santo Ofício, depois Cardeal) o envelope contendo o Segredo. Alguns dias depois o lê, com a ajuda do tradutor português da Secretaria de Estado, Mons. Paulo José Tavares (depois bispo de Macau) e decide não publicá-lo, devolvendo-o para o Santo Ofício (cfr. A Mensagem de Fátima, Apresentação de Mons. Tarcisio Bertone SDB, 26-6-2000; cfr. também Declaração de 20 de junho de 1977 de Mons. Loris Capovilla, secretário-particular de João XXIII, apud Pe. José Geraldes Freire, O Segredo de Fátima: a terceira parte é sobre Portugal?, pp. 136-137).

Também Paulo VI o leu, em 27 de março de 1965, tomando análoga decisão (cfr. Mons. Tarcisio Bertone, loc. cit.).

Em 11 de fevereiro de 1967, o Cardeal Alfredo Ottaviani, então prefeito do Santo Ofício, fez uma conferência — que se tornou famosa — na aula magna da Pontifícia Academia Mariana Internacional, em Roma, numa reunião preparatória do cinqüentenário das aparições de Fátima. Ele contou que estivera com a Irmã Lúcia no Carmelo de Coimbra, em maio de 1955, e perguntara à vidente qual a razão da data de 1960 para a abertura do Segredo. “Porque então ficará mais claro” — respondeu a vidente. “O que me faz pensar — comenta o Cardeal — que a mensagem era de tom profético, porque precisamente as profecias, como se vê na Sagrada Escritura, estão recobertas de um véu de mistério. Elas não são geralmente expressas em linguagem manifesta, clara, compreensível para todo mundo” (La Documentation Catholique, Paris, 19-3-67, p. 542).

https://aparicaodelasalette.blogspot.com/p/fatima-pagina-2.html

A consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria

No dia 13 de junho de 1929, a Irmã Lúcia teve uma esplêndida visão da Santíssima Trindade e do Imaculado Coração de Maria, durante a qual Nossa Senhora lhe comunicou que “era chegado o momento em que queria [que ela] participasse à Santa Igreja o seu desejo da consagração da Rússia, e a sua promessa de a converter”. É a própria Irmã Lúcia quem escreve:

“Eu tinha pedido e obtido licença das minhas superioras e do confessor para fazer a Hora Santa das onze à meia-noite, de quintas para sextas-feiras. Estando uma noite só, ajoelhei-me entre a balaustrada, no meio da capela, a rezar prostrada as orações do Anjo. Sentindo-me cansada, ergui-me e continuei a rezá-las com os braços em cruz. A única luz era a da lâmpada. De repente iluminou-se toda a capela com uma luz sobrenatural, e sobre o altar apareceu uma Cruz de luz que chegava até o teto. Numa luz mais clara, via-se na parte superior da Cruz, uma face de homem com corpo até à cintura [o Padre Eterno], sobre o peito uma pomba de luz [o Divino Espírito Santo], e pregado na Cruz o corpo de outro homem [Nosso Senhor Jesus Cristo]. Um pouco abaixo da cintura, suspenso no ar, via-se um cálice e uma Hóstia grande, sobre a qual caíam algumas gotas de sangue que corriam pelas faces do Crucificado e de uma ferida do peito. Escorregando pela Hóstia, essas gotas caíam dentro do cálice. Sob o braço direito da Cruz estava Nossa Senhora (era Nossa Senhora de Fátima com o seu Imaculado Coração na mão esquerda, sem espada nem rosas, mas com uma coroa de espinhos e chamas)… Sob o braço esquerdo [da Cruz], umas letras grandes, como se fossem de água cristalina que corresse para cima do altar, formavam estas palavras: ‘Graça e Misericórdia’.

Compreendi que me era mostrado o Mistério da Santíssima Trindade, e recebi luzes sobre este Mistério que não me é permitido revelar.

Depois Nossa Senhora disse-me: “É chegado o momento em que Deus pede para o Santo Padre fazer, em união com todos os Bispos do mundo, a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração, prometendo salvá-la por este meio. São tantas as almas que a Justiça de Deus condena por pecados contra Mim cometidos, que venho pedir reparação: sacrifica-te por esta intenção e ora” (cfr. Memórias e Cartas da Irmã Lúcia, pp. 462 e 464). nn.

Através de seus confessores e do Bispo de Leiria, a vidente fez com que o pedido de Nossa Senhora chegasse, ainda naquele ano, ao conhecimento do Papa Pio XI, o qual prometeu tomá-lo em consideração (cfr. De Marchi, p. 311; Walsh, p. 198).

Em carta de 29 de maio de 1930 ao seu confessor Pe. José Bernardo Gonçalves SJ, a Irmã Lúcia relata que Nosso Senhor, tendo-lhe feito sentir no fundo do coração a sua Divina Presença, instou-lhe a pedir ao Santo Padre a aprovação da devoção reparadora dos Primeiros Sábados. São palavras da vidente: “Se me não engano, o bom Deus promete terminar a perseguição na Rússia se o Santo Padre se dignar fazer, e mandar que o façam igualmente os Bispos do mundo católico, um solene e público ato de reparação e consagração da Rússia aos Santíssimos Corações de Jesus e Maria, prometendo, Sua Santidade, mediante o fim desta perseguição, aprovar e recomendar a prática da já indicada devoção reparadora” (cfr. Memórias e Cartas da Irmã Lúcia, p. 404).

Mais tarde, por meio de outra comunicação íntima, Nosso Senhor queixou-Se à Irmã Lúcia de que a consagração da Rússia não tinha sido feita: “Não quiseram atender ao meu pedido. Como o Rei de França, arrepender-se-ão, e fá-la-ão, mas será tarde (nn). A Rússia terá já espalhado os seus erros pelo mundo, provocando guerras, perseguições à Igreja: o Santo Padre terá muito que sofrer” (cfr. Memórias e Cartas da Irmã Lúcia, p. 464).

Em 21 de janeiro de 1935, em carta ao Pe. José Bernardo Gonçalves SJ, a Irmã Lúcia declara que “Nosso Senhor estava bastante descontente por não se realizar o seu pedido” (cfr. Memórias e Cartas da Irmã Lúcia, p. 412).

Em carta ao mesmo Pe. Gonçalves, de 18 de maio de 1936, a Irmã Lúcia esclarece:

“Quanto à outra pergunta: se será conveniente insistir para obter a consagração da Rússia, — respondo quase o mesmo que das outras vezes tenho dito. Sinto que não se tenha já feito; mas o mesmo Deus que a pediu, é que assim o permitiu […] Se é conveniente insistir? Não sei. Parece-me que, se o Santo Padre agora o fizesse, Nosso Senhor a aceitava e cumpria a sua promessa; e, sem dúvida, seria um gosto que dava a Nosso Senhor e ao Imaculado Coração de Maria.

Intimamente, tenho falado a Nosso Senhor do assunto; e há pouco perguntava-Lhe por que não convertia a Rússia sem que Sua Santidade fizesse essa consagração: ‘Porque quero que toda a minha Igreja reconheça essa consagração como um triunfo do Coração Imaculado de Maria, para depois estender o seu culto e pôr, ao lado da devoção do meu Divino Coração, a devoção deste Imaculado Coração’. Mas, meu Deus, o Santo Padre não me há-de crer, se Vós mesmo o não moveis com uma inspiração especial. ‘O Santo Padre! Ora muito pelo Santo Padre. Ele há-de fazê-la, mas será tarde. No entanto, o Imaculado Coração de Maria há-de salvar a Rússia. Está-Lhe confiada’” (cfr. Memórias e Cartas da Irmã Lúcia, pp. 412 e 414).

Como se vê, a Irmã Lúcia acompanha de perto o que se passa no mundo relativamente aos pedidos de Nosso Senhor e de Nossa Senhora. Mas nem sempre toma conhecimento dos fatos pelas vias de informação normais. Diz ela ao Pe. Gonçalves, em carta de 21 de janeiro de 1940: “Coisas desse gênero [alguns artigos de revista que queriam que ela visse], só costumo ler o que os Superiores determinadamente me mandam. […] De resto, as minhas Superioras gostam que me conserve em ignorância do que se vai passando, e eu sou contente; não tenho curiosidade. Quando Nosso Senhor quer que saiba alguma coisa, encarrega-Se de mo fazer conhecer. Tem para isso tantos meios!” (cfr. Memórias e Cartas da Irmã Lúcia, p. 420).

Ainda para o Pe. Gonçalves, ela escreve a 24 de abril de 1940:

“Ele [Nosso Senhor], se quiser, pode fazer que a causa ande depressa. Mas, para castigo do mundo, deixará que vá devagar. A sua Justiça, provocada pelos nossos pecados, assim o exige. Desgosta-se, às vezes, não só pelos grandes pecados, mas também pela nossa frouxidão e negligência em atender aos seus pedidos.

[…] São muitos os crimes, mas, sobretudo, é muito maior agora a negligência das almas de quem Ele esperava ardor no seu serviço. É muito limitado o número daquelas com quem Ele Se encontra” (cfr. Memórias e Cartas da Irmã Lúcia, pp. 420 e 427). nn

A Irmã Lúcia volta aos mesmos pensamentos em carta de 18 de agosto de 1940, sempre ao Pe. Gonçalves:

“Suponho que é do agrado de Nosso Senhor que haja quem se vá interessando, junto do seu Vigário na terra, pela realização dos seus desejos. Mas o Santo Padre não o fará já. Duvida da realidade, e tem razão. O nosso bom Deus podia, por meio de algum prodígio, mostrar claro que é Ele que o pede; mas aproveita-se deste tempo para, com a sua Justiça, punir o mundo de tantos crimes, e prepará-lo para uma volta mais completa para Si nn. A prova que nos concede é a proteção especial do Imaculado Coração de Maria, sobre Portugal, em vista da consagração que lhe fizeram nn.

Essa gente, de que me fala, tem razão de estar assustada. Tudo isso nos aconteceria, se os nossos Prelados não tivessem atendido aos pedidos do nosso bom Deus, e implorado tanto de coração a sua Misericórdia e a proteção do Imaculado Coração da nossa boa Mãe do Céu. Mas na nossa Pátria há ainda muitos crimes e pecados; e como agora é a hora da Justiça de Deus sobre o mundo, é preciso que se continue a orar. Por isso, eu achava bem que incutissem nas pessoas, a par duma grande confiança na Misericórdia do nosso bom Deus e na proteção do Imaculado Coração de Maria, a necessidade da oração, acompanhada do sacrifício, sobretudo daquele que é preciso fazer para evitar o pecado” (cfr. Memórias e Cartas da Irmã Lúcia, p. 426).

Em carta datada de 2 de dezembro de 1940, a Irmã Lúcia dirigiu-se diretamente ao Papa Pio XII, por ordem de seus diretores espirituais, pedindo que Sua Santidade se dignasse abençoar a devoção dos Primeiros Sábados e estendê-la por todo o mundo, acrescentando:

“Em 1929, Nossa Senhora, por meio de outra aparição, pediu a consagração da Rússia a seu Imaculado Coração, prometendo, por este meio, impedir a propagação de seus erros, e a sua conversão.

[…] Em várias comunicações íntimas Nosso Senhor não tem deixado de insistir neste pedido, prometendo ultimamente, se Vossa Santidade se digna fazer a consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria, com menção especial pela Rússia, e ordenar que, em união com Vossa Santidade e ao mesmo tempo, a façam também todos os Bispos do mundo, abreviar os dias de tribulação com que tem determinado punir as nações de seus crimes, por meio da guerra, da fome e de várias perseguições à Santa Igreja e a Vossa Santidade” (cfr. Memórias e Cartas da Irmã Lúcia, p. 436; De Marchi, p. 312; Galamba de Oliveira, p. 153).

[A resposta dos Papas ao pedido de consagração]

No dia 31 de outubro de 1942, em Radiomensagem a Portugal por ocasião do encerramento do ano jubilar das aparições de Fátima, Pio XII consagrou a Igreja e o gênero humano ao Imaculado Coração de Maria.

Em 1943, a Irmã Lúcia teve outra revelação de Nosso Senhor, que ela assim relata em carta ao Pe. Gonçalves, no dia 4 de maio daquele ano: “Tive, por ordem de Sua Excia. Revma. [o Bispo titular de Gurza, D. Manuel Maria Ferreira da Silva], que manifestar, ao Sr. Arcebispo de Valladolid, um recado de Nosso Senhor para os Senhores Bispos cá de Espanha, e outro aos de Portugal. Deus queira que todos ouçam a voz do bom Deus. Deseja que os de Espanha se reúnam em retiro e determinem uma reforma no povo, clero e ordens religiosas; que alguns conventos!… e muitos membros de outros!… entende? Deseja que se faça compreender às almas que a verdadeira penitência que Ele agora quer e exige consiste, antes de tudo, no sacrifício que cada um tem de se impor para cumprir com os próprios deveres religiosos e materiais. Promete o fim da guerra para breve, em atenção ao ato que se dignou fazer Sua Santidade. Mas como ele foi incompleto, fica a conversão da Rússia para mais adiante. Se os Srs. Bispos da Espanha não atenderem aos seus desejos, ela será mais uma vez ainda o açoite com que Deus os pune” (cfr. Memórias e Cartas da Irmã Lúcia, p. 446).

Em 7 de julho de 1952, por meio da Carta Apostólica Sacro Vergente Anno, Pio XII consagrou os povos da Rússia ao Puríssimo Coração de Maria (ver o texto em Catolicismo, nº 21, de setembro de 1952).

Por ocasião do II Concílio Ecumênico do Vaticano, 510 Arcebispos e Bispos de 78 países subscreveram uma petição na qual rogam ao Vigário de Cristo que consagre ao Imaculado Coração o mundo todo e de modo especial e explícito a Rússia e as demais nações dominadas pelo comunismo, ordenando que, em união com ele e no mesmo dia, o façam todos os Bispos do orbe católico. O documento foi apresentado pessoalmente ao Santo Padre Paulo VI, pelo Arcebispo de Diamantina, D. Geraldo de Proença Sigaud, em audiência particular de 3 de fevereiro de 1964 (ver a íntegra do documento no nº 159 de Catolicismo, de março de 1964).

Muitas outras comunicações celestes tem tido a Irmã Lúcia…
Cabe-nos rezar com confiança para que, sem mais demora…

O Papa Paulo VI, ao encerrar a III Sessão do Concílio Vaticano II, no dia 21 de novembro de 1964, “confiou o gênero humano” ao Imaculado Coração de Maria, no mesmo ato em que, aplaudido de pé pelos Padres Conciliares, proclamou Nossa Senhora Mater Ecclesiae (cfr. Insegnamenti di Paolo VI, vol. II, 1964, p. 678).
João Paulo II fez duas consagrações do mundo ao Imaculado Coração de Maria, uma em Fátima, no dia 13 de maio de 1982, e outra em Roma, em 25 de março de 1984. Ambas as consagrações foram precedidas de um convite do Pontífice aos Bispos para se unirem a ele nesses atos. Não há, porém, dados positivos para avaliar até que ponto os Bispos do mundo inteiro realizaram a Consagração em união com o Papa, nem em 1982, nem em 1984. Em nenhuma das duas, também, a Rússia foi mencionada nominalmente.< Assim, a Irmã Lúcia sempre sustentou, até meados de 1989, que nenhuma das consagrações mencionadas tinha sido “válida” (tomada esta palavra no sentido de atendimento dos requisitos manifestados por Nossa Senhora à vidente). Para citar apenas um documento de maior peso, em entrevista que a vidente concedeu à revista do Exército Azul da Espanha, Sol de Fátima, em 1985, ela afirma:
“[Pergunta] — João Paulo II convidou todos os Bispos a se associarem à consagração da Rússia que ele efetuaria em Fátima no dia 13 de maio de 1982 e que repetiu no final do Ano Santo, em 25 de março de 1984 em Roma, diante da Imagem autêntica de Fátima. Não foi feito o que [Nossa Senhora] pediu em Tuy?
“[Resposta] — Não houve a participação de todos os Bispos nem foi mencionada a Rússia.
“[Pergunta] — De modo que não se fez a consagração conforme pediu a Santíssima Virgem?
“[Resposta] — Não. Muitos Bispos não deram importância a este ato” (Sol de Fátima, Madrid, nº 103, setembro-outubro de 1985, p. 8).
A partir de meados de 1989, entretanto, a Irmã Lúcia passou a reconhecer a validade da Consagração feita pelo Papa João Paulo II em 25 de março de 1984. Assim, por exemplo, na Apresentação do opúsculo A Mensagem de Fátima, Mons. Bertone cita uma carta da vidente de 8 de novembro de 1989, na qual ela afirma categoricamente: “Sim, [a consagração] está feita tal como Nossa Senhora a pediu, desde o dia 25 de março de 1984” (op. cit, p. 8). E no colóquio com a vidente em 17 de novembro de 2001, no Carmelo de Coimbra, a uma interpelação do mesmo Mons. Bertone, ela responde: “Já disse que a consagração desejada por Nossa Senhora foi feita em 1984, e foi aceita no Céu” (Boletim da Sala Stampa do Vaticano de 20-12-2001). Seria bem o momento de perguntar se a expressão “foi aceita no Céu” correspondia a uma dedução pessoal da vidente, ou a alguma iluminação sobrenatural. Esse ponto, entretanto, ficou sem esclarecimento
Uma tão brusca mudança de posição da Irmã Lúcia deixou perplexos os peritos, aderindo uns à nova posição, preferindo outros ater-se aos seus pronunciamentos anteriores.
O assunto é por demais complexo e extenso para o elucidarmos aqui. Bastaria de momento observar que, ao pronunciar-se sobre o eventual relacionamento dessa Consagração com os espetaculares acontecimentos ocorridos no Leste europeu, com o aparente desmoronamento do comunismo, principalmente no segundo semestre de 1989 — relacionamento esse que parece estar na raiz da mudança de posição da vidente — sempre se entendeu que a Irmã Lúcia estava emitindo uma opinião particular, e não transmitindo uma revelação sobrenatural.
Não obstante, interpelado por um jornalista, em 2004, se a “Irmã Lúcia viu Nossa Senhora outras vezes, depois das famosas aparições de 1917”, o Cardeal Bertone, já arcebispo de Gênova, respondeu afirmativamente, dando como exemplo “uma aparição na qual Nossa Senhora lhe manifestou ter acolhido de bom grado a consagração feita [em 1984] por João Paulo II, do mundo e da Rússia, ao seu Coração Imaculado” (cfr. Giuseppe de Carli, Eminenza, mi permette?, Piemme, 2004, p. 128).
Nos relatos dos colóquios que Mons. Bertone teve com a Irmã Lúcia, em 27 de abril de 2000, e depois em 17 de novembro de 2001, não consta nenhuma referência à mencionada aparição, apesar de esses relatos terem sido circunstanciados e cuidadosos (cfr. A Mensagem de Fátima, pp. 27-28; Boletim da Sala Stampa da Santa Sé de 20 de dezembro de 2001). Ora, seria normal que uma informação tão fundamental para a completa elucidação do assunto — como uma aparição de Nossa Senhora à Irmã Lúcia — constasse, com todos os pormenores (data, lugar e circunstâncias em que se deu etc.), nos referidos relatos. Considerado o empenho que a Santa Sé põe em que cessem as petições procedentes de diversas partes do mundo visando uma formal consagração da Rússia, seria de toda conveniência que esse dado decisivo fosse previamente esclarecido junto a Sua Eminência, que atualmente ocupa um dos postos mais elevados na hierarquia da Igreja, como é o cargo de Secretário de Estado. Fazemos votos de que isso seja reverentemente feito, por quem de direito, no momento adequado.
As exéquias da Irmã Lúcia comoveram o mundo

No dia 13 de fevereiro de 2005, Nossa Senhora chamou a Si a Irmã Lúcia, aos 97 anos de idade (completaria 98 no dia 22 de março seguinte). A notícia comoveu o mundo e fez afluir uma multidão incalculável ao Carmelo de Coimbra, o que representava uma espera de mais de três horas para desfilar diante dos despojos mortais da vidente.

O fato era cheio de significado: a última testemunha das aparições encerrava sua missão neste mundo. Um fiel exprimiu o sentimento geral com as seguintes palavras: “Agora eu me sinto só. É como se uma proteção que eu tinha tivesse desaparecido. Eu sinto necessidade de rezar pelo mundo” (apud Luis Dufaur, A morte da Irmã Lúcia e as profecias de Fátima, in Catolicismo, São Paulo, nº 651, março de 2005, p. 22).

O acontecimento pôs em foco, mais uma vez, a Mensagem de Fátima, cuja atualidade está longe de se extinguir, posto que os prognósticos nela contidos sobre o futuro da humanidade ainda estão em grande parte por se realizar, conforme mostramos detidamente ao longo deste trabalho.

As exéquias se realizaram no próprio Carmelo de Coimbra, onde foi provisoriamente inumada.

No ano seguinte, no dia 19 de fevereiro de 2006, cem mil peregrinos de todas as partes de Portugal e de pelo menos doze países acompanharam comovidos a cerimônia de trasladação dos restos mortais da vidente para a Basílica de Fátima. Ali, de há muito lhe estava preparado um lugar, no lado esquerdo do transepto, alinhado com a sepultura da Beata Jacinta. Simetricamente, do outro lado do transepto, repousam os restos mortais do Beato Francisco.

Como a dos dois outros videntes, a lápide da Irmã Lúcia diz, singelamente: “Irmã Maria Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado / A quem Nossa Senhora apareceu”.

Icone-pronto.png

Rodapé:

(1) Respondendo a uma pergunta de Walsh, na entrevista que a ele concedeu, sobre se, ao relatar as palavras do Anjo e de Nossa Senhora, repetira as palavras exatas que ouvira, ou apenas dera o sentido geral, a Irmã Lúcia declarou:

— “As palavras do Anjo tinham uma propriedade intensa e dominadora, uma realidade sobrenatural, de modo que não podiam ser esquecidas. Pareciam gravar-se exata e indelevelmente na minha memória. Com as palavras de Nossa Senhora era diferente. Eu não podia estar segura de que cada palavra era exata. Foi antes o sentido que eu aprendi, e pus em palavras o que entendi. Não é fácil explicar isso” (Walsh, ed. em inglês, p. 224).

Diante dessa dificuldade, de traduzir palavras humanas o que ouvira de Nossa Senhora — como é comum em certos fenômenos místicos — a Irmã Lúcia sempre pôs, entretanto, todo o empenho em reproduzir palavra por palavra o que a Santíssima Virgem lhe comunicou. Isto se torna claro no interrogatório a que a submeteu o Pe. Iongen, e que a seguir reproduzimos:

— “Quis limitar-se, pergunta o Pe. Iongen, revelando o segredo, a dar a significação do que a Santa Virgem lhe disse, ou citou as suas palavras literalmente?”

— “Quando falo das aparições limito-me à significação das palavras; quando escrevo, faço diligência, ao contrário, de citar literalmente. Eu quis, portanto, escrever o segredo palavra por palavra”.

— “Está certa de ter conservado tudo na memória?”

— “Penso que sim”.

— “As palavras do segredo foram portanto reveladas pela ordem em que lhe foram comunicadas?”

— “Sim” (De Marchi, pp. 308-309).

(2) Os videntes sempre entenderam que a última aparição seria em outubro, o que aliás lhes foi explicitamente dito na aparição de agosto. Os “seis meses seguidos” incluem, portanto, a primeira aparição. A sétima, da qual se falará adiante, está fora da série (cfr. Capítulo IV).

(3) Sempre se entendeu que a ordem de aprender a ler era apenas para Lúcia, uma vez que os outros videntes iriam ser levados em breve para o Céu, conforme promessa de Nossa Senhora nesta mesma aparição. Entretanto, a Irmã Lúcia escreve no plural: “e que aprendais a ler” (cometendo, aliás, um pequeno lapso de redação, pois passa da segunda para a terceira pessoa do plural, na mesma frase).

(4) Os videntes guardaram a mais estrita reserva sobre o que lhes foi dito na aparição do mês de junho, acerca da devoção ao Imaculado Coração de Maria, chegando mesmo a declarar que Nossa Senhora lhes tinha revelado um segredo (o chamado “segredo de junho”). Em suas Memórias, a Irmã Lúcia explica que a Santíssima Virgem não lhes pediu propriamente segredo sobre esse ponto. “Mas sentíamos que Deus a isso nos movia”, acrescentou a vidente (IV Memória, p. 336).

(5) Os autores fornecem alguns detalhes sobre as graças aqui pedidas por Lúcia a Nossa Senhora. Uma delas foi a cura do filho paralítico de Maria Carreira. Nossa Senhora respondeu que não o curaria nem o tiraria de sua pobreza, mas que rezasse o terço todos os dias em família e dar-lhe-ia os meios de ganhar a vida (cfr. De Marchi, p. 91, e Ayres da Fonseca, p. 42).

Outro enfermo pedia para ir em breve para o Céu. Nossa Senhora respondeu que não tivesse pressa, que bem sabia quando o havia de vir buscar (cfr. De Marchi, p. 91).

Walsh (p. 86) refere que “Jacinta falou [a seus pais] no desejo de Nossa Senhora que fosse o terço rezado, todos os dias, em cada família”. Entretanto, a única referência que encontramos a essa piedosa prática, nos relatos das aparições, é o conselho que acabamos de referir, dado ao filho de Maria Carreira.

(6) Nas declarações prestadas em fevereiro de 1946 ao Montfortino holandês Pe. Iongen, a Irmã Lúcia confirmou ter ouvido Nossa Senhora pronunciar o nome de Pio XI, não sabendo, na ocasião, se se tratava de um Papa ou de um Rei.

Para a Irmã Lúcia não representa maior dificuldade o fato de se entender habitualmente que a guerra começou somente sob o pontificado de Pio XII. Observa ela que a anexação da Áustria — e, poderíamos acrescentar, vários outros acontecimentos políticos do fim do reinado de Pio XI — constituem autênticos prolegômenos da conflagração, a qual se configuraria inteiramente como tal algum tempo depois (cfr. entrevista ao Pe. Iongen, em De Marchi, p. 309).

(7) Lúcia julgou ver “o grande sinal que Deus vos dá de que vai punir o mundo de seus crimes” na luz extraordinária — que os astrônomos tomaram como um aurora boreal — que iluminou os céus da Europa na noite de 25 para 26 de janeiro de 1938 (das 20h45 até 1h15, com breves intermitências). Convencida de que a guerra mundial — que “havia de ser horrível, horrível” — ia deflagrar, redobrou de esforços para obter que se atendesse aos pedidos que — como se verá no Capítulo IV — lhe tinham sido comunicados. Escreveu uma carta diretamente ao Papa Pio XI, nesse sentido (cfr. De Marchi, p. 92; Walsh, pp. 179-181; Ayres da Fonseca, p. 45).

(8) A visão do inferno e o anúncio de coisas futuras que se lhe segue constituem as duas partes conhecidas do segredo de Fátima, comunicado aos videntes durante a aparição de julho.
No prefácio da edição brasileira dos escritos da Irmã Lúcia, o Pe. Antonio Maria Martins, S.J., afirma de modo categórico, que a terceira parte do Segredo, "cujo texto não foi ainda divulgado, trata apenas da chamada 'Crise da Igreja' (op. cit., p. XVIII). O autor não explica como soube disso nem dá maiores esclarecimentos sobre o assunto. De qualquer modo, a informação é tão plausível, que quase se deveria dizer que o Segredo não podia deixar de versar essa gravíssima matéria. Isto explicaria, quiçá, porque esta parte da Mensagem não foi ainda divulgada, apesar da enorme expectativa existente em todo o mundo.

É interessante notar que em Memórias III, a Irmã Lúcia termina o relato da segunda parte do Segredo com as palavras: "E será concedido ao mundo algum tempo de paz". Em Memórias IV, ela acrescenta imediatamente em seguida, à maneira de conclusão: "Em Portugual se conservará sempre o Dogma da Fé, etc." De onde parece lógico deduzir-se que o Dogma da Fé se perderá numa extensão tão grande do mundo, que é digno de menção especial o fato de ele se conservar em Portugual. Mas o que significa propriamente conservar-se ou não conservar-se o Dogma da Fé em determinado país? É difícil precisar. Entretanto, qualquer que seja o alcance que se dê à essa espressão, é evidente que ela se refere à uma crise da Fé. E assim desembocamos novamente, de cheio, no gravíssimo tema da presente crise na Igreja, posto que a crise da Fé é a raiz mesma dessa crise.

Por outro lado, o "etc." com que a Irmã Lúcia concluiu a narração sugere a idéia de que a terceira parte do Segredo se insere justamente neste ponto do relato e faz nexo com a frase que vem de ser dita. Ora, esta permite inferir, como acabamos de ver a ocorrência de uma crise da Fé católica no mundo inteiro. Assim, a conjectura de que a crise na Igreja seja o tema da terceira parte do Segredo ganha muito em verossimilhança.

Entretanto, se deixamos de lado das conjecturas - aliás plausíveis e atentamos para a realidade, um dos aspectos mais espantosos da Crise na Igreja é justamente o da infultração esquerdista em meios católicos. Esse aspecto da crise já era tão alarmante em 1968, que nesse ano 1.600.000 brasileiros, 280.000 argentinos, 105.000 chilenos e 25.000 uruguaios subscreveram uma mensagem à Sua Santidade o Papa Paulo VI pedindo urgentes medidas para conter tal infiltração (os memoráveis abaixo-assinados foram promovidos pelas Sociedades de Defesa da Tradição, da Família e Propriedade dos respectivos países).

Ora, o comunismo é exatamente o flagelo com que Deus quer punir o mundo de seus crimes. Nossa Senhora diz, na segunda parte do Segredo, que "a Russia espalhará os seus erros pelo mundo". Quando vemos que esses erros atingiram a nau sacrossanta da Igreja Católica - Paulo IV afirma mesmo ter a senção de que "a fumaça de Satanás haja entrado por alguma fissura no templo de Deus" (sermão de 29 de Junho de 1972) - não podemos deixar de pensar que haveria uma grande congruência entre a segunda e a terceira parte do Segredo, se esta tratasse, efetivamente da crise da Igreja.

Por fim, a Irmã Lúcia frisa que "o Segredo consta de três coisas DISTINTAS" (cf. Memórias III, p. 218). A primeira é a visão do inferno; a segunda o anúncio do Castigo e dos meios de evitá-lo; a terceira diria respeito - conforme a asserção do Pe Antonio Maria Martins, S. J., e as conjecturas que acabamos de fazer - à crise na Igreja, fator de condenação ao inferno de um número incontável de almas (primeira parte do Segredo) e uma das causas do Castigo que se abaterá sobre o mundo (segunda parte do Segredo).

(9) Circulam formulações um tanto diversas desta jaculatória. Pequenas variantes aparecem até mesmo nos manuscritos e entrevistas da Irmã Lúcia. A formulação que registramos encontra-se na IV Memória, pp. 340 e 342, e foi confirmada pela vidente na entrevista a Walsh (p. 197). Na III Memória, p. 220, em vez de “aquelas”, aparece “as”; o mesmo ela consigna em carta ao Pe. José Bernardo Gonçalves SJ (cfr. Memórias e Cartas da Irmã Lúcia, p. 442). Na resposta ao interrogatório do Dr. Goulven, entretanto, a frase final tem a seguinte redação: “e socorrei principalmente as que mais precisarem” (cfr. Sebastião Martins dos Reis, A Vidente de Fátima dialoga e responde pelas Aparições, p. 39). Como se vê, esta última formulação é a que mais se afasta das outras; mas é também aquela em que a vidente menos insiste, constando de apenas um documento. Aliás não se sabe se o Cônego Sebastião Martins dos Reis, que o publicou, transcreveu-o diretamente do manuscrito ou de uma cópia datilografada; nesta última hipótese, seria interessante confrontar o manuscrito e a cópia datilografada do citado interrogatório, para se constatar se não houve algum erro de transcrição.

O certo é que os videntes, ao rezarem a jaculatória entendiam-na aplicada às almas que se encontram em maior perigo de condenação, e não às almas do Purgatório. Afirma-o expressamente a Irmã Lúcia em carta de 18 de maio de 1941, ao Pe. Gonçalves: “Traduziram-na [a jaculatória] fazendo a última súplica pelas almas do Purgatório, porque diziam não entender o sentido das últimas palavras; mas eu creio que Nossa Senhora se referia às almas que se encontram em maior perigo de condenação. Foi esta a impressão que me ficou, e talvez a V. Revcia. lhe pareça o mesmo depois de ter lido a parte que escrevi do Segredo, e sabendo que nô-la ensinou a seguir, na 3ª [aparição, em] julho” (cfr. Memórias e Cartas da Irmã Lúcia, p. 442). Por isso, a fórmula “Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, aliviai as almas do Purgatório, especialmente as mais abandonadas” é certamente incorreta.

O emprego do diminutivo “alminhas” é um provincianismo português, razão pela qual se costuma recitar a jaculatória usando essa palavra na forma normal.

(10) Assaltados, após esta aparição, por perguntas sobre o que Nossa Senhora teria dito, os videntes anunciaram que se tratava de segredo. — “Bom ou mau?”, insistiram os interlocutores. — “Bom para uns, mau para outros”, responderam as crianças (cfr. De Marchi, p. 94; Walsh, ed. em inglês, p. 84: a ed. em português omitiu este diálogo).

Antes da última aparição, interrogados Francisco e Jacinta pelo Cônego Dr. Manuel Nunes Formigão, sobre se “o povo ficava triste se soubesse o segredo”, responderam: — “Ficava” (cf. De Marchi, pp. 151-152; Walsh, p. 121).

O castigo predito na segunda [parte do Segredo] aparição de julho teria consistido exclusivamente na guerra de 1939-1945? A análise do texto parece levar à conclusão de que a segunda guerra mundial não foi senão o início ou vestíbulo do grande castigo.

De fato, Nossa Senhora anuncia que “várias nações serão aniquiladas”. Ora, várias nações foram duramente punidas durante a guerra e depois dela, mas não se pode dizer que tenham sido aniquiladas.

Por outro lado, a Irmã Lúcia, em entrevista que concedeu a Walsh, já depois de terminada a conflagração (15 de julho de 1946), observou: “Se isto for feito [a consagração da Rússia], Ela [a Santíssima Virgem] converterá a Rússia, e haverá paz. Se não, os erros da Rússia se propagarão por todos os países do mundo”. — “Na sua opinião, perguntou Walsh, isto significa que todos os países, sem exceção, serão conquistados pelo comunismo?” — “Sim”, respondeu a vidente (Walsh, ed. em inglês, p. 226).

Ora, a expansão do comunismo e a sua difusão ideológica por todo o mundo começaram mais definidamente com o fim da guerra. E não cessou sequer com a queda do Muro de Berlim (1989) e o colapso da União Soviética (1991), pois, metamorfoseado, prossegue sua expansão em diversas partes do mundo, inclusive na “católica” América Latina. Assim, deve-se pensar que o castigo anunciado pela Mãe de Deus continua em curso.

Finalmente, se o castigo já tivesse passado, dever-se-ia também ter cumprido a parte da mensagem que fala da vitória de Maria Santíssima e da instauração de seu Reino, claramente indicadas pelas palavras: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará”. Ora, isto é justamente o que menos se pode dizer que tenha ocorrido.

Por tudo isto, parece-nos que os terríveis sofrimentos da segunda guerra mundial não devem ser considerados senão como prolegômenos dos castigos anunciados por Nossa Senhora e que ainda estão por se completar.

(11) Há alguma dúvida sobre esta data. A própria Irmã Lúcia não se lembra ao certo: na II e na IV Memórias diz que foi no dia 15; mas na resposta ao Dr. Goulven opta pelo dia 19, escrevendo à margem: “É ao que eu mais me inclino, porque para ser no dia 15, teríamos estado só um dia inteiro na prisão; e recordo que estivemos mais” (Sebastião Martins dos Reis, A Vidente de Fátima dialoga e responde pelas Aparições, p. 43).

No inquérito canônico do dia 8 de julho de 1924, Lúcia faz um relato circunstanciado, dia por dia, de sua prisão (juntamente com os outros videntes), e diz que os três voltaram de Ourém no dia 16. No entanto, os editores da Documentação Crítica de Fátima afirmam que Lúcia se equivoca, e que foi no dia 15 que regressaram a Fátima (cfr. vol. I, pp. 296, 370 e 380-381).

Ora, tanto em suas Memórias (II e IV), como no inquérito canônico, Lúcia afirma peremptoriamente que a aparição dos Valinhos ocorreu no mesmo dia de sua volta de Vila Nova de Ourém, a qual, portanto, ter-se-ia dado no dia 15.

Por outro lado, como as crianças foram raptadas no dia 13, a ter-se dado a aparição no dia 19, elas teriam ficado presas seis dias, o que também parece excessivo. Por isso, Galamba de Oliveira (p. 83) opta pelo dia 15, ponderando que pode ter havido um erro de contagem de uma noite e um dia, na narrativa feita por Lúcia perante a comissão canônica, em 1924.

Não obstante, a maioria dos autores dá como certa a data de 19 de agosto, correspondente ao domingo subseqüente, pois a vidente se recorda de que a aparição se deu num dia de preceito (também o dia 15, Assunção de Nossa Senhora, era dia de preceito…).

(12) Neste ponto, De Marchi acrescenta às palavras de Nossa Senhora: “Se não vos tivessem levado à aldeia (termo corrente na região para designar Vila Nova de Ourém, outrora aldeia), o milagre seria mais grandioso”. Nenhum outro autor registra essa frase, que também não aparece nas Memória da Irmã Lúcia.

O Cônego Formigão, no seu interrogatório de 2 de novembro de 1917, anotou uma frase de sentido diverso: “Se não tivessem sido presas não seria o milagre tão conhecido”. O que justifica o comentário da Documentação Crítica de Fátima: “A prisão das crianças, com a intervenção da autoridade administrativa, criou uma maior expectativa em relação ao anunciado milagre de 13 de outubro” (op. cit., vol. I, p. 18). Nenhuma das duas versões aparece nas Memórias da Irmã Lúcia.

(13) Pelo relatório que Lúcia fez desta aparição ao Prior da freguesia de Fátima no dia 21 de agosto de 1917, confirmado pelas respostas ao inquérito canônico do dia 8 de julho de 1924, esta última frase não teria sido dita na quarta, mas na quinta aparição, onde De Marchi a coloca (cfr. De Marchi, p. 127).

(14) As crianças tinham passado a usar como cilício um pedaço de corda grossa, que não tiravam nem para dormir. Isto lhes impedia muitas vezes o sono, e passavam noites inteiras em claro. Daí o elogio e a recomendação de Nossa Senhora.

(15) De Marchi continua a frase de Nossa Senhora: “porque Nosso Senhor não se fia neles”.

O pároco de Fátima anotou uma frase de sentido idêntico: “porque Nosso Senhor não quer crer neles” (cfr. Documentação Crítica de Fátima, vol. I, p. 22).

Nas respostas ao Dr. Goulven, a Irmã Lúcia diz que não se recorda de ter referido esta frase (cfr. Sebastião Martins dos Reis, A Vidente de Fátima dialoga e responde pelas Aparições, p. 45).

De Marchi coloca, neste ponto, ainda o seguinte pedido de Lúcia a Nossa Senhora: “Há muitos que dizem que eu sou uma intrujona, que merecia ser enforcada ou queimada. Faça um milagre para que todos creiam”.

Nenhuma dessas frases aparece nas Memórias da Irmã Lúcia.

(16) De Marchi acrescenta o seguinte diálogo:

Lúcia: “Umas pessoas deram-me duas cartas para Vossemecê e um frasco de água de colônia”.

Nossa Senhora: “Isso de nada serve para o Céu”.

Tal colóquio, com pequenas variantes, também foi anotado pelo Pároco de Fátima (cfr. Documentação Crítica de Fátima, vol. I, p. 22).

Entretanto, em resposta ao interrogatório do Pe. José Pedro da Silva, a Irmã Lúcia diz que não se lembra de ter oferecido “água de cheiro” a Nossa Senhora (cfr. Sebastião Martins dos Reis, A Vidente de Fátima dialoga e responde pelas Aparições, p. 63). Este colóquio também não aparece nas Memórias da vidente.

(17) Em carta de 18 de maio de 1941 ao Pe. José Bernardo Gonçalves SJ, a Irmã Lúcia esclarece que, neste ponto, Nossa Senhora disse que concederia algumas dessas graças dentro de um ano, e outras não (cfr. Memórias e Cartas da Irmã Lúcia, p. 442).

(18) De Marchi conclui esta aparição da seguinte maneira:

Lúcia: “Não quer mais nada de mim”.

Nossa Senhora: “Não quero mais nada”.

Lúcia: “E eu também não quero mais nada”.

Esse pitoresco colóquio não aparece nas Memórias da Irmã Lúcia. Entretanto, o Pároco de Fátima, em seu interrogatório à vidente logo no dia 16 de outubro, anotou as duas primeiras frases deste diálogo, com pequenas variantes (cfr. Documentação Crítica de Fátima, vol. I, p. 24).

(19) Em julho de 1919, Jacinta fora levada para o Hospital de Vila Nova de Ourém, ficando ali dois meses.

(nn) Alguns comentários ainda serão digitados.

Salvo indicação em contrário, o conteúdo desta página é licenciado sob Creative Commons Attribution-ShareAlike 3.0 License